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Transportando peixes
(Por: Profª. Maria Paula Martinez Okumura)*

   A grande maioria das propriedades piscícolas em algum momento necessita fazer uso do transporte de peixes, já que mais alevinos precisam chegar para iniciar o novo ciclo produtivo ou então o peixe gordo precisa ser comercializado, seja em pesque-pagues ou destinados para o abate.
     Transportar peixes não é tão fácil quanto parece. É preciso ter conhecimentos a respeito da fisiologia dos animais, além de possuir equipamentos e veículos de transporte adequados, sem nunca esquecer também dos aspectos de Saúde Pública e Animal, que sempre estarão em jogo quando consideramos qualquer tipo de exploração zootécnica.
     De um modo geral, é necessário realizar alguns procedimentos preparatórios antes de transportar os animais. É recomendável que os peixes adultos e alevinos sofram jejum durante algum tempo antes de serem submetidos às condições de transporte, pois durante esse período haverá um esvaziamento do trato digestório dos animais, proporcionando uma diminuição na quantidade de dejetos na água de transporte. Sabemos que os dejetos e excretas dos peixes contribuem muito para a piora da qualidade da água e na diminuição dos níveis de oxigênio.
     O principal item a ser foco de atenção do transportador e do piscicultor é o oxigênio dissolvido na água. Os alevinos devem ser transportados em sacos plásticos transparentes e resistentes, com um terço de água e dois terços de oxigênio insuflado no seu interior. Os sacos devem ser fechados com elástico (como liga de pneu, por exemplo) para garantir uma amarra segura e eficiente. Os peixes adultos podem ser transportados em caminhões apropriados ou em sacos plásticos (quando a distância é curta e o transporte é de poucos animais), do mesmo modo ao já descrito para alevinos. Caixas d’água improvisadas, embora sejam usadas, não são ideais, pois há grande perda de oxigênio durante o percurso, o que certamente pode afetar negativamente os peixes.
     Infelizmente, é comum a prática de alguns transportadores em adicionar à água de transporte certos "medicamentos preventivos", como antibióticos, anestésicos, fungicidas, pesticidas e herbicidas. Qualquer dessas substâncias colocadas na água serão absorvidas pelos peixes, posteriormente sendo acumuladas em seu organismo, até serem ingeridas pelo homem, o consumidor final. Na grande maioria desses medicamentos não se conhece o período de carência nas nossas espécies tropicais; e os defensivos agrícolas citados obviamente não têm indicação para uso animal. Além disso, sua aplicação é empírica e geralmente são feitas sub-dosagens dos medicamentos, o que acaba resultando dispendioso e sem resultados satisfatórios, apenas mascarando o real estado dos peixes.
     Os peixes podem ser transportados em água contendo cloreto de sódio (sal grosso) em concentração de 1 a 5 g/l. A adição de sal na água provoca um efeito compensador nas quedas de cloretos no plasma, que é uma das causas do estresse nos peixes.
     Na verdade, a agitação da água associada ao transporte de um local a outro pode provocar morte dos peixes por disfunções osmorregulatórias ou surtos de doenças bacterianas, virais ou parasitárias induzidas pela imunossupressão causada pelo estresse. Ao ser colocado no viveiro, o peixe pode nadar desorientadamente na coluna d’água, o que mostra estresse devido ao transporte inadequado. Às vezes, os animais só demonstrarão sinais do estresse alguns dias após terem chegado à propriedade.
     Um dos fatores que podemos observar na prevenção do estresse pós-transporte é o horário de realização deste. Recomenda-se transportar os peixes nas primeiras horas do dia ou no final da tarde, quando as temperaturas são mais amenas, evitando-se o horário das 10 às 18 h. Se a temperatura da água aumenta, o metabolismo dos peixes ficará mais acelerado, conseqüentemente necessitando um maior aporte de oxigênio e havendo uma piora na qualidade da água pela concentração de substâncias tóxicas. Tudo isso também contribui para o processo de estresse do organismo, podendo causar então a morte dos peixes.
     O veículo de transporte (caminhão, por exemplo, quando não totalmente adequado) deve trafegar em baixa velocidade, evitando freadas bruscas para agitar o mínimo possível a água em que os peixes se encontram. É recomendado não fazer transportes a grandes distâncias ou por muito tempo, pois isso requer troca da água de transporte, facilitando a disseminação de doenças se não houver um controle sanitário adequado.
     É importante ter toda a documentação de entrada e saída dos peixes de uma propriedade, certificando-se sua origem, sendo este documento emitido por um Médico Veterinário. Infelizmente essa prática é pouco difundida entre os criadores, o que dificulta na hora de rastrear o produtor de origem no caso de um surto de doença ou defeitos genéticos nos alevinos ou peixes adquiridos.
     Chegando na propriedade de destino, os peixes devem passar por um período de aproximadamente 20 minutos na embalagem de transporte com esta inserida ainda lacrada na água do viveiro em que serão introduzidos, para haver um equilíbrio na temperatura de ambas (e conseqüentemente do organismo do animal), evitando choques térmicos desnecessários. De um modo geral, a água de transporte é mais quente que a água dos viveiros. Passado esse período de equilíbrio, os sacos plásticos são abertos, deixando que a água do viveiro se misture à água do saco, e lentamente os peixes deixarão a embalagem.
     Finalmente, sempre após a realização do transporte dos peixes, todos os equipamentos e vestimentas utilizados nesse procedimento, assim como o próprio veículo se possível, devem ser desinfetados. Recomenda-se também que as pessoas banhem-se com água e sabão após este processo.
     Observando-se estes itens com atenção, o transporte de peixe pode ser feito de modo consciente, sem colocar em risco a saúde e o bem-estar dos animais e do consumidor no final da cadeia produtiva do pescado.

LITERATURA CONSULTADA
ALEXANDRINO DE PÉREZ, A. C. Manual de Prevenção de Doenças em Pisciculturas. São Paulo, Secretaria de Agricultura e Abastecimento, B. Téc. Inst. Pesca, n. 23, 45 p., 1998.
KINKELIN, P.; MICHEL, C.; GHITTINO, P. Tratado de las Enfermedades de los Peces. Zaragoza, Acribia, 353 p., 1991.
STOSKOPF, M. K. Fish Medicine. Philadelphia, W. B. Saunders Company, 882 p., 1993.
TEIXEIRA FILHO, A. R. Piscicultura ao Alcance de Todos. São Paulo, Nobel, 212 p., 1991.

FONTE:
* Professora do Curso de Medicina Veterinária da Uniban - São Paulo

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