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Babesiose ou Piroplasmose dos eqüinos
(Por: Dra Claudia Ehlers Kerber)*

    A Babesiose eqüina, também conhecida como piroplasmose ou nutaliose eqüina, uma doença produzida por protozoários (Babesia equi e Babesia caballi), transmitida por carrapatos e que afeta eqüinos, muares e zebras. Os animais infectados se tornam geralmente portadores crônicos e fontes de infecção por longos períodos.

I – IMPORTÂNCIA E DISTRIBUIÇÃO
    A B.equi e a B.caballi freqüentemente estão associadas já que se utilizam do mesmo vetor. Ambas se distribuem largamente em áreas tropicais e subtropicais mas a B.equi tem maior prevalência. 
    Na Europa a piroplasmose eqüina se estende pela Espanha, Portugal, França, Itália e na maioria dos outros países. No entanto, parece que não é endêmica na Inglaterra, Irlanda, Holanda, Alemanha e países escandinavos.A Austrália é o único continente aonde a piroplasmose eqüina não se estabeleceu, apesar de ter sido introduzida. Isto se deve à ausência dos vetores. 
    Nos Estados Unidos, até 1959, não havia descrição da doença. Neste ano a B.caballi foi introduzida na Flórida com cavalos importados e teve efeito devastador dizimando 30% da população eqüina de uma grande reserva indígena. Naquela época foram estabelecidas medidas rígidas para controlar o carrapato transmissor (gênero Dermacentor). Atualmente os Estados Unidos são considerados como área controlada pois ocorre a introdução constante de animais portadores crônicos vindos de áreas endêmicas apesar das medidas de controle estabelecidas. 
    A América do Sul e Central são consideradas áreas altamente endêmicas, excetuando-se o sul da Argentina e do Chile. 
    Nossos estudos de prevalência no Brasil com o teste da Fixação do Complemento demonstram grande número de animais contaminados em todas as áreas testadas (áreas sul, sudeste e MS) com maior prevalência em regiões tropicais (MG, MT, RJ, SP e oeste do PR) do que em regiões subtropicais (Leste do PR, SC e RS). A prevalência era também uma dependência direta do tipo de manejo a que os animais eram submetidos :Áreas Tropicais Áreas Subtropicais 
    B.equi 42,5% 18,4% 
    B.caballi 33,8% 4,6% 
    O maior prejuízo que a doença acarreta em áreas endêmicas é a diminuição da performance em animais de esporte. Vários estudos podem ser encontrados na literatura, os quais demonstram que o grupo de animais com anticorpos contra a babesia, considerados como portadores crônicos, tem um nível de atuação inferior ao dos animais negativos. Obviamente existe grande número de bons atletas portadores crônicos mas se acredita que possivelmente suas performances poderiam ser ainda melhores se fossem negativos. A explicação para a diminuição do potencial atlético se baseia no fato que os portadores crônicos apresentam anemia, ainda que muito discreta, e podem haver reagudizações periódicas, levando os animais a fracassos inesperados. 
    Além disto, devem ser considerados os prejuízos decorrentes de gastos com tratamento, abortos e mortes devido a infecções agudas ou infecções congênitas. Os quadros agudos não são muito comuns em áreas endêmicas mas freqüentemente observamos reagudizações dos quadros crônicos em situações de stress decorrente de treinamento, doenças intercorrentes, viagens, etc. 
    Finalmente, a babesiose eqüina é considerada hoje, no mundo inteiro, como a principal impedimento para o trânsito internacional de cavalos. Somente 10% da população eqüina mundial habita áreas livres da doença e entre estes países estão o Japão, Canadá, Estados Unidos e Austrália, que possuem uma indústria eqüina importante. Cavalos positivos estão impedidos de entrar nestes países e muitos outros, seja para competições ou para exportação definitiva. No Brasil, a exportação de cavalos seria um importante impulso para a equideocultura local mas infelizmente as barreiras sanitárias se constituem o maior entrave para a aceitação do produto brasileiro no exterior. 

II – CICLO DE VIDA
    Durante o ciclo de vida, os esporozoítos são inoculados na corrente sanguínea dos cavalos pelo carrapato. A partir daí, o ciclo da B.caballi e da B.equi são diferentes: 
    B.Caballi – É uma babesia típica que invade exclusivamente os eritrócitos. Os esporozoítos inoculados se transformam em trofozoítos que crescem e se dividem em dois merozoítos em forma de pêra com 2-5 m m de comprimento unidos na sua parte posterior. Quando um novo carrapato ingere o sangue deste hospedeiro, mesmo com baixa parasitemia, ele se infecta e milhares de novos esporozoítos são produzidos nos ácidos das glândulas salivares destes artrópodes. 
    B.equi – Os esporozoítos inoculados invadem inicialmente os linfócitos e se desenvolvem formando macro e microesquizontes. Se desenvolvem então os micromerozoítos que são liberados na circulação sangüínea e penetram nos eritrócitos. Os micromerozoítos tem formato redondo ou alongado, quando atingem 2-3 m m de comprimento. Dificilmente são visíveis ao microscópio quando a parasitemia é baixa e são facilmente confundidos com artefatos de técnica devido ao seu pequeno tamanho. Durante o ciclo reprodutivo intraeritrocitário eles formam uma tétrade conhecida como cruz de malta que é característica. Podemos observar esta forma de desenvolvimento mais facilmente nas infecções de curso agudo e com alta parasitemia.
    Devido a algumas características da B.equi, como o seu pequeno tamanho, o ciclo extraeritrocitário e ausência de transmissão transovariana no carrapato, a classificação taxonômica da B.equi permanece incerta. Estas características a aproximam do gênero Theileria, que, no entanto, não tem ciclo eritrocitário. Assim mesmo, muitos pesquisadores a denominam hoje de Theilleria equi. Análises comparativas com técnicas de biologia molecular indicam que a B.equi deve ser caracterizada como um grupo distinto. 

III – TRANSMISSÃO
    Atualmente 15 espécies de carrapatos já foram identificados como transmissores transestadias de ambas as babesias e nove como transmissores de B.caballi de forma transovariana. No Brasil foram identificados como transmissores o Amblyomma cajennensis (vermelhinho ou micuim), o Dermacentor nitens (carrapato da orelha) e o Boophilus microplus (carrapato do boi). 
    Os carrapatos são altamente susceptíveis à infecção mesmo em parasitemias muito baixas. 
    No caso da B.caballi, a transmissão da infecção por via transovariana pelo carrapato aos seus descendentes pode se manter por até 3 ou 4 gerações de tal forma que o carrapato é o reservatório da doença na natureza. No caso da B.equi, só há transmissão transestadial, ou seja, larva, ninfa, adulto. No entanto, os cavalos infectados se tornam portadores crônicos, muitas vezes inaparentes, por muitos anos. Os cavalos são o reservatório da B.equi na natureza. 
    Tanto o Boophilus como o Dermacentor são carrapatos de um só hospedeiro mas os machos tem grande motilidade e longevidade, sobrevivendo por 70-120 dias, período no qual podem infectar mais de um hospedeiro na procura da fêmea. Assim sendo, que mesmo na ausência de transmissão transovariana eles podem ser epidemiologicamente importantes no ciclo da B.equi, especialmente se a criação for intensiva. Ainda não está esclarecido o papel do principal carrapato que parasita eqüinos no Brasil, o Amblyomma cajennensis
    Há diversas citações na literatura sobre a ocorrência de transmissão iatrogênica e a infecção congênita também é um achado comum em áreas endêmicas. 
    Não se conhece outros vetores além destes citados. 

IV – SINAIS CLÍNICOS
    A parasitemia nas infecções agudas por B.caballi raramente excede 1% e nas infecções agudas por B.equi geralmente fica entre 1 e 7%, embora em animais imunodeprimidos ou sem contato prévio e submetidos a alta carga parasitária, a parasitemia possa alcançar até 80% e ocasionar a morte. 
    O período de incubação varia de 12-19 dias para B.equi e 10-30 dias para B.caballi. O curso da doença pode ser agudo, subagudo ou crônico, quando os animais permanecem portadores por 1 a 3 anos para B.caballi e provavelmente por toda a vida para B.equi
    Os casos agudos são caracterizados por febre alta, inapetência, dispnéia, edema, icterícia, fraqueza, anorexia e prostração. Dificilmente observamos estes sintomas em animais oriundos de áreas endêmicas já que os potros recebem da mãe a imunidade passiva e produzem os seus próprios anticorpos de forma progressiva, na medida em que entram em contato com a doença 
    Nos casos subagudos, se observam os mesmos sintomas mas de forma mais amena e intermitentes. Os animais tem febre intermitente, podem perder peso, pode haver edema discreto, freqüentemente nas extremidades e a anemia é leve. O diagnóstico diferencial tem que ser feito com diversas doenças e o exame laboratorial é importante. 
    Os casos crônicos são os mais comuns. Os sinais são inespecíficos e se manifestam como uma performance ruim, inapetência esporádica, pelo feio, e muitas vezes os animais são assintomáticos; apenas um achado laboratorial. É possível que um portador assintomático volte a um quadro subagudo quando submetido ao stress do treinamento ou na ocorrência de alguma doença debilitante. 
    As infecções in utero ocorrem randomicamente em áreas endêmicas, geralmente no último trimestre da gestação, resultando em abortos, natimortos ou potros fracos que morrem logo após o nascimento. Um levantamento recente realizado na Africa do Sul atribuiu 11% dos casos de aborto a infecções por B.equi

V – RESPOSTA IMUNE
    Após uma infecção, o nível de anticorpos aumenta gradativamente e já pode ser detectado após 7-10 dias pela Fixação do Complemento. O nível atinge o seu pico em 30-45 dias e depois cai lentamente podendo alcançar níveis indetectáveis após alguns meses na ausência de reinfecção de reagudização do quadro. 
    Os anticorpos provenientes da imunidade passiva persistem de 11 até 200 dias. Em casos de reinfecção, o nível de anticorpos aumenta de maneira rápida. 

VI – DIAGNÓSTICO
    Várias técnicas sorológicas podem ser usadas para detectar a babésia. As mais comuns são a Fixação do Complemento, a Imunofluorescência e o Elisa. Mais recentemente as técnicas de biologia molecular tem sido muito estudadas. 
    O exame direto ao microscópio pode ser muito útil para os casos agudos quando há alta parasitemia e se pode encontrar facilmente os parasitas dentro das hemácias. Nos casos subagudos ou crônicos é muito difícil encontrar o parasita e o mesmo pode ser facilmente confundido com um artefato, de tal forma que a sensibilidade é baixa e resultados falso-positivo ou falso-negativo são comuns. 
    Os testes sorológicos tem maior sensibilidade pois mesmo na ausência do parasita na circulação, os anticorpos permanecem por longos períodos. 
    Fixação de Complemento ou "teste de piroplasmose" - Entre os testes sorológicos, o da Fixação de Complemento é o mais aceito. Embora seja uma técnica trabalhosa, é de fácil padronização e tem boa sensibilidade sendo o teste oficial para o trânsito internacional de animais. 
    Imunofluorescência – É uma técnica bastante usada para diagnóstico de babesiose bovina e alguns pesquisadores consideram que ela tem uma sensibilidade até superior àquela da Fixação do Complemento. As desvantagens são que a padronização da técnica é muito difícil e as leituras das lâminas adquirem caráter pessoal, de acordo com a experiência do laboratorista. Desta forma, ela tem sido recomendada como um teste complementar. 
    Elisa – Recentes estudos tem demonstrado que uma proteína recombinante do merozoíta de B.equi e um anticorpo monoclonal específico podem ser usados para a inibição competitiva ( C-Elisa ) mas somente para a B.equi. As pesquisas continuam evoluindo para que se possa contar com esta técnica extremamente prática e sensível também para o diagnóstico da B.caballi
    Western Blot – Até o momento apresenta as mesmas limitações do teste anterior. 
    Provas de Biologia Molecular – A apesar da altíssima sensibilidade que provas como o PCR podem oferecer, os portadores crônicos tem apresentado resultados falso-negativo. A provável explicação é que na fase crônica, pode haver muito poucos parasitas circulantes, de tal forma que não haja DNA disponível na amostra coletada de sangue, embora ela possa estar por exemplo presente em leucócitos nos linfonodos. 

VII - TRATAMENTO
    Várias drogas tem sido usadas para o tratamento da Babesiose eqüina. Os babesicidas convencionais são eficazes para tratar e eliminar as infecções por B.caballi, assim como para controlar a sintomatologia aguda nas infecções por B.equi. No entanto, nenhuma medicação conhecida até o momento é capaz de eliminar as infecções crônicas de B.equi
    As drogas mais utilizadas no nosso meio são as seguintes : 
    Dipropionato de Imidocarb (Imizol – Coopers). A dose recomendada pelo fabricante para infecções de B.caballi é de 2,2 mg/kg P.V. e deve ser repetida após 24 horas. Para B.equi a dose recomendada é de 4 mg/kg P.V. e também deve ser repetida após 24 horas. A via de aplicação é a intramuscular. Muitos veterinários indicam uma dose superior a esta, ou mesmo uma terceira dose adicional. Deve-se ter em mente que esta dose é muito próxima da DL50 (2X 16 mg/kg/48 hs) e além disto o medicamento é hepatotóxico. 
    Diminazene (Beronal – Hoechst) – A dose recomendada por trabalhos científicos é de 11 mg/kg P.V., devendo-se repetir após 24 horas. O medicamento tem características de toxicidade e limitações semelhante ao anterior. A via de aplicação também é a intramuscular. 
    Pode-se observar sintomas colinérgicos após a aplicação destas drogas como salivação, cólica leve e hipermotilidade intestinal. Estes sintomas são facilmente eliminados com a administração de Sulfato de Atropina. A terapia de suporte é recomendada. 
    Várias outras drogas estão disponíveis mas nenhuma tem eficácia superior às acima descritas comprovada pela literatura. 
    O tratamento para diminuir o número de anticorpos circulantes se baseia na administração mensal da medicação em doses baixas. A maioria dos animais se torna negativo para ambas as babésias em alguns meses. 

VIII – CONSIDERAÇÕES EPIDEMIOLÓGICAS
    Ao avaliarmos a necessidade de controle da doença, devemos considerar dois cenários diferentes: 
    No primeiro cenário, objetivamos a criação de cavalos de esporte e exposição os quais serão submetidos a grande stress e poderão participar de competições internacionais ou serem exportados. É altamente desejável que estes animais não sejam portadores crônicos pois a infecção vai causar uma diminuição da performance e impossibilitará o animal de viajar. 
    Num outro cenário, está a criação de animais de trabalho ou lazer, submetidos a exercício leve ou somente reprodução, permanecendo a campo. Neste caso, é desejável que os animais estejam em estabilidade endêmico com o ambiente, ou seja, que eles possuam anticorpos contra a infecção, evitando assim o aparecimento da forma aguda da doença. Nestes casos, apesar de serem portadores crônicos, a doença não causará grandes prejuízos, a não ser na eventualidade de uma infecção intra-uterina. 
    No primeiro cenário, a infecção deve ser evitada a qualquer custo, uma vez que os animais poderão se tornar portadores crônicos e o tratamento é limitado no caso da B.equi. A melhor maneira de evitar a infecção é controlando a população de vetores, no caso, os carrapatos. 
    Em nossa experiência, temos obtido excelentes resultados com a aplicação de carrapaticidas na forma de aspersão a intervalos estratégicos associada à rotação de pastagens (com alguns cuidados adicionais) e a separação da criação bovina da eqüina. 
    A eliminação total dos vetores é muito difícil uma vez que as larvas dos carrapatos não muito resistentes, especialmente as do Amblyomma, que permanecem viáveis por até três anos em condições ambientais favoráveis. Um outro fator importante, é a presença da fauna silvestre, que continua a disseminar os carrapatos. Além disto é comum as éguas viajarem com seus potros para fins de reprodução, se contaminando em outras áreas.

FONTE:

* Pós-graduanda do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo 
Laboratório Paddock

Rua Pero Leão, 149 - CEP 05423-060 – São Paulo-SP 
Tel: (11) 3037-7527 / 3031-5543
E-mail : kerberlab@xpnet.com.br


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