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Uso de medicamentos em piscicultura
(Por Profª. Maria Paula Martinez Okumura)*

     Sempre que uma criação de peixes adoece – seja ela uma piscicultura, pesque-pague ou apenas um tanque para lazer – gera uma grande preocupação para o proprietário. Afinal, nos casos de pisciculturas e pesque-pagues existe o fator do prejuízo econômico, e para os aficionados em praticar uma pescaria informal nos finais de semana, perder os peixes de seu lago não é nada agradável.
     A primeira medida a ser tomada é a realização de um diagnóstico por um Médico Veterinário o mais rápido possível, possibilitando assim uma melhor avaliação do quadro clínico em que se encontram os animais e lançar mão da melhor alternativa para sanar o problema.
     Tanto em criações com intuito comercial (pisciculturas, pesque-pagues) como em criações informais, devem ser considerados vários aspectos antes de recorrer abruptamente a qualquer tipo de tratamento nos animais doentes.
     O custo/benefício é um dos principais fatores a ser considerado, pois muitas vezes o alto custo do tratamento na criação afetada inviabiliza sua realização, ou pode tornar-se antieconômico, acarretando perdas ainda maiores para o produtor.
     Outro aspecto que nunca pode ser esquecido é o impacto ambiental que a realização deste tratamento pode causar. Lembramos que na maioria dos casos, o medicamento é lançado na água e depois de certo tempo, liberado no curso d’água subsequente da natureza. Mesmo que parte da droga já esteja inativada quando da liberação no meio-ambiente, a outra parte ainda ativa poderá atuar nas populações naturais deste curso d’água, como peixes, zooplâncton e fitoplâncton por exemplo, além de poder atingir criações de bovinos e outros animais que porventura possam servir-se dessa água, sem falar no risco dos seres humanos.
     Sempre que algum medicamento for administrado a um animal, deve-se levar em conta a questão da Saúde Pública, pois no caso dos peixes, estes tornam-se alimento e não pode existir nenhum tipo de resíduo prejudicial ao homem em sua carne. Hoje em dia em muitas propriedades, os peixes recebem doses de medicamentos indiscriminadamente, sem nenhum tipo de critério e sem orientação adequada de um Médico Veterinário. Por falta de informação, ou informação errônea e empírica, alguns piscicultores lançam na água inúmeros produtos químicos (alguns até comprovadamente cancerígenos) e defensivos agrícolas, que como o próprio nome diz, não têm indicação para uso animal, para tentar debelar problemas relacionados a doenças parasitárias e bacterianas. Até o presente momento não são conhecidos os períodos de carência da grande maioria dos medicamentos utilizados em peixes, o que significa que o consumidor pode estar ingerindo estes resíduos sem o seu conhecimento.
     Além dos itens já citados acima, também deve-se avaliar a eficácia da droga e sua facilidade de aplicação.
     Existem várias vias de administração de medicamentos em peixes. Drogas de uso externo são administradas na água em banhos de longa ou curta duração, ou ainda topicamente; este último meio utilizado quando há pequeno número de indivíduos ou em animais de alto valor econômico. E há os medicamentos de uso interno, o qual pode ser administrado ao peixe através do alimento (embora peixes doentes tenham seu apetite diminuído), via parenteral ou injetável (para tratamentos individuais ou para pequenos grupos de animais).
     Ainda faltam muitos estudos a respeito da farmacocinética, terapêutica e período de carência dos medicamentos utilizados em peixes, principalmente nos nossos peixes tropicais, pois sabe-se que vários aspectos podem interferir no modo de ação da droga, desde a espécie de peixe até as próprias características da água (temperatura, pH, quantidade de matéria orgânica, incidência de luz solar, etc).
     Finalmente, cabe ressaltar que a ocorrência de uma doença numa criação acarreta aumento dos custos do produtor pela compra de medicamentos, mudança na rotina da propriedade (muito prejudicial para pesque-pagues, por exemplo), perda de medicamentos na água e ainda a problemática dos resíduos na carne, sendo assim a prioridade do criador deve ser a prevenção, através da realização de um manejo higiênico-sanitário adequado. A profilaxia sempre vai ser a medida mais efetiva para evitar o aparecimento de doenças em sua criação, sendo que a certificação sanitária será a garantia de um produto de alta qualidade para o consumidor.

LITERATURA CONSULTADA
ALEXANDRINO DE PÉREZ, A. C. Empreendimentos piscícolas e o Médico Veterinário. Revista de Educação Continuada do CRMV/SP, São Paulo, v. 2, f. 2, p. 43-65, 1999.
BURKA, J. F.; HAMMELL, K. L.; HORSBERG, T. E.; JOHNSON, G. R.; RAINNIE, D. J.; SPEARES, D. J. Drugs in salmonid aquaculture – a review. J. vet. Pharmacol. Therap. 20, p. 333-349, 1997.
KINKELIN, P.; MICHEL, C.; GHITTINO, P. Tratado de las enfermedades de los peces. Zaragoza, Acribia, 353 p., 1991.
REICHENBACH-KLINKE, H. H. Enfermedad de los peces. Zaragoza, Acribia, 507 p., 1982.
STOSKOPF, M. K. Fish Medicine. Philadelphia, W. B. Saunders, 882 p., 1993.
TEIXEIRA FILHO, A. R. Piscicultura ao alcance de todos. São Paulo, Nobel, 212 p., 1991.

FONTE:
* Professora do Curso de Medicina Veterinária da Uniban - São Paulo

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