|
A
principal função biológica da casca do ovo é a de formar uma câmara
para o desenvolvimento embrionário. Do ponto de vista de produção comercial
de ovos, no entanto, a casca poderia ser vista como uma embalagem que
envolve o conteúdo nobre – gema e albume – contra perdas e agressões
do meio. Mas a sua formação de modo algum pode ser encarada como um
processo simples, tipo industrial. De acordo com Elisabeth Gonzales,
professora da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP
de Botucatu, a deposição da casca é um processo biológico dinâmico,
concluído cerca de 20 horas após o ovo atingir o útero da ave. Finalizado
o processo, a ovoposição revela uma "embalagem" mal ou bem
formada. O produto não pode ser re-processado e a má qualidade da casca
resulta em perdas econômicas significativas para o avicultor.
A nutrição adequada da poedeira, relacionada com os minerais envolvidos
na formação da casca, destaca-se como um dos fatores que devem ser observados
criteriosamente para a manutenção da sua integridade. O principal mineral
a ser considerado na alimentação das poedeiras é o cálcio (Ca), seguido
do fósforo (P) e do delicado balanço de eletrólitros para a manutenção
da homeostasia desses minerais.
CÁLCIO:
ELEMENTO VITAL - A deposição diária de Ca na casca do ovo corresponde
a 10% do total de Ca estocado no organismo da ave, o que torna evidente
a importância desse mineral na alimentação das poedeiras.
Para que a casca se forme adequadamente a ave tem que consumir cerca
de 4,1 g de Ca por dia, valor que corresponde à necessidade desse mineral
para formar a casca, depositar na gema, repor as perdas teciduais e
manter a homeostasia iônica, a qual é regulada pela concentração plasmática
da forma ionizada do Ca. Ao contrário do que se pensava, no quarto final
do período produtivo, de primeiro ou segundo ciclos, a exigência de
Ca é um pouco menor, 4,0 g por dia. Não é, portanto, o aumento do mineral
que vai melhorar o problema de casca que ocorre com a idade avançada
da poedeira, mas o balanço adequado dos minerais e, por conseqüência,
o equilíbrio eletrolítico.
"O Ca dietético uma vez absorvido se apresenta na corrente sangüínea
sob duas formas: ligado à proteína transportadora ou saís orgânicos
e livre. A forma não difusível, a complexada, funciona como um "estoque
plasmático", altamente disponível para ser ionizado assim que o
Ca difusível vai sendo utilizado na formação da casca. O excesso de
Ca é depositado nos ossos, estrutural ou medular, constituindo um estoque
menos lábil, mas não menos importante, principalmente quando o processo
de formação da casca ocorre durante o período em que a ave fica no escuro
e não come", afirma Elisabeth Gonzales.
Enquanto o requerimento de Ca para as poedeiras é bem estabelecido,
ainda existem dúvidas com relação à forma que deve ser fornecido à ração.
Algumas pesquisas indicaram que o cálcio deveria ser suplementado com
matérias primas mais volumosas e menos pulverulentas do que o calcário
padrão, principalmente no verão e na fase final do ciclo produtivo.
A recomendação recai sobre o uso de calcário calcítico tipo pedrisco
ou casca de ostra, em partículas grandes (1, 86 mm) na ração ou no sistema
cafeteria, que propiciaria a liberação do Ca de uma maneira mais lenta,
tornando-o disponível no pool plasmático durante o processo noturno
de formação da casca. Outra alternativa é fornecer parte da dieta diária
no final do dia, cerca de 2 h antes do entardecer ou 4 h antes do apagar
das luzes do aviário.
|
Já
é comum em muitas granjas substituir-se a tradicional farinha
de ostra por pedrisco de calcário, que tem o mesmo teor de
cálcio e preço inferior. A ostra é encontrada apenas na faixa
litorânea do país, o que eleva seu custo.
A
eficácia do pedrisco de calcário na ração das aves como fonte
de cálcio é comprovada através de pesquisas do médico veterinário
Benedito Lemos de Oliveira da Universidade Federal de Lavras.
"Ficou comprovado que o uso do pedrisco torna as cascas
dos ovos melhores e mais resistentes, fatores importantes
para a qualidade da produção", garante o pesquisador.
"A intensificação constante da produção de ovos aumenta
as necessidades de cálcio das aves, principalmente no final
de cada um dos ciclos de postura. Ou seja, as galinhas mais
velhas precisam de mais cuidados" alerta o pesquisador.
Ele ressalta que estes cuidados são muito importantes porque
o mercado está cada vez mais exigente quanto à qualidade da
casca dos ovos. E com a crescente automatização dos aviários
é essencial garantir resistência às cascas.
|
FÓSFORO: O EXCESSO É PREJUDICIAL - O requerimento de P disponível
para as poedeiras é de 375 mg por dia. Durante o período em que não
há formação da casca, uma parte do P é dirigida para a deposição na
gema do ovo e outra parte se combina com Ca para ser depositado no osso.
No período de calcificação, o Ca a ser depositado na casca tem duas
origens: a dietética e a do osso. A liberação de Ca do osso é acompanhada
pelo P, aumentando significativamente o nível desse mineral na corrente
sangüínea, o qual é mais do que suficiente para suprir as necessidades
da ave, tanto as metabólicas quanto para a deposição na gema do ovo.
Esse excesso de P prejudica a liberação de Ca do osso e a adequada mineralização
da casca. Então, do ponto de vista fisiológico, durante o período de
calcificação do ovo a melhor dieta seria aquela com baixo nível de P.
Infelizmente é impossível fornecer dois tipos de dieta em um mesmo dia
para os planteis comerciais de poedeiras.
"É necessário ter uma atenção especial com o nível de P da dieta
quando se usa a fitase na ração. Como a enzima aumenta a disponibilidade
de P do alimento, o nível de P a ser incorporado à ração deve ser recalculado,
para não incorrer no erro de fornecer demasiado P à ave e prejudicar
a produção de ovos e a qualidade da casca", aponta Elisabeth Gonzales.
O EQUILÍBRIO DE ELETRÓLITOS - Segundo a professora,
já há algum tempo se conhece a importância fisiológica da homeostasia
iônica do plasma para a manutenção do crescimento e da produção de ovos.
A qualidade da casca é melhorada quanto se aumenta o nível de sódio
(Na+) e potássio (K+), mas piora com demasiado
cloro (Cl-). Na verdade, os efeitos desses íons sobre a qualidade
da casca não são isolados, mas muito dependente do balanço entre eles,
representado na equação de Mongin (Na+ + K+ -
Cl-) cujo valor é aproximadamente 200 mEq/kg de dieta. Porém,
as necessidades mínimas de cada elemento devem ser atendidas.
As aves são naturalmente predispostas a apresentarem acidose metabólica
no período de rápido crescimento do tecido ósseo ou durante a calcificação
da casca, por remover Ca e acrescentar H+ à corrente sangüínea.
Cerca de 40% do tamponamento da acidez metabólica ocorre no osso, com
a liberação de Na+ e K+ em troca do excesso de
H+, iniciada quando há uma queda da concentração plasmática
do ion bicarbonato (HCO3), o principal tampão do sangue.
É compreensível, pois, que se reforce os sistemas naturais de tamponamento
da acidez fisiológica, oferecendo às aves uma dieta balanceada em eletrólitos,
principalmente Na+ e K+. Esses elementos têm um
efeito alcalinizante nos fluídos corporais e o Cl-, acidificante.
A vitamina D é essencial para a absorção de Ca no intestino, mas é preciso
estar na sua forma ativa, cuja conversão é prejudicada se o balanço
de eletrólitos na dieta não for adequado.
O desequilíbrio ácido-básico é bem evidente quando as aves são colocadas
em um ambiente de alta temperatura, superior a 30 oC. Nessa
situação, as aves aumentam a taxa respiratória para incrementar a perda
de calor corporal pelo processo evaporativo. Com isso, há perda excessiva
de CO2 e queda significada da concentração sangüínea de CO2
e bicarbonato, com o risco de desenvolver um quadro de alcalose respiratória.
Agravando o processo de acidificação do plasma, peculiar ao processo
de formação da casca, ocorre a liberação de ácidos orgânicos para se
contrapor à alcalose respiratória. Com isso, a dissociação do Ca fica
prejudicada, comprometendo a qualidade da deposição calcária que envolve
o ovo. O uso suplementar de sais de Na+ e K+ e
de 0,5% a 1,0% de bicarbonato de sódio na água ou ração são indicados
para amenizar os efeitos deletérios do estresse por calor sobre a qualidade
da casca do ovo.
É sempre bom lembrar que a acidez fisiológica decorrente da deposição
calcária no ovo é agravada em dieta com balanço inadequado de cálcio
e fósforo, dificilmente corrigido com a adição Na+, K+
ou de bicarbonato à dieta ou água. A primeira atitude a ser tomada quando
há problemas de fragilidade da casca do ovo é revisar os níveis de cálcio
e fósforo da dieta, sem esquecer o balanço entre eles.
E ALÉM DISSO?: Não deve ser negligenciado a qualidade da proteína da
dieta, a qual deve conter os aminoácidos essenciais bem balanceados,
principalmente metionina, para a síntese das proteínas que formam a
base de sustentação da casca. Embora contribuindo com menos de 1% do
peso da casca do ovo, os componentes protéicos tem um papel muito importante
na calcificação da casca, participando dos processos essenciais de sustentação
e modelagem da estrutura calcária. Nesse sentido, o uso de betaína,
substituindo a metionina na proporção 567 g metionina:454 g betaína,
parece promissor, não só como doadora de grupo metil, mas por sua função
de aumentar a pressão osmótica, a temperatura e a tolerância iônica
das células do intestino, fígado e rins.
A adição na ração de vitamina C é outra recomendação citada na literatura
para amenizar os problemas de casca relacionados com o calor ou a idade
avançada da poedeira. Mas, as opiniões não são unanimes, com resultados
benéficos inconsistentes e dependentes da severidade do estresse pelo
calor.
"Outros fatores como doenças e a carga genética podem determinar
problemas de qualidade da casca que freqüentemente não são corrigidos
com a utilização de níveis ajustados de Ca, P e aminoácidos, mesmo quando
fornecidos dentro dos mais criteriosos preceitos da nutrição da poedeira",
alerta Elisabeth Gonzales.
|