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Hoje
em dia, o consumo de peixe vem sendo cada vez mais estimulado devido
às inúmeras vantagens que este alimento oferece: altos níveis protéicos,
fácil digestibilidade (pois possui pequena quantidade de tecido conjuntivo
presente na musculatura) e baixa taxa de gordura, com a presença dos
benéficos ácidos graxos insaturados. Esta combinação é ideal para as
pessoas que procuram a boa forma, associada com uma alimentação saudável,
tão desejada pela famosa e crescente "geração saúde". Além disso, pela
presença dos ácidos graxos insaturados, a carne do peixe também é procurada
para quem deseja controlar os níveis de colesterol dentro da normalidade.
Todo este incentivo para se ter uma vida mais saudável, inserindo na
alimentação a carne de peixe, é realmente muito louvável, mas sempre
devem ser tomados certos cuidados no seu preparo e manipulação, como
em qualquer produto de origem animal.
Bem conhecidas são as toxinfecções alimentares, causadas por bactérias
e certas toxinas, as quais podem estar presentes em alimentos manipulados
e/ou conservados erroneamente. Mas pouco se comenta sobre as zoonoses
parasitárias, neste caso transmitidas por peixes. Em tempo, zoonoses
são doenças transmitidas dos animais para o homem e vice-versa.
Por razões óbvias, estas zoonoses têm grande destaque nos países asiáticos
(Japão, Tailândia, etc.), devido principalmente ao consumo de pratos
contendo peixe cru. No Brasil, o aumento crescente do consumo destes
pratos orientais, dentre os quais o sushi e sashimi, está levando as
autoridades de Saúde Pública e os pesquisadores a dar uma atenção especial
à essa tendência do consumidor de não cozinhar ou cozinhar pouco os
alimentos para melhor preservar seus nutrientes.
Embora existam vários parasitas zoonóticos em peixes, no Brasil podemos
dar um destaque maior aos nematódeos da Família Anisakidae e ao trematódeo
digenético Phagicola longa.
Dentre os anisaquídeos, apenas alguns gêneros têm importância zoonótica,
como o Anisakis spp. e o Pseudoterranova spp., dentre outros. Interessante
é o fato de que estes parasitas estão presentes em algumas espécies
de peixes no Brasil, mas a anisaquíase humana ainda não foi relatada
em nosso país. Acredita-se que isso ocorra por falta ou falha de diagnóstico
e não à ausência desta doença na população.
O trematódeo P. longa causa uma doença chamada fagicolose, a qual envolve
em seu ciclo de vida pequenos crustáceos e moluscos como primeiros hospedeiros
intermediários, peixes do gênero Mugil (a tainha é o representante mais
conhecido) como segundos hospedeiros intermediários, e mamíferos e aves
piscívoras sendo hospedeiros definitivos. Experimentalmente, este parasita
foi capaz de produzir ovos em macacos (Cebus apella), cães (Canis familiaris),
gatos (Felis domestica) e micos (Callitithrix jacchus). No homem, P.
longa também é capaz de fechar seu ciclo, ou seja, reproduzir-se sexuadamente,
produzindo ovos que serão eliminados nas fezes.
A sintomatologia em pacientes humanos é típica de verminose, como dores
abdominais, diarréia, mal-estar, flatulência e emagrecimento. Já existem
vários casos no Brasil relatados na literatura, principalmente no litoral
Sul de São Paulo, em Cananéia e Registro.
O meio mais óbvio de se fazer a prevenção destas e de outras zoonoses
parasitárias transmitidas por peixes é a abstinência da ingestão de
peixe cru ou mal-cozido, principalmente a tainha no caso da fagicolose.
Alguns autores relatam que a transferência dos alevinos de tainha (de
2 a 4 cm de comprimento) para a água doce possibilita sua criação isenta
de Phagicola spp. Afortunadamente, só esta aclimatação não é suficiente
como recurso preventivo para evitar esta doença.
A cocção a 100°C por 60 minutos é um dos métodos mais indicados para
inviabilizar as larvas de P. longa na tainha. A refrigeração não se
mostra muito eficiente, segundo o trabalho de diversos autores. A salmoura
de 24°Bé durante quatro a cinco dias de exposição também é um método
eficaz na inativação das metacercárias de P. longa na musculatura. Além
disso, a defumação a 121°C por 3 horas também elimina o risco da ingestão
de metacercárias vivas. Outros estudos utilizando o emprego da radiação
gama comprovam que a dose ideal para controle das metacercárias na musculatura
é de 4.0 kGy. Mesmo assim, são necessárias mais pesquisas sobre métodos
de estocagem e tratamentos tecnológicos para assegurar a segurança do
consumidor.
No caso da anisaquíase, a prevenção também se dá pela abstinência da
ingestão de peixe cru ou mal-passado; remoção dos parasitas através
de sua observação na "candle-table" (mesa iluminada com luz fria) e
aplicação de técnicas para inativação das larvas dos nematóides (cocção;
salga; refrigeração; congelamento).
Assim, é necessário haver uma maior conscientização da população sobre
os possíveis riscos da ingestão de pratos contendo peixe cru ou mal-cozido,
principalmente a tainha, visto que já existem casos desta zoonose no
Brasil. Nem sempre a "moda" de cozinhar pouco os alimentos vai ser a
opção mais saudável...
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