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grande maioria das propriedades piscícolas em algum momento necessita fazer uso
do transporte de peixes, já que mais alevinos precisam chegar para iniciar o novo
ciclo produtivo ou então o peixe gordo precisa ser comercializado, seja em pesque-pagues
ou destinados para o abate. Transportar peixes não
é tão fácil quanto parece. É preciso ter conhecimentos a respeito da fisiologia
dos animais, além de possuir equipamentos e veículos de transporte adequados,
sem nunca esquecer também dos aspectos de Saúde Pública e Animal, que sempre estarão
em jogo quando consideramos qualquer tipo de exploração zootécnica.
De um modo geral, é necessário realizar alguns procedimentos preparatórios antes
de transportar os animais. É recomendável que os peixes adultos e alevinos sofram
jejum durante algum tempo antes de serem submetidos às condições de transporte,
pois durante esse período haverá um esvaziamento do trato digestório dos animais,
proporcionando uma diminuição na quantidade de dejetos na água de transporte.
Sabemos que os dejetos e excretas dos peixes contribuem muito para a piora da
qualidade da água e na diminuição dos níveis de oxigênio.
O principal item a ser foco de atenção do transportador e do piscicultor é o oxigênio
dissolvido na água. Os alevinos devem ser transportados em sacos plásticos transparentes
e resistentes, com um terço de água e dois terços de oxigênio insuflado no seu
interior. Os sacos devem ser fechados com elástico (como liga de pneu, por exemplo)
para garantir uma amarra segura e eficiente. Os peixes adultos podem ser transportados
em caminhões apropriados ou em sacos plásticos (quando a distância é curta e o
transporte é de poucos animais), do mesmo modo ao já descrito para alevinos. Caixas
d’água improvisadas, embora sejam usadas, não são ideais, pois há grande perda
de oxigênio durante o percurso, o que certamente pode afetar negativamente os
peixes. Infelizmente, é comum a prática de alguns
transportadores em adicionar à água de transporte certos "medicamentos preventivos",
como antibióticos, anestésicos, fungicidas, pesticidas e herbicidas. Qualquer
dessas substâncias colocadas na água serão absorvidas pelos peixes, posteriormente
sendo acumuladas em seu organismo, até serem ingeridas pelo homem, o consumidor
final. Na grande maioria desses medicamentos não se conhece o período de carência
nas nossas espécies tropicais; e os defensivos agrícolas citados obviamente não
têm indicação para uso animal. Além disso, sua aplicação é empírica e geralmente
são feitas sub-dosagens dos medicamentos, o que acaba resultando dispendioso e
sem resultados satisfatórios, apenas mascarando o real estado dos peixes.
Os peixes podem ser transportados em água contendo cloreto
de sódio (sal grosso) em concentração de 1 a 5 g/l. A adição de sal na água provoca
um efeito compensador nas quedas de cloretos no plasma, que é uma das causas do
estresse nos peixes. Na verdade, a agitação da água
associada ao transporte de um local a outro pode provocar morte dos peixes por
disfunções osmorregulatórias ou surtos de doenças bacterianas, virais ou parasitárias
induzidas pela imunossupressão causada pelo estresse. Ao ser colocado no viveiro,
o peixe pode nadar desorientadamente na coluna d’água, o que mostra estresse devido
ao transporte inadequado. Às vezes, os animais só demonstrarão sinais do estresse
alguns dias após terem chegado à propriedade. Um
dos fatores que podemos observar na prevenção do estresse pós-transporte é o horário
de realização deste. Recomenda-se transportar os peixes nas primeiras horas do
dia ou no final da tarde, quando as temperaturas são mais amenas, evitando-se
o horário das 10 às 18 h. Se a temperatura da água aumenta, o metabolismo dos
peixes ficará mais acelerado, conseqüentemente necessitando um maior aporte de
oxigênio e havendo uma piora na qualidade da água pela concentração de substâncias
tóxicas. Tudo isso também contribui para o processo de estresse do organismo,
podendo causar então a morte dos peixes. O veículo
de transporte (caminhão, por exemplo, quando não totalmente adequado) deve trafegar
em baixa velocidade, evitando freadas bruscas para agitar o mínimo possível a
água em que os peixes se encontram. É recomendado não fazer transportes a grandes
distâncias ou por muito tempo, pois isso requer troca da água de transporte, facilitando
a disseminação de doenças se não houver um controle sanitário adequado.
É importante ter toda a documentação de entrada e saída dos peixes de uma propriedade,
certificando-se sua origem, sendo este documento emitido por um Médico Veterinário.
Infelizmente essa prática é pouco difundida entre os criadores, o que dificulta
na hora de rastrear o produtor de origem no caso de um surto de doença ou defeitos
genéticos nos alevinos ou peixes adquiridos. Chegando
na propriedade de destino, os peixes devem passar por um período de aproximadamente
20 minutos na embalagem de transporte com esta inserida ainda lacrada na água
do viveiro em que serão introduzidos, para haver um equilíbrio na temperatura
de ambas (e conseqüentemente do organismo do animal), evitando choques térmicos
desnecessários. De um modo geral, a água de transporte é mais quente que a água
dos viveiros. Passado esse período de equilíbrio, os sacos plásticos são abertos,
deixando que a água do viveiro se misture à água do saco, e lentamente os peixes
deixarão a embalagem. Finalmente, sempre após a realização
do transporte dos peixes, todos os equipamentos e vestimentas utilizados nesse
procedimento, assim como o próprio veículo se possível, devem ser desinfetados.
Recomenda-se também que as pessoas banhem-se com água e sabão após este processo.
Observando-se estes itens com atenção, o transporte de
peixe pode ser feito de modo consciente, sem colocar em risco a saúde e o bem-estar
dos animais e do consumidor no final da cadeia produtiva do pescado. LITERATURA
CONSULTADA ALEXANDRINO DE PÉREZ, A. C. Manual de Prevenção de Doenças em Pisciculturas.
São Paulo, Secretaria de Agricultura e Abastecimento, B. Téc. Inst. Pesca, n.
23, 45 p., 1998. KINKELIN, P.; MICHEL, C.; GHITTINO, P. Tratado de las Enfermedades
de los Peces. Zaragoza, Acribia, 353 p., 1991. STOSKOPF, M. K. Fish Medicine.
Philadelphia, W. B. Saunders Company, 882 p., 1993. TEIXEIRA FILHO, A. R.
Piscicultura ao Alcance de Todos. São Paulo, Nobel, 212 p., 1991. |