|
ÁGUA
Tendo
em vista a grande variedade de suas funções e a magnitude
de seus requisitos, a água pode ser considerada o nutriente essencial
mais importante para os animais. A água é o maior constituinte
do corpo, e a manutenção estável de sua quantidade
é rigidamente controlada nos mamíferos e aves. O corpo humano
pode perder praticamente toda a gordura e acima da metade da proteína
e sobreviver, enquanto a perda de um décimo da água pode
resultar em morte. O mesmo pode ocorrer com os animais domésticos,
variando entre as espécies a capacidade de perdê-lo. O jumento,
provavelmente, está entre os mais resistentes, pois sobrevive a
perdas hídricas acima de 30% do seu peso.
Monticelli (1993) citado por Butolo (2005a), publicou alguns dados referentes
à quantidade de água no planeta estimando em 1.400 milhões
de km3. Entretanto, 97% dessa quantidade é formada por água
salgada, portanto a água doce se restringe a mais ou menos 3% da
água existente na terra. Devemos levar em conta que destes 3%,
a água existe em forma de geleiras e em depósitos profundos
de difícil exploração. Chega-se, portanto à
conclusão de que a água que pode satisfazer às necessidades
do homem e dos animais, é a água doce superficial e a água
subterrânea que possibilita a sua exploração econômica,
gira em torno de 14.000 km3 (Figura1).
|
|
|
|
Figura
1: Total de água no planeta e total de água doce
Fonte: Butolo, (2005a)
|
PROPRIEDADES
E FUNÇÕES
·
É um constituinte ativo e estrutural e não meramente um
solvente das substancias presentes no corpo.
·
É o componente corporal com maior taxa de reciclagem
· Compreende cerca de 70% da carcaça desengordurada dos
animais adultos, variando pouco dos mamíferos.
·
Veículo dos nutrientes na digestão, absorção,
transporte para as células e excreção.
·
É o dispersante ideal, devido ao seu poder ionizante, o que facilita
as reações tissulares.
·
Por causa do deu alto calor específico, é capaz de absorver
o calor produzido nas reações, dissipando-as para a pele,
pulmões e luz intestinal.
·
O calor latente de evaporação (540 cal/g) exerce importante
papel na regulação da temperatura corporal.
·
A alta tensão superficial auxilia na coesão das células
e a manutenção das articulações.
·
É o material com maior constante dielétrica (80) e é
razão de ser a água um solvente universal.
·
Na solubilização, há formação de hidratos,
o que facilita as reações químicas por dispor os
íons em contato mais intimo uns com os outros.
·
As propriedades de solvente, dispersante e dielétrica são
ajudadas pela baixa viscosidade - menor que qualquer outro líquido
comum, o que permite a sua passagem, e a das substancias nela dissolvidas,
pelos mais finos capilares do organismo, sem muito atrito e, portanto,
baixa exigência do coração.
·
As reações enzimáticas que ocorrem na digestão
e metabolismo, em grande parte, implicam em adição (hidrólise)
ou de substração de moléculas de água ao substrato.
·
Secreção de hormônios, enzimas e outras substancias
bioquímicas.
·
Manutenção da pressão osmótica intra-celular.
·
Equilíbrio ácido-básico : homeostase orgânica
·
É constituinte principal de líquidos orgânicos particulares:
sinóvia, fluido aquoso, cefalorraquidiano, perilinfa e amniótico,
onde exerce ação lubrificante e de proteção.
METABOLISMO
DA ÁGUA
Do
ponto de vista econômico, a água representa o nutriente de
mais baixo custo, no entanto, fisiologicamente é essencial no metabolismo
orgânico. A bioquímica nutricional da água é
complexa, não é uma simples molécula HOH (Figura
2). Uma grande parte das moléculas de água estão
interligadas por pontes de hidrogênio formando complexas macromoléculas,
assim esta facilidade e rapidez com que ocorre a dissociação
desta molécula (HOH ?H+ + OH-) é que caracteriza a sua participação
nas reações do metabolismo.

a)
Octâmero (H2O)8 b) ((H2O)8)20 c) Estrutura icosaédrica
Fonte: Chaplin (2001)
Figura 2: Grupamentos de água
DISTRIBUIÇÃO
DA ÁGUA CORPÓREA
A
água está distribuída no corpo animal de forma heterogênea,
de maneira a manter o equilíbrio dinâmico entre os compartimentos
do organismo (Figura3). A água intracelular representa mais de
45% do peso vivo enquanto o conteúdo extra-celular aproximadamente
20%. O funcionamento normal do organismo se faz às custas de perdas
ininterruptas de água que devem ser repostas constantemente através
da água de bebida principalmente.

Fonte:
Bertechini (1997)
FIGURA
3: Distribuição dos líquidos do corpo em % do peso
corporal
FONTES
DE ÁGUA
Água
de bebida: é a principal fonte de água para os animais,
devendo ser limpa e livre de contaminações.
Água metabólica: refere-se a água formada durante
o processo de oxidação dos H2 contidas nas proteínas,
carboidratos e gorduras a nível de metabolismo orgânico.
As gorduras produzem maior quantidade de água metabólica
do que os carboidratos e proteínas (Tabela1). No entanto, os carboidratos
produzem maiores quantidades de água metabólica por Kcal
de energia metabolizável (EM) produzida. Neste caso, em condições
de privação de água, seria indicada a ingestão
de carboidratos. Animais que hibernam metabolizam gorduras e carboidratos
de reserva para o fornecimento de energia, e isto produz suficiente água
metabólica para a sua mantença.
Água coloidal: Representa a água presa nos alimentos.
Tabela
1: Produção de água metabólica
|
Nutriente
|
Água
Metabólica
(média)
|
Valor
energético
(média)
|
Água/100
Kcal
(g)
|
| Carboidrato |
60%
|
4kcal/g
|
15,0
|
| Proteína
|
42%
|
4kcal/g
|
10,5
|
| Gordura |
>100%
|
9kcal/g
|
11,1
|
Fonte:
Nunes (1998)
SEDE
Em
conjunto com o hormônio antidiurético, a sede exerce um papel
muito importante na homeostase da água. A sede tem sido definida
como um desejo consciente de beber e deve ser distinguida do ato de beber
em si, pois este pode ocorrer por outras razões que não
a sede - tais como hábitos sociais e associação com
as refeições. A função do mecanismo da sede
é assegurar que a água seja reposta prontamente, quando
ocorre uma deficiência. Outro aspecto de regulação
da sede é o da saciedade.
Ratos nefrectomizados, perfundidos com solução salina hipertônica,
ingerem justamente a quantidade de água necessária para
restaurar a osmolaridade plasmática a nível basal. Jumentos
deprivados de água bebem o suficiente para recompor 7-20% do seu
peso inicial, em apenas 5 minutos, sem aparente dano a saúde (Nunes,
1998).
RELAÇÃO TEMPERATURA AMBIENTE E INGESTÃO DA AGUA
O
aumento da temperatura ambiente leva a um incremento no consumo de água.
As perdas de calor corporal pelos suínos e aves é um processo
dificultoso, já que estes não possuem glândulas sudoríparas.
Em clima quente há a necessidade de auxiliar a perda de calor destes
animais através de ambientes adequados e água fresca. Com
o aumento da temperatura estes animais podem dobrar o consumo de água.
CONSUMO
Um
homem adulto, sedentário, necessita de 1 cm3 de água para
cada kcal de energia metabolizável ingerida. Isto pode ser estendido
aos animais de todas as espécies domésticas, numa dieta
de mantença. Tomando-se como média que 1g de matéria
seca de alimento contém 4 kcal de energia metabolizável,
pode-se estabelecer que um animal necessita quatro vezes mais água
do que alimento, peso a peso (Nunes, 1998).
· BOVINOS DE LEITE
Dos
animais domésticos, a vaca leiteira é que mais sofre com
uma deprivação de água, primariamente pela grande
excreção no leite. O corpo contém, em média,
de 55 a 65% de água. Em temperatura elevada recusam alimento a
partir do quarto dia de deprivação e a perda de peso pode
chegar a 16%. O aumento da temperatura ambiente eleva o consumo de água,
sendo 27-30°C a faixa em que ocorre diferença marcante de consumo.
O aumento da umidade ambiente reduz o consumo de água, porque reduz
a evaporação corporal. Dietas com alto conteúdo de
fibra indigestível promovem grandes perdas de água nas fezes,
o que aumenta a ingestão de água (Nunes, 1998).
Tabela
2 Consumo de água pelo gado leiteiro nas condições
do Brasil Central
|
Categoria
|
Consumo
Litros/cab/dia
|
Desvio
Padrão
|
| Vacas
em lactação |
62,5
|
15,6
|
| Vacas
e novilhas no final da gestação |
50,9
|
12,9
|
| Vacas
secas e novilhas gestantes |
45,0
|
12,9
|
| Novilhas
em idade de inseminação |
48,8
|
14,4
|
| Fêmeas
desmamadas até inseminação |
29,8
|
7,2
|
| Bezerros
lactantes (em baias) |
1,0
|
0,4
|
| Bezerros
lactantes (a pasto) |
11,2
|
3,0
|
Fonte:
Nunes (1998)
· BOVINOS DE CORTE
Considerando-se
bovinos de dois anos, a necessidade mínima é de 45 litros/cab/dia
ou cerca de 8-9 litros/100 kg de peso vivo, em condições
de manejo adequado.
·
OVINOS
A
ovelha gestante aumenta o consumo a partir do terceiro mês, dobra
no quinto mês. A ovelha lactante tem o dobro do consumo que a não
lactante. A deprivação de água é acompanhada
por severa depressão no consumo de alimentos e predispõe
as ovelhas a toxemia gravídica (ou doença da gestação).
A adequada ingestão de água é essencial para a excreção
de substancias tóxicas, tais como oxalatos, amônia e sais
minerais. A água a zero grau suprime a atividade microbiana ruminal
por 4 horas após a ingestão, diminuindo a taxa de produção
(Nutrient, 1985 citado por Nunes 1998). Se mantidos em pastagens de qualidade
média, o consumo em clima temperado chega a 4,0 litros/cab/dia,
e 5-6 litros/cab/dia, em clima quente. (Silva, 1989 citado por Nunes,
1998)
·
EQUINOS
De
30 a 45 litros para adultos ou 2-3 litros por Kg de matéria seca
consumida. Éguas em lactação, cerca de 57 litros/dia.
Existe estreita relação entre clima, exercício e
consumo de água. Assim, cavalos podem consumir entre 65 litros
de água, com temperatura entre 13-15°C e UR% de 72%, e 80 litros
quando temperatura de 21°C e UR de 58%.
A variação em função do trabalho vai de 37
litros de água, para cavalos em repouso, e até 58 litros
para cavalos em trabalho pesado (Silva, 1989 citado por Nunes, 1998).
Beber água entre os potros é muito raro, a menor idade em
que se observou um potro beber foi três semanas, e oito de 15 potros
nunca foi observados bebendo antes da desmama (Crowell-Davis et al., 1985
citados por Nunes, 1998).
·
CAPRINOS
Dos
animais domésticos, a cabra é dos mais eficientes no uso
da água, aproximando-se do camelo quanto à reduzida taxa
de reciclagem por unidade de peso corporal. É capaz de conservar
água pela redução das perdas na urina e nas fezes.
O consumo de água nos alimentos é alto, dado à seleção
e ingestão de brotos. Segundo Silanikove (2000), as raças
Black Bedouin e a Barmer, só bebem água na freqüência
de uma vez a cada quatro dias.
·
SUÍNOS
Segundo
Brooks et al. (1984) citado por SUINO.COM (2002), o consumo de alimento
diário é considerado o melhor preditor individual do consumo
de água para suínos entre três e sete semanas de idade.
A relação é descrita pela equação:
Consumo
de água (L/dia) = 0,149 + (3,053 x Consumo MS(kg))
Uma
combinação do consumo de alimentos com o peso corporal foi
descrita pela equação:
Consumo de água (L/dia) = 0,788 + (2,23 x Cons. MS (kg)) + (0,367
x PC0,60)
A
necessidade de água pelos suínos é bastante variada
em função da idade, tipo e quantidade de ração
ingerida e estado fisiológico.
Tabela
3 Consumos de água pelos suínos em diferentes fases
| |
Fases
|
Consumo
9litros/cab/dia
|
| Desmamados |
6Kg
|
0,2-0,8
|
|
10Kg
|
1,4-4,2
|
| Crescimento |
25Kg
|
1,9-4,5
|
|
50Kg
|
3,0-6,8
|
| Porcas
|
Lactação
|
14,0-32,0
|
|
Gestação
|
7,0-18,0
|
Fonte:
SUINO.COM (2003)
· COELHOS
Consumo,
em litros/cab/dia, segundo Andriguetto et al. (1986), coelhos adultos
0,25; fêmeas pouco antes do parto 1,00; fêmeas com oito láparos
(3 semanas) 1,00 a 1,25; fêmeas com seis láparos 2,00 litros/cab/dia.
· AVES
No
início da vida a ave é muito sensível à desidratação.
Só a deficiência de oxigênio é mais crítica
que a falta de água. Basta lembrar que a perda de 10% de água
em relação ao peso corporal leva o pintainho à perda
de peso e induz à desidratação, e 20% de perda das
reservas de água do organismo, leva a ave à morte. Daí
a importância de, antes de iniciarmos a implantação
de um projeto avícola, verificarmos a disponibilidade de água
para atender à demanda do consumo. Importante também é
prever o aumento de consumo em condições adversas, como
no caso de stress pelo calor, quando o consumo de água praticamente
dobra.
Tabela
4 Quantidade de água necessária para o alojamento de frangos
de corte em 2 ambientes distintos
|
CONSUMO
DE ÁGUA (LITROS)
|
| |
Ambientes
Termôneutro
|
Calor
|
| Consumo/Ave/Período*
|
9
- 10
|
18
- 20
|
| Consumo/1000
Aves/Período |
9.000
- 10.000
|
18.000
- 20.000
|
| Consumo
10.000/Aves/Período |
90.000
- 100.000
|
180.000
- 200.000
|
*
período - 1 à 49 dias de idade
Fonte: Butolo (2005b)
REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
ANDRIGUETTO,
J.M.; PERLY, L.; MINARDI, I. et. al. Nutrição animal. 3ed.
São Paulo:Nobel, 1986. v2, 335-352.
BERTECHINI,
A.G. Nutrição de Monogástricos. Gráfica Universitária-UFLA
Minas-Gerais 1997.
BUTOLO,
J.E. 2005a. Água - Importância e Qualidade. Disponível
em: http://www.avisite.com.br/cet/2/01/index.shtm . Acesso em 20/05/2005.
BUTOLO,
J.E. 2005b. Bebedouros - Tipos - Vantagens e Desvantagens. Disponível
em: http://www.avisite.com.br/cet/6/01/index.shtm. Acesso em 20/05/2005.
CHAPLIN,
M.F. 2001. Water: its importance to life. Biochemistry and Molecular Biology
Education. 29, 54-59.
NUNES,
I.J. Nutrição Animal Básica. 2.Ed. Belo Horizonte.
FCP-MVZ ED. 1998.
SILANIKOVE,
N. 2000. The physiological basis of adaptation in goats to harsh enviromentes.
Small Ruminant Research. 35, 181-193.
SUINO.COM.
2002. A importância da água na alimentação
. Disponível em http://www.suino.com.br/nutricao/noticia.asp?pf_id=10252&dept_id=6
Acesso em 20/05/2005.
SUINO.COM.
2003. Água durante a gestação e lactação
das matrizes suínas - Parte 1. Disponível em http://www.suino.com.br/nutricao/noticia.asp?pf_id=13081&dept_id=6
Acesso em 20/05/2005.
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