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Peixes e sua nutrição

(Profª. Maria Paula Martinez Okumura)

O produtor que inicia uma criação de peixes sabe que são necessários alguns pré-requisitos básicos, como uma boa conformação do terreno para esse fim, um aporte de água em abundância e de boa qualidade, um planejamento adequado sobre a construção dos tanques, a escolha das espécies que mais se adaptam à região da sua propriedade, entre outros itens. Faz-se a preparação do terreno, a construção dos tanques, estes são enchidos com água, e finalmente os peixes são colocados. A piscicultura está pronta? Sem uma boa alimentação, estes peixes não irão desenvolver-se de forma satisfatória, além de poderem adquirir doenças de ordem nutricional. A nutrição sempre será a base da manutenção da sua criação. Inicialmente, a ciência sobre a nutrição de peixes criados em cativeiro só começou a se desenvolver a partir da década de 60; assim estes conhecimentos não são tão elevados como nas criações de mamíferos domésticos. Hoje em dia, ainda são necessários muitos estudos sobre as necessidades nutricionais de nossos peixes brasileiros, que acabam alimentando-se de uma dieta desbalanceada nas pisciculturas.

A demanda nutricional dos animais irá depender de vários fatores, dentre eles: a espécie de peixe, idade, tamanho, grau de maturação sexual e a temperatura da água. Naturalmente, uma boa ração tem que ser constituída de matérias primas de qualidade. A farinha de peixe, grande fonte de proteínas da ração, além de ser um flavorizante, nem sempre é de boa qualidade, fazendo com que a ração fabricada seja inferior, com baixo nível de aproveitamento pelos peixes. Outras fontes de proteínas podem ser urilizadas, como farinha de carne, torta de mamona, de amendoim ou de soja. Devemos sempre lembrar que a necessidade proteica do peixe é diretamente relacionada com uma composição balanceada de aminoácidos adequada para manter seu crescimento. Os aminoácidos essenciais dos peixes são os mesmos que para mamíferos (são eles: arginina, histidina, isoleucina, leucina, lisina, metionina, fenilalanina, treonina, triptofano e valina). Para a manutenção da maioria das espécies de peixes é necessário de 1-1,5 g proteína/kg de peso vivo/dia. Além de proteínas, os peixes também precisam de fontes de lipídeos (cuja necessidade vai variar muito conforme a espécie), carboidratos (embora seu organismo não os utilizem totalmente, sendo uma parte eliminada nas fezes, contribuindo para a degradação da água do viveiro), vitaminas (os peixes dependem das mesmas vitaminas utilizadas em criações de mamíferos, com especial destaque para a vitamina C ou ácido ascórbico), minerais (participam do metabolismo e da estrutura esquelética, assim como nos mamíferos) e pigmentos (muito importantes para dar a coloração na musculatura de salmonídeos). A apresentação da ração deve ser proporcional ao tamanho da boca do peixe, geralmente utilizando-se ração extrusada, que mantém o alimento flutuando por algum tempo, antes de cair na coluna d’água. Essa ração pode ser distribuída de modo automático ou manual. A forma manual de distribuição, embora necessite de mão-de-obra, é a mais eficiente, pois o tratador avalia visualmente a quantidade requerida pelos animais, não havendo desperdícios, que levariam à piora da qualidade da água e maiores gastos econômicos com ração.

De um modo geral, a quantidade de ração a ser oferecida varia conforme a fase de crescimento do animal, fracionada em três ou quatro vezes por dia no período diurno. Infelizmente muitos criadores não têm idéia da quantidade de peixes por tanque, o que dificulta os cálculos de quanto oferecer de ração aos peixes, além de inviabilizar possíveis tratamentos no tanque em questão. Além da quantidade de peixes, também deve-se ter conhecimento sobre o comportamento de cada espécie durante a alimentação, pois existem inclusive estruturas hierárquicas em uma população de peixes. Ainda para garantir a melhor alimentação ao plantel, deve-se atentar ao armazenamento da ração, cujos cuidados são idênticos às rações de outros animais. As embalagens devem ser mantidas em ambiente ventilado, afastadas do sol e de outros animais que possam dela utilizar-se (roedores, por exemplo), e a umidade deve ser evitada a todo custo. Altos níveis de umidade na ração propiciam o aparecimento de fungos produtores de toxinas (aflatoxina, por exemplo), que são extremamente perigosas aos salmonídeos em particular, produzindo tumores hepáticos. A aplicação de criações consorciadas (suínos-peixes, aves-peixes) que utilizam dejetos fecais para alimentação dos peixes não são recomendadas, pois embora diminuam-se os custos com a alimentação da piscicultura, cria-se um problema de Saúde Pública. As fezes irão contaminar a água e consequentemente os peixes, que servirão de alimento ao homem. Além disso, peixes criados com dejetos costumam ter sua carne fétida e friável, em condições totalmente insatisfatórias para consumo humano. Uma das grandes preocupações dos produtores certamente é o custo da ração, que em criações intensivas chega a ser mais de 50% dos custos de produção. Desse modo, a ração dos peixes deve ser o mais barata possível, sempre levando-se em consideração sua qualidade, que deve garantir os níveis de desenvolvimento e crescimento do animal. Por outro lado, dietas mais caras proporcionam um melhor crescimento em um menor espaço de tempo, o que em alguns casos resulta em mais economia a longo prazo. Finalmente, sabemos que peixes mal nutridos podem sofrer de doenças de origem nutricional e além disso terão maior propensão a adquirir outras doenças causadas por bactérias, vírus e parasitas em geral, pois esses animais têm baixa resistência a agentes oportunistas. Assim, o piscicultor que investe em rações de qualidade (desde que estas estejam disponíveis no mercado) só terá a ganhar, aumentando desta forma sua produtividade e produzindo peixes de boa qualidade.


LITERATURA CONSULTADA:

ALEXANDRINO DE PÉREZ, A. C. Manual de Prevenção de Doenças em Pisciculturas. São Paulo, Instituto de Pesca, Boletim Técnico nº 23, 45 p., 1998.

KINKELIN, P.; MICHEL, C.; GHITTINO, P. Tratado de las Enfermedades de los Peces. Zaragoza, Acribia, 353 p., 1991.

SILVA, S. S.; ANDERSON, T. A. Fish Nutrition in Aquaculture. London, Chapman & Hall, Aquaculture Series 1, 5ª ed., 309 p., 1995.

SKRUDLAND, A. Nutrition in aquaculture. In: BROWN, L. Aquaculture for Veterinarians. Oxford, Pergamon Press, 1ª ed., p. 153-159, 1993.

STOSKOPF, M. K. Fish Medicine. Philadelphia, W. B. Saunders Company, 882 p., 1993.

TEIXEIRA FILHO, A. R. Piscicultura ao Alcance de Todos. São Paulo, Nobel, 2ª ed., 212 p., 1991.

FONTE:
* Professora do Curso de Medicina Veterinária da Uniban - São Paulo

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