| Carrapatos em cães no Brasil (Por: Marcelo de Campos Pereira)* |
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Nas áreas urbanas – independente da permanência dos cães em ambientes externos ou internos - , a literatura especializada cita Rhipicephalus sanguineus, vulgarmente conhecido como “carrapato marrom dos cães”, como sendo a espécie mais prevalente no cão doméstico – seu hospedeiro natural – e bastante adaptada aos domicílios nas cidades. O gênero Rhipicephalus abrange aproximadamente 70 espécies de carrapatos, quase todas com origem na região Afrotropical. Destas, apenas R.sanguineus, únicas espécie do gênero nas Américas, encontra-se amplamente distribuído em todas as regiões zoogeográficas do mundo. Portanto, caracteriza-se por sobreviver tanto em climas temperados, em canis aquecidos e outras construções freqüentadas por cães, assim como em meios urbanos tropicais e subtropicais. Trata-se da espécie de carrapato com a maior disseminação no mundo, em razão não somente da ampla distribuição de seus hospedeiros caninos, mas principalmente por possuir especificidade restrita ao cão doméstico. Isso significa que tanto adultos como as formas imaturas de R.sanguineus são altamente específicas ao seu hospedeiro natural, o cão. Uma característica relevante da relação cão-R.sanguineus é a ausência de resistência de cães ao carrapato, mesmo após diversas infestações. Em conseqüência, nota-se que os cães podem sofrer infestações maciças por R.sanguineus. O fato de apresentarem de 2 a 3 gerações por ano e de poderem completar seu ciclo de vida tanto em ambiente domiciliar como peridomiciliar, faz com que as populações do parasito, no ambiente, também possam atingir níveis insuportáveis em pouco tempo. Com hábitos nidícolas, as formas de vida livre do carrapato procuram em locais abrigados (no interior de canis, em fendas e buracos nas paredes, atrás de quadros e de móveis, etc.). Desses locais, procuram os cães para exercer o hematofagismo, por alguns dias, retornando aos abrigos – larvas e ninfas para as mudas regulamentares e as fêmeas, para a postura. Na fase parasitária, larvas e ninfas são encontradas notadamente no pescoço e outras regiões anatômicas do cão e as fases adultas, no pavilhão auricular e nos espaços interdigitais. Todavia, em altas infestações, as três fases evolutivas do carrapato podem estar presentes em quase todo o corpo do hospedeiro. O R.sanguineus é vetor de diversos patógenos de importância para os cães, incluindo os agentes da babesiose, da hemobartolenose, da hepatozoonose e da erliquiose. Particularmente no que diz respeito à babesiose e à erliquiose, comuns em cães no nosso país, o único vetor, comprovado cientificamente, é o R.sanguineus. Logo, presume-se que os casos de babesiose e de erliquiose devem estar concentrados em cães urbanos, a não ser em outras situações, quando cães no meio rural são criados em instalações fechadas, como no meio urbano, favorecendo o estabelecimento de populações de R.sanguineus. Já no meio rural, onde os cães vivem geralmente soltos e têm livre acesso às matas, os carrapatos prevalentes são os do gênero Amblyomma, particularmente Amblyomma aureolatum, Amblyomma ovale, Amblyomma brasiliense, Amblyomma tigrinum e Amblyomma cajennense. Essas cinco espécies são nativas de mamíferos silvestres da fauna brasileira. Os carrapatos do gênero Amblyomma, assim como outros ixodídeos, irradiaram-se em habitats mais expostos (campos abertos, matas, etc.), tendo se adaptado a hospedeiros nômades ou com hábitos errantes. O ciclo evolutivo desses carrapatos é complexo, pois apresentam baixa especificidade em relação a seus hospedeiros silvestres, particularmente as formas imaturas, que podem completar o ciclo de vida em diversas espécies de mamíferos e de aves. Em conseqüência, observa-se comumente a ocorrência de pequenas populações de carrapatos nos seus hospedeiros silvestres – e também nos cães domésticos nas áreas rurais - , fato que também deve ser atribuído à baixa densidade desses animais nos biótopos naturais e ao fato de carrapatos do gênero Amblyomma apresentarem apenas uma geração por ano. Entretanto, há locais em que os cães assumem um importante papel epidemiológico no ciclo desses carrapatos, dada a sua alta exposição, suscetibilidade às infestações pelas espécies citadas e possibilidade de transporte desses carrapatos – alguns deles comprovadamente transmissores de zoonoses – para o interior das residências. Nesse aspecto, a literatura brasileira reporta achados de exemplares das espécies A.cajennense, A.aureolatum e A.brasiliense naturalmente infectados pela Rickettsia rickettsii, bactéria autóctone das Américas e produtora da febre maculosa, zoonose que possibilita a circulação do microorganismo entre carrapatos e mamíferos silvestres, em ecossistema independente do homem. Dentre os animais domésticos, apenas os cães apresentam alguma suscetibilidade à doença. Porém, como animais de estimação, podem contribuir indiretamente para a disseminação da febre maculosa, ao transportarem carrapatos previamente infectados, que neles se alimentam, para o interior das residências. Deve-se considerar a possibilidade de que os cães no meio rural, constantemente expostos aos carrapatos do gênero Amblyomma e muita vezes atendidos em clínicas veterinárias com um possível quadro clínico de erliquiose, apresentem, na realidade, o quadro clínico de febre maculosa. No ambiente rural, muitas vezes, os cães são mantidos presos em canis durante o dia e soltos durante a noite. Nesses casos, não são raros o encontro de populações mistas de R. sanguineus e de Amblyomma spp sobre os animais. |
| FONTE: * Marcelo de Campos Pereira Departamento de Parasitologia - Instituto de Ciências Biomédicas da USP E-mail: marcelcp@deane.icb.usp.br Site: http://parasitology.icb2.usp.br/marcelocp | |||
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