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Genética, alimentação e produtividade de porcas

Ganhos genéticos contínuos e melhorias na qualidade das rações e forma de arraçoamento serão responsáveis pela revolução dos suínos no novo século. Eles deverão atingir pesos elevados de abate aos 140-150 dias de idade, com 12 a 15 mm de espessura de toucinho e alto rendimento de carne. A previsão é do engenheiro agrônomo Renato Irgang, do Departamento de Zootecnia e Desenvolvimento Rural, do Centro de Ciências Agrárias – Universidade Federal de Santa Catarina.
 
As melhorias na taxa de crescimento diário, na espessura de toucinho e no rendimento de carne dos suínos se devem, em grande parte, à seleção intensa aplicada em genótipos de linhas maternas. Na Inglaterra e Dinamarca, por exemplo, os dois principais genótipos maternos, Landrace e Large White, já atingiram 10 mm de espessura de toucinho aos 100 kg de peso vivo. No Brasil, esses dois genótipos apresentam taxas elevadas de crescimento, possivelmente as melhores no mundo. Como essas duas raças são usadas universalmente na produção de fêmeas F-1 de plantel, a pergunta que se faz é se a seleção praticada ao longo dos anos para melhoria do desempenho e da composição da carcaça também afetou a capacidade reprodutiva das porcas.
 
Relação genética - Irgang explica que experimentos científicos e trabalhos executados em granjas indicam uma correlação genética negativa (-0,31) entre taxa de crescimento e idade à puberdade das fêmeas. "A correlação entre taxa de crescimento e número de leitões nascidos na primeira leitegada também é negativa, porém mais baixa. Isso significa que leitoas portadoras de genes para alta taxa de crescimento tem capacidade para apresentar menor idade à puberdade e ao primeiro parto, porém menor número de leitões nascidos". Já a correlação genética entre rendimento de carne e número de leitões nascidos na primeira leitegada é positiva mas próxima de zero. "Isso significa que leitoas com maior capacidade de produção de carne podem apresentar uma pequena vantagem genética de prolificidade".
 
A maioria dos estudos que relacionam taxa de crescimento, produção de carne e reprodução em fêmeas, avalia apenas o número de leitões nascidos na primeira leitegada. Na prática, porém, o que interessa para os produtores de leitões e de suínos para o abate é o resultado em várias leitegadas. O que vale mesmo é a relação entre genótipo, alimentação e produtividade das porcas no decorrer de sua vida reprodutiva.
 
Nutrição x reprodução – Neste ponto, as pesquisas indicam que porcas, especialmente de primeira cria, que perdem muito peso ou condição corporal durante a lactação, apresentam maior número de dias não produtivos, menor taxa de gestação e de sobrevivência embrionária, e menor eficiência reprodutiva. "Do ponto de vista genético", avalia Irgang, "não existe uma relação importante entre taxa de crescimento e rendimento de carne com a perda de peso das porcas durante a lactação. Mas, do ponto de vista de manejo, o menor consumo de ração de porcas com alto potencial genético para produção de carne, especialmente no verão, parece ser uma das causas da perda considerável de peso durante a lactação, com efeitos adversos na produção de leitões".
 
A relação entre desempenho reprodutivo, consumo de ração e perda de peso das porcas durante a primeira lactação, tem sido estudada pelos pesquisadores Foxcroft, da Universidade de Alberta, e Aherne e Kirkwood, da Alberta Agriculture, no Canadá. Em uma palestra, proferida no 3 Seminário Internacional de Suinocultura, realizado em agosto do ano passado (São Paulo), os pesquisadores canadenses mostraram que porcas de primeiro parto, que perderam 11 kg de peso e em torno de 2 mm de espessura de toucinho durante 28 dias de lactação, apresentaram 3,7 dias de intervalo desmame-cio (média) e 19,8 óvulos após o desmame. Esta condição permitiria parir em torno de 12 leitões no segundo parto. As porcas primíparas – que perderam 21 a 25 kg de peso e 4,5-5,4 mm de espessura de toucinho durante o mesmo período de lactação – levaram 5 dias para apresentar cio após o desmame (média) e liberaram 15,4 óvulos (média); dando um rendimento de 9 a 10 leitões no segundo parto, considerando-se uma taxa média de sobrevivência embrionária de 60%.
 
Pelo fato da perda de peso das porcas ser composta de gordura e proteína, e como até 30% da proteína corporal pode ser mobilizada durante a lactação, o mesmo grupo de pesquisadores averiguou a relação entre características do ovário e de perda de proteína das porcas durante a lactação. Os resultados do estudo foram apresentados na 9 Reunião Anual da American Society of Animal Science, realizada em Julho de 1999, em Indianápolis, EUA. A perda de peso corporal e a diminuição da espessura de toucinho durante a lactação e as características de útero após o desmame foram observadas em porcas alimentadas para perder 5%, 10% a 15% e 20% a 25% da proteína corporal. A perda de peso das porcas foi, respectivamente, de 12,7; 17,0 e 28,2 kg, e a redução da espessura de toucinho foi, respectivamente, de 1,0; 1,4 e 1,7 mm, em média. As porcas que perderam o mínimo de proteína corporal durante a primeira lactação apresentaram maior concentração de líquido folicular, maior peso do útero e maior número de folículos ovarianos maduros ao desmame, apresentando, portanto, maior capacidade de produção de leitões na leitegada seguinte. As porcas com as maiores perdas de proteína corporal foram as que apresentaram menor número de folículos ovarianos maduros ao desmame, apresentando, portanto, menor capacidade de produção de leitões no segundo parto. Os resultados dos experimentos realizados no Canadá indicam que, para se obter leitegadas de tamanho adequado no segundo parto, as porcas não devem perder mais do que 10 a 12 kg de peso vivo e não mais do que 2 mm de espessura de toucinho no decorrer da primeira lactação.
 
Outros estudos apresentados durante a 9 Reunião Anual da "American Society of Animal Science" sugerem que, para manter bom estado corporal e capacidade para produzir grande número de leitões por várias leitegadas, leitoas e porcas de 2, 3, 4 e demais partos devem ser alimentadas com rações contendo no mínimo 0,90% de lisina e consumir em tomo de 55 a 56 g de lisina por dia. Esses níveis são um pouco maiores do que os recomendados pelo NRC na sua edição de 1998.
 
Primeira cria - Outros cuidados também devem ser observados pelos criadores e técnicos em suinocultura, se quiserem obter boa produtividade de leitões e longevidade das porcas. Esses se referem a idade e ao peso das leitoas na primeira cobertura. Pelo fato de apresentarem maior taxa de crescimento, as leitoas estão apresentando o primeiro cio em idade mais precoce. Em muitas fêmeas, o primeiro cio ocorre entre 140 e 160 dias de idade, com 90 a 100 kg de peso vivo. Acasalando-se essas fêmeas ao 2 ou 3 cio, significa que com 200 dias de idade ou menos já estarão prenhes, vindo a parir a sua primeira leitegada com aproximadamente 10 a 11 meses de idade.
 
Do ponto de vista econômico, o manejo precoce das fêmeas parece ser interessante, pois as porcas começam a produzir mais cedo, com custos menores de manutenção. Os produtores devem se certificar, porém, que leitoas sexualmente precoces tenham as condições necessárias para se desenvolver bem, pesar 130 a 140 kg e apresentar no mínimo 20 mm de espessura de toucinho quando acasaladas.
 
Essas observações são muito importantes, especialmente para fêmeas F-1 produzidas de linhas maternas selecionadas para alto rendimento de carne. Aos cinco meses de idade as leitoas estão em processo de intenso crescimento e, devido ao seu genótipo, podem apresentar baixa espessura de toucinho. Como o crescimento das fêmeas continua além dos seis meses de idade, deve-se, por isso, prepará-las bem para a reprodução, estimulando-as a consumir quantidades diárias de ração que lhes permitam formar uma boa reserva corporal, sem afetar adversamente os aprumos.
 
Fêmeas de genótipos produtores de suínos de abate, com alto rendimento de carne, nem sempre conseguem acumular reservas corporais suficientes para ser iniciadas precocemente na reprodução. Nesse caso, devem ser acasaladas a primeira vez entre 7 e 8 meses de idade, o que significa que o primeiro parto irá ocorrer próximo aos 12 meses de idade. Com isso se estará proporcionando a estas fêmeas as condições para produzirem grande número de leitões e de leitegadas, com taxas baixas de reposição anual.

Benefícios e custos de produção
 
Na suinocultura, como em qualquer outra atividade, é fundamental avaliar a relação entre custos de produção e seus benefícios. A tomada de decisões começa quando se define a idade de início da vida reprodutiva, o manejo e a alimentação das fêmeas de plantel. Nesse caso, a relação dependerá do número e do peso dos leitões desmamados por porca durante 24 ou 30 meses de vida reprodutiva, dos custos de produção e de reposição das fêmeas, da capacidade produtiva da mão-de-obra utilizada na produção e das condições de ambiente da criação.
 
Para se produzir animais de abate com alto rendimento de carne, devem-se utilizar genótipos selecionados com esse objetivo. A importância econômica da produção de leitões pode exigir, porém, que as fêmeas de plantel destes genótipos sejam manejadas de modo a acumular reservas corporais de gordura e a evitar perdas excessivas de proteína corporal, para proporcionar-1hes as condições necessárias para produzirem de forma rentável.

FONTE:
Revista Alimentação Animal - Número 17 - Jan/Mar/2000
Sindicato Nacional da Indústria Alimentação Animal – SINDIRAÇÕES
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