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INTRODUÇÃO
Para iniciarmos o assunto propriamente dito, seria
interessante definir primeiro o que é Vigilância Sanitária e depois
definirmos zoonoses, para saber a relação entre os dois aspectos.
Assim, através da Lei 8.080 de l9/09/80 do Ministério
da Saúde, Artigo 6, 1o Parágrafo, a Vigilância Sanitária
foi definida como um conjunto de ações capaz de eliminar, diminuir ou
prevenir riscos a saúde (estudo das zoonoses) e de intervir nos problemas
sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de
bens e da prestação de serviços de interesse da saúde, abrangendo:
a) o controle de bens de consumo que, direta ou indiretamente
se relacionam com a saúde, compreendidas todas as etapas e processos,
de produção ao consumo;
b) o controle da prestação de serviços que se relacionam
direta ou indiretamente com a saúde;
c) controle das zoonoses de maior importância em
saúde pública.
Portanto, tendo em vista as principais atuações da
Vigilância Sanitária, vamos entrar no estudo das zoonoses que são doenças
ou infecções que mais nos interessam e que passaremos a estudar.
CONCEITUAÇÃO
DAS ZOONOSES
Desde os primórdios da história, o homem começou
a perceber que ele era suscetível de adquirir doenças dos animais. Os
hebreus da época de Moisés (séc. XV ;i. C.) por exemplo, já conheciam
a raiva e sabe-se que existia entre eles um dito popular que dizia:
"Ninguém acreditará no homem que disser ter sido mordido por um
cão raivoso e ainda esteja vivo". Referências ao mormo e sua
transmissão ao homem existem nos escritos de Aristóteles e Hipócrates,
que viveram no século IV a.C. Virgílio, poeta romano do século I a.C.,
reconheceu ser o carbúnculo hemático (antrax) no homem transmitido pelo
tosquiamento de carneiros mortos pela doença. Todavia, foi somente
após a descoberta das características de certas bactérias e outros organismos
interiores, que se puderam estabelecer analogias entre muitas doenças
contagiosas do homem e dos animais.
O vocábulo ZOONOSES foi introduzido na literatura
médica pelo Médico Alemão Rudolf Wirchow, no século passado (XIX),
para caracterizar as doenças animais que podiam ser transmitidas ao
homem. Etmologicamente a palavra é originária do grego, sendo que seu
prefixo "zoon" significa animal e o sufixo "nosos",
doenças, traduzindo-se literalmente por doenças animal. Embora a palavra
não reflita bem este sentido, o vocábulo ficou consagrado pelo uso,
passando a ser, naturalmente, utilizada nas ciências médicas.
A amplitude do termo gerou inúmeras discussões com
a finalidade de conceituar de uma maneira mais racional e significativa,
as zoonoses. Assim, em 1966, durante a realização do "3o
Encontro de Peritos em Zoonoses da Oganização Mundial da Saúde",
conseguiu-se chegar a um consenso, definindo-se as zoonoses como: "as
doenças e infecções naturalmente transmissíveis entre os hospedeiros
vertebrados e o homem".
A presença dos vocábulos "doença" e "infecção"
tem a finalidade de enfatizar as condições que um hospedeiro poderá
apresentar, isto porque o animal infectado pode não evidênciar manifestações
clínicas (sintomas) que permitam sua identificação no meio, ao contrário
do animal doente, o qual manifestará evidências de alterações orgânicas.
Assim, na febre Q, por exemplo, os bovinos podem constituir-se em fontes
de infecção para o homem, observando-se neste hospedeiro (homem) manifestações
clínicas (sintomas) decorrentes da ação patogênica de ricketsia, responsável
pela doença Coxiella burnetti. O mesmo raciocínio se aplica à
raiva silvestre, em que os morcegos hematófagos constituem reservatório
para o vírus da doença, não apresentando, via de regra, sintomas de
infecção, mais com capacidade de transmiti-lo a outros animais e ao
próprio homem.
ASPECTOS
GERAIS
As zoonoses na atualidade constituem os riscos mais
freqüentes e mais temíveis a que a humanidade está exposta, relacionando-se
neste contexto cerca de 150 doenças até 180 (SCHWABE, 1984).
A demanda cada vez maior de alimentos de origem animal,
provocando implicitamente o incremento das indústrias zootécnicas através,
principalmente, dos aumentos substanciais dos rebanhos, constitui fator
decisivo para aumentar os riscos de exposição às zoonoses. Outro fator
a ser ponderado diz respeito à urbanização dos centros mais desenvolvidos
da esfera industrial e ao hábito de criar em casa e apartamento "animais
de estimação" tais como cães, gatos, aves ornamentais, quelônios,
hamsters e até pequenos símios, contribuindo para aumentar ainda mais
este tipo de risco. Por outro lado, os modernos meios de transporte
rodoviário, ferroviário, marítimo e aeroviário favorecem a disseminação
destas doenças através da condução acidental de vertebrados (reservatórios)
ou invertebrados (vetores) de uma região endemica a outra indene. Da
mesma forma a comercialização de animais (importação ou exportação)
ou a sua deslocação para feiras ou exposições aumenta a probabilidade
de transmissão destas infecções.
De acordo com a gravidade das senses, podemos dividila,
teoricamente, em três grandes grupos:
l) igualmente graves para o homem e para os animais:
Carbúnculo hemático, Raiva e Tuberculose bovina;
2) graves para o homem e raramente (ou ligeiramente)
prejudiciais à saúde animal: Brucelose, Febre Q, Hidatidose.
3) que raramente afetam ao homem, mas provocam graves
epizootias (epidemias animais): Febre Aftosa, Pasteurelose, Pseudo raiva.
A maior ou menor gravidade de cada uma das zoonoses
em particular, pode diferir de acordo com a região considerada e com
a época de ocorrência.
CLASSIFICAÇÃO
Várias tem sido as classificações propostas para
as zoonoses, porém, a apresentada por SCHWABE, 1984, é a mais adotada
por ser considerada a mais completa e fundamentalmente, baseia-se no
ciclo de vida do agente etiológico.
1) ZOONOSES DIRETAS: A transmissão se dá de um hospedeiro
vertebrado infectado a um vertebrado suscetível, por contato, veiculação
ou vetor mecânico. Ex.: Raiva, Brucelose.
2) CICLOZOONOSES: Há a participação de mais de umaespécie
de hospedeiro vertebrado na cadeia de transmissão.Ex.: Cisticercose,
Hidatidose.
3) METAZOONOSES:São transmitidas biologicamente através
de vetores invertebrados. No interior do organismo do hospedeiro invertebrado,
o parasita realiza uma fase do seu ciclo biológico durante um determinado
intervalo de tempo, ao qual se denomina "período extrínseco de
incubação", que precede a transmissão a outro hospedeiro vertebrado.
Na dependência dos hospedeiros necessários para a
formação da cadeia de transmissão, as metazoonoses se dividem em quatro
tipos:
a) requerem um hospedeiro vertebrado e outro invertebrado.
Ex.: Febre amarela.
b) requerem um hospedeiro vertebrado e dois invertebrados.
Ex.: paragonimíase.
c) requerem dois hospedeiros vertebrados e um invertebrado.
Ex.: clonorquíase.
d) representam a transmissão transovariana. Ex.:
encefalite dos carneiros (Lomping-ill).
4) SAPROZOONOES: Há a participação de um hospedeiro
vertebrado e de um elemento não pertencente ao reino animal, tais como
o solo, matéria orgânica e plantas. Ex. : Histoplasmose e Ancilostomíase
(solo), Fasciolose (plantas).
Além dessa classificação, hoje também começa a ser
levada em consideração aquela que relaciona as zoonoses com os agentes
etiológicos. Assim, é que, em 1978, em Genebra, o grupo de Expertos
da OMS discutiram exclusivamente as zoonoses parasitárias; em 1981,
em Genebra, os expertos discutiram as zoonoses bacterianas e viricas
e já se está estudando a possibilidade de reunião dos expertos para
o estudo das zoonoses micóticas.
Hoje, em dia, as duas classificações são aceitas,
e uma complementa a outra.
VIAS
DE TRANSMISSÃO
A transmissão das zoonoses pode ocorrer através das
seguintes vias:
1 ) TRANSMISSÃO DIRETA: Um hospedeiro vertebrado
infectado transmite o parasita a outro hospedeiro vertebrado suscetível
através do contato direto. Ex.: a raiva, brucelose, carbúnculo hemático,
sarnas, microsporidioses, tricofitoses.
2) TRANSMISSÃO INDIRETA: Pode ocorrer através de
diferentes vias:
2.1 ) Alimentos - Ex.: leptospirose, botulismo, carbúnculo
hemático, brucelose, tuberculose, salmoneloses, teníases, triquinelose.
2.2) Secreções - Ex.: Raiva, brucelose.
2.3) Vômitos - Ex.: leptospirose, peste, sarna, brucelose.
2.4) Artrópodes - Ex.: febre amarela, encefalomielite
equina, tifo e peste.
IMPORTÂNCIA
EM SAÚDE PÚBLICA
Nos países em desenvolvimento a canalização de recursos
está dirigida para a assistência médica, resultando em inversões mínimas
para a medicina preventiva. A ocorrência de "doença" na população
acarreta a baixa produção de bens e serviços com a conseqüente redução
dos níveis salariais. 0 baixo poder aquisitivo da população conduz a
padrões deficientes de alimentação, moradia inadequada e à diminuição
do nível de educação. Este ciclo vicioso, chamado de "ciclo econômico
da doença", fecha-se com a ocorrência de mais doença, diminuindo
ainda mais o potencial de trabalho da população humana. Colateralmente,
verifica-se uma pequena inversão de capital e de conhecimento técnico
na pecuária, favorecendo a ocorrência e disseminação de doenças entre
os animais, muitas delas de Caráter Zoonótico, agravando ainda mais
a já deficiente condição de saúde do homem. Em decorrência deste fato,
verifica-se baixa natalidade e elevadas morbidade e mortalidade nos
rebanhos, gerando, em conseqüência, a produção de bens e serviços cada
vez mais baixos.
Para se aquilatar a importância das zoonoses em Saúde
Pública, basta lembrar que, das seis doenças em que a notificação dos
casos é exigida universalmente, duas pertencem a este grupo, a Peste
e a Febre Amarela, e ambas ocorrem no Brasil.
Das doenças obrigatoriamente notificáveis de acordo
com as Normas Técnicas Especiais relativas à Preservação da Saúde no
Estado de São Paulo, dez pertencem ao Grupo de Zoonoses a saber: Febre
Amarela, Peste, Leptospirose, Raiva Humana, Carbúnculo Hemático, Tuberculose,
Brucelose, Ricktesioses, Arboviroses e Doença de Chagas.
De maneira geral, não existem muitos dados estatísticos
disponíveis e fidedignos sobre a ocorrência das diferentes zoonoses
no Brasil. Vários fatores contribuem para agravar esta situação, tais
como, a grande extensão territorial, a escassez dos serviços de saúde
e de recursos médicos em muitas regiões, a deficiente educação sanitária
de grande parte da população e diversos problemas de esfera administrativa
e política.
Algumas zoonoses não constituem problema de saúde
pública propriamente dito, porque raros são os casos humanos até hoje
descritos. A Febre Aftosa enquadra-se neste contexto; embora
nao acarrete prejuízos diretamente h saúde pública é responsável por
grandes perdas na pecuária, e, implicitamente, à economia nacional.
A Raiva Urbana, por outro lado, apresenta
coeficientes de morbidade e mortalidade baixos, porém, constitui um
grande problema para a Saúde Pública em função de letalidade no homem
ser de100%. Via de regra, nos casos de acidentes com animais suspeitos,
várias pessoas são envolvidas, o que acarreta um grande onus ao Estado
com o tratamento preventivo aos expostos ao risco de infecção. Em saúde
animal, na raiva silvestre (rural) os prejuízos são decorrentes da perda,
às vezes, de grande número de animais de um mesmo rebanho.
A Leptospirose, a Raiva, as Salmoneloses, a Brucelose
e as Teníases ocorrem em todos os Estados da Federação. As arboviroses
apresentam elevada prevalência nas zonas de matas, Amazônia principalmente,
mas, levantamentos epidemiológicos demonstram infecções humanas com
ou sem manifestações clínicas, em outras regiões, tal como o sul do
país, Mato Grosso, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
A Hidatidose tem incidência primordial no Rio Grande
do Sul atingindo ainda Santa Catarina e Paraná e representa um grave
problema de Saúde Pública. O mesmo ocorre com a Cisticercose, que ainda
constitui um risco permanente para os consumidores de carne suína.
A Leptospirose apresenta prevalência moderada nos
rebanho: bovino e suíno. Por sua vez a Brucelose apresenta alta morbidade
e baixa mortalidade; todavia é um problema de saúde ao nível de grupos
profissionais, tais como empregados de matadouros, granjas leiteiras,
veterinários e tratadores de animais, embora acarrete, anualmente, consideráveis
prejuízos à pecuária e a suinocultura.
A Tuberculose, além dos prejuízos à indústria animal,
determina a redução da mão de obra humana disponível para o trabalho,
porquanto após a alta hospitalar o indivíduo nem sempre pode voltar
às suas atividades anteriores como é o caso dos trabalhadores braçais.
Em razão dos fatos apresentados, pode-se concluir que qualquer que seja
a zoonose considerada, de maior ou menor gravidade para o homem e para
os animais, esta sempre contribuirá para diminuir a produção de bens
e serviços com todas as suas conseqüências.
CONTROLE
Em decorrência da importância das zoonoses, tanto
do ponto de vista social quanto do ponto de vista econômico, é necessária
a adoção de medidas capazes de minimizar estes transtornos através de
aplicação de métodos adequados para a prevenção, controle ou erradicação
destas doenças.
Para que a aplicação destes métodos possa ser bem
sucedida, é de suma importância o conhecimento de prevalência de cada
uma das zoonoses. Assim, é necessário proceder-se a minuciosos inquéritos
epidemiológicos, utilizando-se para tanto dos registros dos serviços
de saúde pública e saúde animal, dos dados obtidos nas propriedades
rurais das informações dos médicos veterinários e dos relatórios das
indústrias de laticínios e matadouros. Conhecida a magnitude de cada
um dos problemas, são estabelecidas as prioridades de ação, adotando-se
programas eficientes com a finalidade de interromper a cadeia de transmissão
destas zoonoses, seja pela atuação sobre as fontes de infecção, vias
de transmissão ou suscetíveis.
O combate às zoonoses pode ser realizado ao nível
de cooperação internacional e dentro de uma mesma ação, ao nível central,
regional ou local.
No entanto, qualquer que seja o programa de controle
adotado, é de fundamental importância que ao mesmo seja dado continuidade
e que os procedimentos de vigilância sanitária sejam adequadamente aplicados,
caso contrário, aos prejuízos econômicos já decorrentes de incidência
de uma determinada zoonose, somar-se-ão os de uma campanha mal sucedida.
Em vista de tudo o que foi dito, verificamos a relação
estreita entre a Vigilância Sanitária e o Controle de Zoonoses.
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