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A Babesiose eqüina, também conhecida como piroplasmose ou
nutaliose eqüina, uma doença produzida por protozoários (Babesia equi e
Babesia caballi), transmitida por carrapatos e que afeta eqüinos, muares
e zebras. Os animais infectados se tornam geralmente portadores crônicos e fontes
de infecção por longos períodos. I
– IMPORTÂNCIA E DISTRIBUIÇÃO A B.equi e a B.caballi
freqüentemente estão associadas já que se utilizam do mesmo vetor. Ambas se distribuem
largamente em áreas tropicais e subtropicais mas a B.equi tem maior prevalência.
Na Europa a piroplasmose eqüina se estende pela Espanha,
Portugal, França, Itália e na maioria dos outros países. No entanto, parece que
não é endêmica na Inglaterra, Irlanda, Holanda, Alemanha e países escandinavos.A
Austrália é o único continente aonde a piroplasmose eqüina não se estabeleceu,
apesar de ter sido introduzida. Isto se deve à ausência dos vetores.
Nos Estados Unidos, até 1959, não havia descrição da doença.
Neste ano a B.caballi foi introduzida na Flórida com cavalos importados
e teve efeito devastador dizimando 30% da população eqüina de uma grande reserva
indígena. Naquela época foram estabelecidas medidas rígidas para controlar o carrapato
transmissor (gênero Dermacentor). Atualmente os Estados Unidos são considerados
como área controlada pois ocorre a introdução constante de animais portadores
crônicos vindos de áreas endêmicas apesar das medidas de controle estabelecidas.
A América do Sul e Central são consideradas áreas altamente
endêmicas, excetuando-se o sul da Argentina e do Chile.
Nossos estudos de prevalência no Brasil com o teste da Fixação do Complemento
demonstram grande número de animais contaminados em todas as áreas testadas (áreas
sul, sudeste e MS) com maior prevalência em regiões tropicais (MG, MT, RJ, SP
e oeste do PR) do que em regiões subtropicais (Leste do PR, SC e RS). A prevalência
era também uma dependência direta do tipo de manejo a que os animais eram submetidos
:Áreas Tropicais Áreas Subtropicais B.equi 42,5%
18,4% B.caballi 33,8% 4,6%
O maior prejuízo que a doença acarreta em áreas endêmicas é a diminuição da performance
em animais de esporte. Vários estudos podem ser encontrados na literatura, os
quais demonstram que o grupo de animais com anticorpos contra a babesia, considerados
como portadores crônicos, tem um nível de atuação inferior ao dos animais negativos.
Obviamente existe grande número de bons atletas portadores crônicos mas se acredita
que possivelmente suas performances poderiam ser ainda melhores se fossem negativos.
A explicação para a diminuição do potencial atlético se baseia no fato que os
portadores crônicos apresentam anemia, ainda que muito discreta, e podem haver
reagudizações periódicas, levando os animais a fracassos inesperados.
Além disto, devem ser considerados os prejuízos decorrentes
de gastos com tratamento, abortos e mortes devido a infecções agudas ou infecções
congênitas. Os quadros agudos não são muito comuns em áreas endêmicas mas freqüentemente
observamos reagudizações dos quadros crônicos em situações de stress decorrente
de treinamento, doenças intercorrentes, viagens, etc.
Finalmente, a babesiose eqüina é considerada hoje, no mundo inteiro, como a principal
impedimento para o trânsito internacional de cavalos. Somente 10% da população
eqüina mundial habita áreas livres da doença e entre estes países estão o Japão,
Canadá, Estados Unidos e Austrália, que possuem uma indústria eqüina importante.
Cavalos positivos estão impedidos de entrar nestes países e muitos outros, seja
para competições ou para exportação definitiva. No Brasil, a exportação de cavalos
seria um importante impulso para a equideocultura local mas infelizmente as barreiras
sanitárias se constituem o maior entrave para a aceitação do produto brasileiro
no exterior. II
– CICLO DE VIDA Durante o ciclo de vida, os esporozoítos
são inoculados na corrente sanguínea dos cavalos pelo carrapato. A partir daí,
o ciclo da B.caballi e da B.equi são diferentes:
B.Caballi – É uma babesia típica que invade exclusivamente os eritrócitos.
Os esporozoítos inoculados se transformam em trofozoítos que crescem e se dividem
em dois merozoítos em forma de pêra com 2-5 m m de comprimento unidos na sua parte
posterior. Quando um novo carrapato ingere o sangue deste hospedeiro, mesmo com
baixa parasitemia, ele se infecta e milhares de novos esporozoítos são produzidos
nos ácidos das glândulas salivares destes artrópodes.
B.equi – Os esporozoítos inoculados invadem inicialmente os linfócitos e se
desenvolvem formando macro e microesquizontes. Se desenvolvem então os micromerozoítos
que são liberados na circulação sangüínea e penetram nos eritrócitos. Os micromerozoítos
tem formato redondo ou alongado, quando atingem 2-3 m m de comprimento. Dificilmente
são visíveis ao microscópio quando a parasitemia é baixa e são facilmente confundidos
com artefatos de técnica devido ao seu pequeno tamanho. Durante o ciclo reprodutivo
intraeritrocitário eles formam uma tétrade conhecida como cruz de malta que é
característica. Podemos observar esta forma de desenvolvimento mais facilmente
nas infecções de curso agudo e com alta parasitemia. Devido
a algumas características da B.equi, como o seu pequeno tamanho, o ciclo
extraeritrocitário e ausência de transmissão transovariana no carrapato, a classificação
taxonômica da B.equi permanece incerta. Estas características a aproximam
do gênero Theileria, que, no entanto, não tem ciclo eritrocitário. Assim mesmo,
muitos pesquisadores a denominam hoje de Theilleria equi. Análises comparativas
com técnicas de biologia molecular indicam que a B.equi deve ser caracterizada
como um grupo distinto. III
– TRANSMISSÃO Atualmente 15 espécies de carrapatos
já foram identificados como transmissores transestadias de ambas as babesias e
nove como transmissores de B.caballi de forma transovariana. No Brasil
foram identificados como transmissores o Amblyomma cajennensis (vermelhinho
ou micuim), o Dermacentor nitens (carrapato da orelha) e o Boophilus
microplus (carrapato do boi). Os carrapatos
são altamente susceptíveis à infecção mesmo em parasitemias muito baixas.
No caso da B.caballi, a transmissão da infecção
por via transovariana pelo carrapato aos seus descendentes pode se manter por
até 3 ou 4 gerações de tal forma que o carrapato é o reservatório da doença na
natureza. No caso da B.equi, só há transmissão transestadial, ou seja,
larva, ninfa, adulto. No entanto, os cavalos infectados se tornam portadores crônicos,
muitas vezes inaparentes, por muitos anos. Os cavalos são o reservatório da B.equi
na natureza. Tanto o Boophilus como o Dermacentor
são carrapatos de um só hospedeiro mas os machos tem grande motilidade e longevidade,
sobrevivendo por 70-120 dias, período no qual podem infectar mais de um hospedeiro
na procura da fêmea. Assim sendo, que mesmo na ausência de transmissão transovariana
eles podem ser epidemiologicamente importantes no ciclo da B.equi, especialmente
se a criação for intensiva. Ainda não está esclarecido o papel do principal carrapato
que parasita eqüinos no Brasil, o Amblyomma cajennensis.
Há diversas citações na literatura sobre a ocorrência de transmissão iatrogênica
e a infecção congênita também é um achado comum em áreas endêmicas.
Não se conhece outros vetores além destes citados. IV
– SINAIS CLÍNICOS A parasitemia nas infecções agudas
por B.caballi raramente excede 1% e nas infecções agudas por B.equi
geralmente fica entre 1 e 7%, embora em animais imunodeprimidos ou sem contato
prévio e submetidos a alta carga parasitária, a parasitemia possa alcançar até
80% e ocasionar a morte. O período de incubação
varia de 12-19 dias para B.equi e 10-30 dias para B.caballi. O curso
da doença pode ser agudo, subagudo ou crônico, quando os animais permanecem portadores
por 1 a 3 anos para B.caballi e provavelmente por toda a vida para B.equi.
Os casos agudos são caracterizados por febre alta, inapetência,
dispnéia, edema, icterícia, fraqueza, anorexia e prostração. Dificilmente observamos
estes sintomas em animais oriundos de áreas endêmicas já que os potros recebem
da mãe a imunidade passiva e produzem os seus próprios anticorpos de forma progressiva,
na medida em que entram em contato com a doença
Nos casos subagudos, se observam os mesmos sintomas mas de forma mais amena e
intermitentes. Os animais tem febre intermitente, podem perder peso, pode haver
edema discreto, freqüentemente nas extremidades e a anemia é leve. O diagnóstico
diferencial tem que ser feito com diversas doenças e o exame laboratorial é importante.
Os casos crônicos são os mais comuns. Os sinais são inespecíficos
e se manifestam como uma performance ruim, inapetência esporádica, pelo feio,
e muitas vezes os animais são assintomáticos; apenas um achado laboratorial. É
possível que um portador assintomático volte a um quadro subagudo quando submetido
ao stress do treinamento ou na ocorrência de alguma doença debilitante.
As infecções in utero ocorrem randomicamente em áreas
endêmicas, geralmente no último trimestre da gestação, resultando em abortos,
natimortos ou potros fracos que morrem logo após o nascimento. Um levantamento
recente realizado na Africa do Sul atribuiu 11% dos casos de aborto a infecções
por B.equi. V
– RESPOSTA IMUNE Após uma infecção, o nível de anticorpos
aumenta gradativamente e já pode ser detectado após 7-10 dias pela Fixação do
Complemento. O nível atinge o seu pico em 30-45 dias e depois cai lentamente podendo
alcançar níveis indetectáveis após alguns meses na ausência de reinfecção de reagudização
do quadro. Os anticorpos provenientes da imunidade
passiva persistem de 11 até 200 dias. Em casos de reinfecção, o nível de anticorpos
aumenta de maneira rápida. VI
– DIAGNÓSTICO Várias técnicas sorológicas podem ser
usadas para detectar a babésia. As mais comuns são a Fixação do Complemento, a
Imunofluorescência e o Elisa. Mais recentemente as técnicas de biologia molecular
tem sido muito estudadas. O exame direto ao microscópio
pode ser muito útil para os casos agudos quando há alta parasitemia e se pode
encontrar facilmente os parasitas dentro das hemácias. Nos casos subagudos ou
crônicos é muito difícil encontrar o parasita e o mesmo pode ser facilmente confundido
com um artefato, de tal forma que a sensibilidade é baixa e resultados falso-positivo
ou falso-negativo são comuns. Os testes sorológicos
tem maior sensibilidade pois mesmo na ausência do parasita na circulação, os anticorpos
permanecem por longos períodos. Fixação de Complemento
ou "teste de piroplasmose" - Entre os testes sorológicos, o da Fixação
de Complemento é o mais aceito. Embora seja uma técnica trabalhosa, é de fácil
padronização e tem boa sensibilidade sendo o teste oficial para o trânsito internacional
de animais. Imunofluorescência – É uma técnica
bastante usada para diagnóstico de babesiose bovina e alguns pesquisadores consideram
que ela tem uma sensibilidade até superior àquela da Fixação do Complemento. As
desvantagens são que a padronização da técnica é muito difícil e as leituras das
lâminas adquirem caráter pessoal, de acordo com a experiência do laboratorista.
Desta forma, ela tem sido recomendada como um teste complementar.
Elisa – Recentes estudos tem demonstrado que uma proteína recombinante do
merozoíta de B.equi e um anticorpo monoclonal específico podem ser usados
para a inibição competitiva ( C-Elisa ) mas somente para a B.equi. As pesquisas
continuam evoluindo para que se possa contar com esta técnica extremamente prática
e sensível também para o diagnóstico da B.caballi.
Western Blot – Até o momento apresenta as mesmas limitações do teste anterior.
Provas de Biologia Molecular – A apesar da altíssima
sensibilidade que provas como o PCR podem oferecer, os portadores crônicos tem
apresentado resultados falso-negativo. A provável explicação é que na fase crônica,
pode haver muito poucos parasitas circulantes, de tal forma que não haja DNA disponível
na amostra coletada de sangue, embora ela possa estar por exemplo presente em
leucócitos nos linfonodos. VII
- TRATAMENTO Várias drogas tem sido usadas para o
tratamento da Babesiose eqüina. Os babesicidas convencionais são eficazes para
tratar e eliminar as infecções por B.caballi, assim como para controlar
a sintomatologia aguda nas infecções por B.equi. No entanto, nenhuma medicação
conhecida até o momento é capaz de eliminar as infecções crônicas de B.equi.
As drogas mais utilizadas no nosso meio são as seguintes
: Dipropionato de Imidocarb (Imizol – Coopers).
A dose recomendada pelo fabricante para infecções de B.caballi é de 2,2
mg/kg P.V. e deve ser repetida após 24 horas. Para B.equi a dose recomendada
é de 4 mg/kg P.V. e também deve ser repetida após 24 horas. A via de aplicação
é a intramuscular. Muitos veterinários indicam uma dose superior a esta, ou mesmo
uma terceira dose adicional. Deve-se ter em mente que esta dose é muito próxima
da DL50 (2X 16 mg/kg/48 hs) e além disto o medicamento é hepatotóxico.
Diminazene (Beronal – Hoechst) – A dose recomendada por trabalhos
científicos é de 11 mg/kg P.V., devendo-se repetir após 24 horas. O medicamento
tem características de toxicidade e limitações semelhante ao anterior. A via de
aplicação também é a intramuscular. Pode-se observar
sintomas colinérgicos após a aplicação destas drogas como salivação, cólica leve
e hipermotilidade intestinal. Estes sintomas são facilmente eliminados com a administração
de Sulfato de Atropina. A terapia de suporte é recomendada.
Várias outras drogas estão disponíveis mas nenhuma tem eficácia superior às acima
descritas comprovada pela literatura. O tratamento
para diminuir o número de anticorpos circulantes se baseia na administração mensal
da medicação em doses baixas. A maioria dos animais se torna negativo para ambas
as babésias em alguns meses. VIII
– CONSIDERAÇÕES EPIDEMIOLÓGICAS Ao avaliarmos a necessidade
de controle da doença, devemos considerar dois cenários diferentes:
No primeiro cenário, objetivamos a criação de cavalos de esporte
e exposição os quais serão submetidos a grande stress e poderão participar de
competições internacionais ou serem exportados. É altamente desejável que estes
animais não sejam portadores crônicos pois a infecção vai causar uma diminuição
da performance e impossibilitará o animal de viajar.
Num outro cenário, está a criação de animais de trabalho ou lazer, submetidos
a exercício leve ou somente reprodução, permanecendo a campo. Neste caso, é desejável
que os animais estejam em estabilidade endêmico com o ambiente, ou seja, que eles
possuam anticorpos contra a infecção, evitando assim o aparecimento da forma aguda
da doença. Nestes casos, apesar de serem portadores crônicos, a doença não causará
grandes prejuízos, a não ser na eventualidade de uma infecção intra-uterina.
No primeiro cenário, a infecção deve ser evitada a qualquer
custo, uma vez que os animais poderão se tornar portadores crônicos e o tratamento
é limitado no caso da B.equi. A melhor maneira de evitar a infecção é controlando
a população de vetores, no caso, os carrapatos.
Em nossa experiência, temos obtido excelentes resultados com a aplicação de carrapaticidas
na forma de aspersão a intervalos estratégicos associada à rotação de pastagens
(com alguns cuidados adicionais) e a separação da criação bovina da eqüina.
A eliminação total dos vetores é muito difícil uma vez
que as larvas dos carrapatos não muito resistentes, especialmente as do Amblyomma,
que permanecem viáveis por até três anos em condições ambientais favoráveis. Um
outro fator importante, é a presença da fauna silvestre, que continua a disseminar
os carrapatos. Além disto é comum as éguas viajarem com seus potros para fins
de reprodução, se contaminando em outras áreas. |