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A lerneose é uma doença causada pelo crustáceo Lernaea cyprinacea e vem
causando grandes prejuízos em nossas pisciculturas.
O "verme âncora", como também é conhecido, é um parasita cosmopolita,
e atinge uma grande variedade de espécies de peixes de água doce, como o pacu,
o tambaqui, o tambacu, o piauçu, carpa (ciprinídeos em geral), matrinchã, lambari,
traíra e até girinos de anfíbios. A Lernaea apresenta incialmente uma coloração
esbranquiçada quando jovem e com o passar do tempo acaba ficando mais escura.
Esta doença foi introduzida no Brasil através de uma
importação de carpas húngaras para a região Nordeste, disseminando-se depois para
as regiões Sudeste e Centro-Oeste e chegando até o Sul do país. No caso específico
do Estado de São Paulo, a lerneose vem causando grandes perdas econômicas aos
piscicultores. Para melhor compreensão da patogenicidade
desta doença, é necessário conhecer o ciclo, que compreende duas fases parasitárias:
a primeira forma é o copepodito, e a segunda é a fase de ciclópode adulto, que
nadam e copulam. A fêmea fixa-se na superfície do peixe, podendo ser encontrada
na pele, nadadeiras, opérculo, brânquias, olhos, boca e língua. Em casos mais
graves, a Lernaea também pode atingir órgãos internos, como o esôfago,
estômago e até fígado. Assim, a doença provocada
nos peixes depende de fatores como a dimensão do parasita (aproximadamente 5 a
22 mm de comprimento), modo de fixação e de alimentação da forma adulta. No local
de fixação do parasita há hemorragia e desenvolvimento de um processo inflamatório,
com posterior necrose do tecido circundante. As lesões ulcerosas provocadas pela
estrutura em forma de âncora da Lernaea (daí o nome de "verme âncora")
servem de porta de entrada para outros agentes causadores de doenças, principalmente
bactérias e fungos. Os peixes apresentam diminuição do apetite, perda de peso,
ficam letárgicos, debilitados e com aspecto desagradável. Por isso, é muito comum
a ocorrência de infecções secundárias, o que agrava ainda mais o quadro de mortalidade
do plantel. Além disso, o fato deste parasita alimentar-se de sangue (hematófago)
e de outros fluidos corporais dos hospedeiros provoca o aparecimento de anemia
e subnutrição nos animais. A reprodução deste parasita
ocorre em temperaturas acima de 14°C, o que significa que regiões de clima quente
são propícias para a ocorrência de surtos desta doença durante o ano todo. A disseminação
da lerneose ocorre através de água contaminada (com copepoditos) e/ou com peixes
infestados (com copepoditos e fêmeas adultas). Deste
modo, para a lerneose também vale o velho ditado: "prevenir é melhor que
remediar". A prevenção deve ser realizada por todos os piscicultores de cada
região, pois pode haver utilização da mesma fonte de água ou pela própria proximidade
das propriedades entre si. Os procedimentos feitos
na prevenção devem ser rotineiros na piscicultura, como o conhecimento da procedência
dos peixes que vão repor o plantel, evitando a entrada de alevinos, jovens ou
reprodutores parasitados; exigência de certificado ictiossanitário emitido por
Médico Veterinário; exame visual dos animais para detecção macroscópica do parasita;
descartar a água de transporte; realização de quarentena em novos lotes de peixes;
e desinfecção adequada dos viveiros, pois o substrato que fica no fundo é um excelente
meio para abrigar formas latentes, não só de crustáceos como a Lernaea,
mas também de outros parasitas e microorganismos em geral. Também devem ser tomados
cuidados em relação à fonte de água, que em alguns casos é compartilhada com outros
criadores, e é desaconselhável a utilização da água de um viveiro para outro,
pois pode disseminar rapidamente a infestação para toda a propriedade e diminuir
muito a qualidade físico-química da água nos últimos viveiros.
O tratamento com o uso de produtos químicos deve ser o último recurso a ser considerado
pelo piscicultor, o qual deve ser realizado obrigatoriamente por um Médico Veterinário.
Apenas este profissional está habilitado para avaliar com precisão a verdadeira
necessidade da criação afetada pela doença, através de dados clínicos e epidemiológicos.
Lembramos que o uso indiscriminado de medicamentos em uma piscicultura pode levar
a consequências muito graves em Saúde Pública e no meio ambiente, fato este que
será debatido no próximo artigo. LITERATURA
CONSULTADA: ALEXANDRINO DE PÉREZ, A.C. Prevenção de doenças em pisciculturas
e pesqueiros. São Paulo, Instituto de Pesca (apostila), 1998. ALEXANDRINO,
A.C.; AYROSA, L.M.S.; OKUMURA, M.P.M.; PAULI, A.O.S.; LIUSON, E.; ROSA, M.B.;
CARVALHAES, T.M.P.A. Infestação por Lernaea cyprinacea em cultivo
semi-intensivo de piauçu (Leporinus macrocephalus) na região do Vale do
Paranapanema – Relato de Caso. A Hora Veterinária, a. 19, n. 109, maio/junho/1999.
ALEXANDRINO DE PÉREZ, A.C. Empreendimentos piscícolas e o médico veterinário.
Revista de Educação Continuada do CRMV-SP, São Paulo, v. 2, f. 2, p. 43-65,
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