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Lerneose: um problema na piscicultura
(Por Profª. Maria Paula Martinez Okumura)*

     A lerneose é uma doença causada pelo crustáceo Lernaea cyprinacea e vem causando grandes prejuízos em nossas pisciculturas.
     O "verme âncora", como também é conhecido, é um parasita cosmopolita, e atinge uma grande variedade de espécies de peixes de água doce, como o pacu, o tambaqui, o tambacu, o piauçu, carpa (ciprinídeos em geral), matrinchã, lambari, traíra e até girinos de anfíbios. A Lernaea apresenta incialmente uma coloração esbranquiçada quando jovem e com o passar do tempo acaba ficando mais escura.
     Esta doença foi introduzida no Brasil através de uma importação de carpas húngaras para a região Nordeste, disseminando-se depois para as regiões Sudeste e Centro-Oeste e chegando até o Sul do país. No caso específico do Estado de São Paulo, a lerneose vem causando grandes perdas econômicas aos piscicultores.
     Para melhor compreensão da patogenicidade desta doença, é necessário conhecer o ciclo, que compreende duas fases parasitárias: a primeira forma é o copepodito, e a segunda é a fase de ciclópode adulto, que nadam e copulam. A fêmea fixa-se na superfície do peixe, podendo ser encontrada na pele, nadadeiras, opérculo, brânquias, olhos, boca e língua. Em casos mais graves, a Lernaea também pode atingir órgãos internos, como o esôfago, estômago e até fígado.
     Assim, a doença provocada nos peixes depende de fatores como a dimensão do parasita (aproximadamente 5 a 22 mm de comprimento), modo de fixação e de alimentação da forma adulta. No local de fixação do parasita há hemorragia e desenvolvimento de um processo inflamatório, com posterior necrose do tecido circundante. As lesões ulcerosas provocadas pela estrutura em forma de âncora da Lernaea (daí o nome de "verme âncora") servem de porta de entrada para outros agentes causadores de doenças, principalmente bactérias e fungos. Os peixes apresentam diminuição do apetite, perda de peso, ficam letárgicos, debilitados e com aspecto desagradável. Por isso, é muito comum a ocorrência de infecções secundárias, o que agrava ainda mais o quadro de mortalidade do plantel. Além disso, o fato deste parasita alimentar-se de sangue (hematófago) e de outros fluidos corporais dos hospedeiros provoca o aparecimento de anemia e subnutrição nos animais.
     A reprodução deste parasita ocorre em temperaturas acima de 14°C, o que significa que regiões de clima quente são propícias para a ocorrência de surtos desta doença durante o ano todo. A disseminação da lerneose ocorre através de água contaminada (com copepoditos) e/ou com peixes infestados (com copepoditos e fêmeas adultas).
     Deste modo, para a lerneose também vale o velho ditado: "prevenir é melhor que remediar". A prevenção deve ser realizada por todos os piscicultores de cada região, pois pode haver utilização da mesma fonte de água ou pela própria proximidade das propriedades entre si.
     Os procedimentos feitos na prevenção devem ser rotineiros na piscicultura, como o conhecimento da procedência dos peixes que vão repor o plantel, evitando a entrada de alevinos, jovens ou reprodutores parasitados; exigência de certificado ictiossanitário emitido por Médico Veterinário; exame visual dos animais para detecção macroscópica do parasita; descartar a água de transporte; realização de quarentena em novos lotes de peixes; e desinfecção adequada dos viveiros, pois o substrato que fica no fundo é um excelente meio para abrigar formas latentes, não só de crustáceos como a Lernaea, mas também de outros parasitas e microorganismos em geral. Também devem ser tomados cuidados em relação à fonte de água, que em alguns casos é compartilhada com outros criadores, e é desaconselhável a utilização da água de um viveiro para outro, pois pode disseminar rapidamente a infestação para toda a propriedade e diminuir muito a qualidade físico-química da água nos últimos viveiros.
     O tratamento com o uso de produtos químicos deve ser o último recurso a ser considerado pelo piscicultor, o qual deve ser realizado obrigatoriamente por um Médico Veterinário. Apenas este profissional está habilitado para avaliar com precisão a verdadeira necessidade da criação afetada pela doença, através de dados clínicos e epidemiológicos. Lembramos que o uso indiscriminado de medicamentos em uma piscicultura pode levar a consequências muito graves em Saúde Pública e no meio ambiente, fato este que será debatido no próximo artigo.

LITERATURA CONSULTADA:
ALEXANDRINO DE PÉREZ, A.C. Prevenção de doenças em pisciculturas e pesqueiros. São Paulo, Instituto de Pesca (apostila), 1998.
ALEXANDRINO, A.C.; AYROSA, L.M.S.; OKUMURA, M.P.M.; PAULI, A.O.S.; LIUSON, E.; ROSA, M.B.; CARVALHAES, T.M.P.A. Infestação por Lernaea cyprinacea em cultivo semi-intensivo de piauçu (Leporinus macrocephalus) na região do Vale do Paranapanema – Relato de Caso. A Hora Veterinária, a. 19, n. 109, maio/junho/1999.
ALEXANDRINO DE PÉREZ, A.C. Empreendimentos piscícolas e o médico veterinário. Revista de Educação Continuada do CRMV-SP, São Paulo, v. 2, f. 2, p. 43-65, 1999.
EIRAS, J.C. Elementos de Ictioparasitologia Porto, Fundação António de Almeida, 339 p., 1994.
FORTES, E.; HOFFMANN, R.P.; SCARIOT, J. Lernaea cyprinacea Linnaeus, 1758 (Crustacea, Copepoda) parasitando peixes de água doce da Grande Porto Alegre, RS, Brasil. Revista Brasileira de Medicina Veterinária, v. 20, n. 2, p. 64-65, 1998.
REICHENBACH-KLINKE, H.H. Enfermedad de los Peces. Zaragoza, Acribia, 507 p. 1982.
STOSKOPF, M. K. Fish Medicine. Philadelphia, W.B. Saunders Company, 882 p., 1993.

FONTE:
* Professora do Curso de Medicina Veterinária da Uniban - São Paulo

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