| Como
em qualquer tipo de criação animal, a piscicultura exige a aplicação de medidas
profiláticas, as quais geralmente são simples e que irão prevenir grande problemas
ao produtor. São vários os motivos que justificam
a adoção de medidas profiláticas, principalmente se levarmos em conta que o pescado
acaba sendo alimento na mesa do consumidor e toda a cadeia produtiva do pescado
deve voltar-se para garantir a qualidade deste produto final. Para o produtor,
a profilaxia facilita o manejo, organiza o ciclo produtivo e irá prevenir doenças
em seu plantel a custos bem menores se comparados à realização de um tratamento,
uma vez instalada a doença nos animais. O primeiro
foco da nossa atenção deve recair sobre a água utilizada na criação. Se a qualidade
da água não for adequada, os peixes não conseguirão manter-se em situação “confortável”,
o que provocará estresse, afetando sua fisiologia normal e consequêntemente o
seu desenvolvimento e ganho de peso. O teor de oxigênio
na água é o principal fator limitante da produção. Vários aspectos podem influenciar
sua dosagem na água, como a quantidade e a velocidade de renovação da água nos
viveiros, a densidade de peixes por metro quadrado, o arraçoamento e a ventilação
do tanque. É sempre importante fazer um controle
periódico das condições físico-químicas e biológicas da água através do uso de
“kits” ou enviando amostras adequadamente acondicionadas a laboratórios especializados.
Além disso, antes de a água ser repassada aos tanques da piscicultura, o ideal
é que a água seja represada e sem presença de outros peixes, o que poderia comprometer
a sanidade da criação. E finalmente, recomendamos que não haja reutilização da
água de um tanque para outro – prática bastante comum nos criatórios -, pois a
concentração de oxigênio diminui e a quantidade de amônia e outros compostos tóxicos
aos peixes aumenta à medida que a água é repassada de um tanque para outro, podendo
inclusive, carrear agentes causadores de doenças (bactérias, vírus, parasitas)
de animais doentes para sadios. A presença de aves aquáticas e outros animais
também pode desempenhar o mesmo papel na transmissão de doenças, além de poder
funcionar como reservatórios. Em relação à alimentação,
a ração fornecida aos animais deve ser de boa qualidade, de procedência conhecida
e ser armazenada adequadamente, evitando a formação de fungos, que podem sintetizar
toxinas altamente nocivas aos peixes. Também deve-se evitar o arraçoamento excessivo
com o objetivo de que os peixes comam mais, pois além de haver desperdício (os
peixes não comem ininterruptamente), o restante da ração que fica na água sofre
fermentação, comprometendo a qualidade da água. Na
aquisição de novos animais, o criador tem que levar em conta se as espécies que
está comprando são adaptadas ao clima da região onde localiza-se a propriedade,
e adquiri-los sempre de fontes idôneas, juntamente com a certificação sanitária
do lote emitida por um Médico Veterinário. Esta certificação será a garantia do
produtor, assegurando a qualidade sanitária dos animais que está adquirindo.
Ao receber o lote de peixes, estes devem ser encaminhados
a uma fase de quarentena. O ideal é que o piscicultor possua um tanque para esta
finalidade específica, localizado na parte mais baixa da propriedade e isolado
dos outros tanques. Recomenda-se o uso de pedilúvio na entrada desse local. O
período mínimo de quarentena para peixes é de 30 dias, tempo suficiente para avaliar
o aparecimento de qualquer sintomatologia nos animais e realizar o bloqueio da
doença na propriedade se necessário. Outro aspecto
importante na profilaxia de doenças na piscicultura é realizar uma limpeza e desinfecção
geral dos viveiros e equipamentos utilizados durante o ciclo produtivo assim que
este é concluído. Assim como as clássicas medidas profiláticas adotadas na avicultura,
a piscicultura deve adotar certos procedimentos, como a lavagem e desinfecção
de puçás, redes e todos os outros equipamentos utilizados na criação. Isto visa
evitar a transmissão de doenças por estes tipos de fômites; por esse mesmo motivo,
em pesque-pagues recomenda-se a utilização de varas de pesca e puçás do próprio
local, evitando que um pescador leve uma doença de uma propriedade para outra.
Os tanques também devem ser desinfetados; para isso utilizamos
cal virgem (500 kg/ha) ou cal hidratada (1.500 kg/ha), sempre diluídas em água.
Destacamos que o funcionário designado para tal tarefa deve estar utilizando equipamentos
de proteção individual (luvas, máscara e botas) e ter cautela no manuseio destes
produtos por serem cáusticos. O fundo do viveiro deve ser retirado (se a estrutura
for de concreto) ou estar bem seco pelo sol (para inviabilizar a permanência de
bactérias, vírus e parasitas no lodo) antes de colocar um novo lote nesse local.
Finalmente, como pudemos constatar em linhas gerais,
a profilaxia é um dos principais aspectos a serem considerados em uma criação
de peixes de sucesso. Cabe agora a nós refletir sobre a antiga sabedoria popular:
“Prevenir é melhor que remediar”... LITERATURA
CONSULTADA ALEXANDRINO DE PÉREZ, A. C. Manual de Prevenção de Doenças em
Piscicultura. São Paulo, Instituto de Pesca, bol. téc. nº 23, 45 p., 1998.
ALEXANDRINO DE PÉREZ, A. C. Empreendimentos piscícolas e o médico veterinário. Revista
de Educação Continuada do CRMV-SP, São Paulo, v. 2, f. 2, p. 43-65,
1999. KINKELIN, P.; MICHEL, C.; GHITTINO, P. Tratado de las Enfermedades
de los Peces. Zaragoza, Acribia, 353 p., 1991. NOGA, E. J. Fish Disease.
St. Louis, Mosby-Year Book Inc., 367 p., 1996. REICHENBACH-KLINKE, H. H. Enfermedad
de los Peces. Zaragoza, Acribia, 507 p., 1982. TEIXEIRA FILHO, A. R. Piscicultura
ao Alcance de Todos. São Paulo, Nobel, 212 p., 1991 |