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Sushi e Sachimi x segurança para o consumidor

(Profª. Maria Paula Martinez Okumura)

Hoje em dia, o consumo de peixe vem sendo cada vez mais estimulado devido às inúmeras vantagens que este alimento oferece: altos níveis protéicos, fácil digestibilidade (pois possui pequena quantidade de tecido conjuntivo presente na musculatura) e baixa taxa de gordura, com a presença dos benéficos ácidos graxos insaturados. Esta combinação é ideal para as pessoas que procuram a boa forma, associada com uma alimentação saudável, tão desejada pela famosa e crescente "geração saúde". Além disso, pela presença dos ácidos graxos insaturados, a carne do peixe também é procurada para quem deseja controlar os níveis de colesterol dentro da normalidade.
Todo este incentivo para se ter uma vida mais saudável, inserindo na alimentação a carne de peixe, é realmente muito louvável, mas sempre devem ser tomados certos cuidados no seu preparo e manipulação, como em qualquer produto de origem animal.
Bem conhecidas são as toxinfecções alimentares, causadas por bactérias e certas toxinas, as quais podem estar presentes em alimentos manipulados e/ou conservados erroneamente. Mas pouco se comenta sobre as zoonoses parasitárias, neste caso transmitidas por peixes. Em tempo, zoonoses são doenças transmitidas dos animais para o homem e vice-versa.
Por razões óbvias, estas zoonoses têm grande destaque nos países asiáticos (Japão, Tailândia, etc.), devido principalmente ao consumo de pratos contendo peixe cru. No Brasil, o aumento crescente do consumo destes pratos orientais, dentre os quais o sushi e sashimi, está levando as autoridades de Saúde Pública e os pesquisadores a dar uma atenção especial à essa tendência do consumidor de não cozinhar ou cozinhar pouco os alimentos para melhor preservar seus nutrientes.
Embora existam vários parasitas zoonóticos em peixes, no Brasil podemos dar um destaque maior aos nematódeos da Família Anisakidae e ao trematódeo digenético Phagicola longa.
Dentre os anisaquídeos, apenas alguns gêneros têm importância zoonótica, como o Anisakis spp. e o Pseudoterranova spp., dentre outros. Interessante é o fato de que estes parasitas estão presentes em algumas espécies de peixes no Brasil, mas a anisaquíase humana ainda não foi relatada em nosso país. Acredita-se que isso ocorra por falta ou falha de diagnóstico e não à ausência desta doença na população.
O trematódeo P. longa causa uma doença chamada fagicolose, a qual envolve em seu ciclo de vida pequenos crustáceos e moluscos como primeiros hospedeiros intermediários, peixes do gênero Mugil (a tainha é o representante mais conhecido) como segundos hospedeiros intermediários, e mamíferos e aves piscívoras sendo hospedeiros definitivos. Experimentalmente, este parasita foi capaz de produzir ovos em macacos (Cebus apella), cães (Canis familiaris), gatos (Felis domestica) e micos (Callitithrix jacchus). No homem, P. longa também é capaz de fechar seu ciclo, ou seja, reproduzir-se sexuadamente, produzindo ovos que serão eliminados nas fezes.
A sintomatologia em pacientes humanos é típica de verminose, como dores abdominais, diarréia, mal-estar, flatulência e emagrecimento. Já existem vários casos no Brasil relatados na literatura, principalmente no litoral Sul de São Paulo, em Cananéia e Registro.
O meio mais óbvio de se fazer a prevenção destas e de outras zoonoses parasitárias transmitidas por peixes é a abstinência da ingestão de peixe cru ou mal-cozido, principalmente a tainha no caso da fagicolose.
Alguns autores relatam que a transferência dos alevinos de tainha (de 2 a 4 cm de comprimento) para a água doce possibilita sua criação isenta de Phagicola spp. Afortunadamente, só esta aclimatação não é suficiente como recurso preventivo para evitar esta doença.
A cocção a 100°C por 60 minutos é um dos métodos mais indicados para inviabilizar as larvas de P. longa na tainha. A refrigeração não se mostra muito eficiente, segundo o trabalho de diversos autores. A salmoura de 24°Bé durante quatro a cinco dias de exposição também é um método eficaz na inativação das metacercárias de P. longa na musculatura. Além disso, a defumação a 121°C por 3 horas também elimina o risco da ingestão de metacercárias vivas. Outros estudos utilizando o emprego da radiação gama comprovam que a dose ideal para controle das metacercárias na musculatura é de 4.0 kGy. Mesmo assim, são necessárias mais pesquisas sobre métodos de estocagem e tratamentos tecnológicos para assegurar a segurança do consumidor.
No caso da anisaquíase, a prevenção também se dá pela abstinência da ingestão de peixe cru ou mal-passado; remoção dos parasitas através de sua observação na "candle-table" (mesa iluminada com luz fria) e aplicação de técnicas para inativação das larvas dos nematóides (cocção; salga; refrigeração; congelamento).
Assim, é necessário haver uma maior conscientização da população sobre os possíveis riscos da ingestão de pratos contendo peixe cru ou mal-cozido, principalmente a tainha, visto que já existem casos desta zoonose no Brasil. Nem sempre a "moda" de cozinhar pouco os alimentos vai ser a opção mais saudável...

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
CASTRO, J. M. Extração de cistos de metacercárias de Phagicola Faust, 1920 (Trematoda: Heterophyidae) dos tecidos de tainha Mugil Linnaeus, 1758 (Pisces: Mugilidae) mediante emprego das técnicas de digestão enzimática e homogeneização. São Paulo, Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Dissertação de Mestrado, 63 p., 1994.
COELHO, M. R. T. Ação de diferentes métodos de conservação na sobrevivência de metacercárias de Phagicola longus (Ranson, 1920) Price, 1932, parasito de mugilídeos capturados no litoral do Estado do Rio de Janeiro. Niterói, Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Veterinária, Dissertação de Mestrado, 37 p., 1996.
GAZZANEO, A. Pesquisa de nematóides e trematódeos em sushi e sashimi comercializados nas cidades do Rio de Janeiro e Niterói. Niterói, Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Veterinária, Dissertação de Mestrado, 60 p., 2000.
OKUMURA, M. P. M.; ALEXANDRINO DE PÉREZ, A. C.; ESPÍNDOLA FILHO, A. Principais zoonoses parasitárias transmitidas por pescado - revisão. Revista de Educação Continuada do CRMV-SP, v. 2, f. 2, p. 66-80, 1999.
OKUMURA, M. P. M.; SÃO CLEMENTE, S. C.; ESPÍNDOLA FILHO, A. Identificação de metacercárias e formas larvares de nematóides e cestóides na musculatura de peixes utilizados em sushi e sashimi. Anais do XXVI Congresso Brasileiro de Medicina Veterinária (XXVI CONBRAVET), Campo Grande, 1999.
SÃO CLEMENTE, S. C.; MARQUES, M. C.; SERRA-FREIRE, N. M.; LUCENA, F. P. Análise do parasitismo de peixe espada Trichiurus lepturus L. do litoral do Rio de Janeiro - Brasil. Parasitología Al Dia, v. 19, p. 146-149, 1995.

FONTE:
* Professora do Curso de Medicina Veterinária da Uniban - São Paulo

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