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Profilaxia: medida fundamental na piscicultura
(Por Profa. Maria Paula Martinez Okumura)*

   Como em qualquer tipo de criação animal, a piscicultura exige a aplicação de medidas profiláticas, as quais geralmente são simples e que irão prevenir grande problemas ao produtor.
     São vários os motivos que justificam a adoção de medidas profiláticas, principalmente se levarmos em conta que o pescado acaba sendo alimento na mesa do consumidor e toda a cadeia produtiva do pescado deve voltar-se para garantir a qualidade deste produto final. Para o produtor, a profilaxia facilita o manejo, organiza o ciclo produtivo e irá prevenir doenças em seu plantel a custos bem menores se comparados à realização de um tratamento, uma vez instalada a doença nos animais.
     O primeiro foco da nossa atenção deve recair sobre a água utilizada na criação. Se a qualidade da água não for adequada, os peixes não conseguirão manter-se em situação “confortável”, o que provocará estresse, afetando sua fisiologia normal e consequêntemente o seu desenvolvimento e ganho de peso.
     O teor de oxigênio na água é o principal fator limitante da produção. Vários aspectos podem influenciar sua dosagem na água, como a quantidade e a velocidade de renovação da água nos viveiros, a densidade de peixes por metro quadrado, o arraçoamento e a ventilação do tanque.
     É sempre importante fazer um controle periódico das condições físico-químicas e biológicas da água através do uso de “kits” ou enviando amostras adequadamente acondicionadas a laboratórios especializados. Além disso, antes de a água ser repassada aos tanques da piscicultura, o ideal é que a água seja represada e sem presença de outros peixes, o que poderia comprometer a sanidade da criação. E finalmente, recomendamos que não haja reutilização da água de um tanque para outro – prática bastante comum nos criatórios -, pois a concentração de oxigênio diminui e a quantidade de amônia e outros compostos tóxicos aos peixes aumenta à medida que a água é repassada de um tanque para outro, podendo inclusive, carrear agentes causadores de doenças (bactérias, vírus, parasitas) de animais doentes para sadios. A presença de aves aquáticas e outros animais também pode desempenhar o mesmo papel na transmissão de doenças, além de poder funcionar como reservatórios.
     Em relação à alimentação, a ração fornecida aos animais deve ser de boa qualidade, de procedência conhecida e ser armazenada adequadamente, evitando a formação de fungos, que podem sintetizar toxinas altamente nocivas aos peixes. Também deve-se evitar o arraçoamento excessivo com o objetivo de que os peixes comam mais, pois além de haver desperdício (os peixes não comem ininterruptamente), o restante da ração que fica na água sofre fermentação, comprometendo a qualidade da água.
     Na aquisição de novos animais, o criador tem que levar em conta se as espécies que está comprando são adaptadas ao clima da região onde localiza-se a propriedade, e adquiri-los sempre de fontes idôneas, juntamente com a certificação sanitária do lote emitida por um Médico Veterinário. Esta certificação será a garantia do produtor, assegurando a qualidade sanitária dos animais que está adquirindo.
     Ao receber o lote de peixes, estes devem ser encaminhados a uma fase de quarentena. O ideal é que o piscicultor possua um tanque para esta finalidade específica, localizado na parte mais baixa da propriedade e isolado dos outros tanques. Recomenda-se o uso de pedilúvio na entrada desse local. O período mínimo de quarentena para peixes é de 30 dias, tempo suficiente para avaliar o aparecimento de qualquer sintomatologia nos animais e realizar o bloqueio da doença na propriedade se necessário.
     Outro aspecto importante na profilaxia de doenças na piscicultura é realizar uma limpeza e desinfecção geral dos viveiros e equipamentos utilizados durante o ciclo produtivo assim que este é concluído. Assim como as clássicas medidas profiláticas adotadas na avicultura, a piscicultura deve adotar certos procedimentos, como a lavagem e desinfecção de puçás, redes e todos os outros equipamentos utilizados na criação. Isto visa evitar a transmissão de doenças por estes tipos de fômites; por esse mesmo motivo, em pesque-pagues recomenda-se a utilização de varas de pesca e puçás do próprio local, evitando que um pescador leve uma doença de uma propriedade para outra.
     Os tanques também devem ser desinfetados; para isso utilizamos cal virgem (500 kg/ha) ou cal hidratada (1.500 kg/ha), sempre diluídas em água. Destacamos que o funcionário designado para tal tarefa deve estar utilizando equipamentos de proteção individual (luvas, máscara e botas) e ter cautela no manuseio destes produtos por serem cáusticos. O fundo do viveiro deve ser retirado (se a estrutura for de concreto) ou estar bem seco pelo sol (para inviabilizar a permanência de bactérias, vírus e parasitas no lodo) antes de colocar um novo lote nesse local.
     Finalmente, como pudemos constatar em linhas gerais, a profilaxia é um dos principais aspectos a serem considerados em uma criação de peixes de sucesso. Cabe agora a nós refletir sobre a antiga sabedoria popular: “Prevenir é melhor que remediar”...

LITERATURA CONSULTADA
ALEXANDRINO DE PÉREZ, A. C. Manual de Prevenção de Doenças em Piscicultura. São Paulo, Instituto de Pesca, bol. téc. nº 23, 45 p., 1998.
ALEXANDRINO DE PÉREZ, A. C.  Empreendimentos piscícolas e o médico veterinário. Revista de Educação Continuada do CRMV-SP, São Paulo, v. 2, f. 2, p. 43-65, 1999.
KINKELIN, P.; MICHEL, C.; GHITTINO, P. Tratado de las Enfermedades de los Peces. Zaragoza, Acribia, 353 p., 1991.
NOGA, E. J. Fish Disease. St. Louis, Mosby-Year Book Inc., 367 p., 1996.
REICHENBACH-KLINKE, H. H. Enfermedad de los Peces. Zaragoza, Acribia, 507 p., 1982.
TEIXEIRA FILHO, A. R. Piscicultura ao Alcance de Todos. São Paulo, Nobel, 212 p., 1991

FONTE:
* Professora do Curso de Medicina Veterinária da Uniban - São Paulo

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