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Uso de enzimas em rações

O interesse no uso de enzimas em rações para aves tem aumentado devido ao custo cada vez maior das matérias primas tradicionais e a busca por outros ingredientes alternativos como a cevada, aveia, arroz e trigo, entre outros. As enzimas também são consideradas como uma forma de reduzir a contaminação ambiental com nutrientes nas excretas, tais como o fósforo, nitrogênio, cobre e zinco. Além disso, existe uma preocupação cada vez maior com a adição de aditivos antimicrobianos nas rações.

A utilização de enzimas seria, portanto, uma alternativa para o uso de promotores antibióticos, com o objetivo de aumentar a digestibilidade dos alimentos e o desempenho das aves. Quem afirma é o professor José Roberto Sartori, do Departamento de Melhoramento e Nutrição Animal, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia UNESP - Câmpus de Botucatu. “A escolha do tipo de enzima a ser utilizada vai depender do tipo de substrato que se deseja trabalhar”. (veja tabela 1).

Tabela 1

Resumo das enzimas utilizadas em rações para aves.

Enzima

Substrato

Efeitos

Xilanase

Arabinoxilanas

Redução da viscosidade da digesta.

Glucanases

b-glucanos

Redução da viscosidade da digesta. Menor umidade na cama.

Pectinases

Pectinas

Redução da viscosidade da digesta.

Celulases

Celulose

Degradação da celulose e liberação de nutrientes

Proteases

Proteínas

Suplementação das enzimas endógenas. Degradação mais eficiente de proteínas.

Amilases

Amido

Suplementação das enzimas endógenas. Degradação mais eficiente do amido.

Fitase

Ácido fítico

Melhora a utilização do fósforo dos vegetais. Remoção do ácido fítico.

Galactosidases

Galactosídios

Remoção de Galactosídios

Lipases

Lipídios e ácidos graxos

Melhora a utilização de gorduras animais e vegetais

Adaptado de CLEOPHAS et al. (1995).

Cuidados na utilização

A função catalítica das enzimas depende de uma série de fatores, como a concentração do substrato e da enzima e o ambiente no qual a reação ocorrerá. Alguns dos fatores mais importantes a considerar são: a temperatura, o pH, a umidade e a presença de co-enzimas e inibidores.

“Para uma boa utilização de enzimas, sua atividade biológica deve sobreviver aos rigores da fabricação e estocagem da ração, resistir ao baixo pH e às enzimas proteolíticas do trato digestório. Quando o alimento é submetido a temperaturas elevadas, como por exemplo nos processos de peletização e extrusão, pode ocorrer uma desnaturação das enzimas, eliminando o benefício de sua inclusão na dieta dos animais”, alerta Sartori. Quando o alimento for aquecido acima de 75oC, o que é comum durante estes processos, recomenda-se que as enzimas sejam aspergidas posteriormente à obtenção dos péletes.

Embora nem sempre se observe benefício do uso de enzimas, a maioria das pesquisas de alimentação de poedeiras e frangos de corte indicam uma melhora na digestibilidade dos alimentos e no desempenho das aves e uma redução na quantidade de resíduos nas excretas. Alguns fatores podem levar a grandes variações nos resultados obtidos com a utilização das enzimas, alerta o pesquisador da Unesp, entre eles a forma e o momento de aplicação das enzimas, a exposição a altas temperaturas e outros fatores que possam desnaturá-las, a estocagem e o prazo de validade. Completam a lista: a aplicação de quantidades precisas e a distribuição uniforme no alimento, o veículo utilizado e a composição do complexo enzimático.

Fatores intrínsecos ao animal, tais como a idade, estado fisiológico, estresse e patologias também podem afetar grandemente os resultados da adição de enzimas na dieta. Para Sartori, um maior número de pesquisas devem ser realizadas com ingredientes produzidos e utilizados no Brasil, “uma vez que a maioria dos resultados disponíveis são provenientes da literatura internacional, com alimentos produzidos em condições de clima e solo diferentes das nossas, o que pode influenciar a sua composição de nutrientes e de fatores antinutricionais”.

Relação custo/benefício

A melhora significativa na digestibilidade dos alimentos obtida com o uso de enzimas nas dietas permite alterações nas formulações das rações de forma a minimizar o custo, maximizando o uso dos ingredientes energéticos e protéicos das rações. O emprego de enzimas possibilita, ainda, a utilização de alimentos alternativos regionais ou sazonais de menor custo em substituição ao milho e à soja, tradicionalmente utilizados como fontes de energia e proteína, respectivamente.

“O uso ou não das enzimas deve ser determinado através de um estudo econômico para cada empresa, levando em consideração a relação custo/benefício”, explica o professor José Roberto Sartori. “Além disso, devemos considerar a questão da preservação do meio ambiente, não menos importante, porém bem mais difícil de incluir nos cálculos econômicos. Mas, o custo do uso de enzimas, frente à baixa rentabilidade do setor avícola, é o fator mais limitante para a sua utilização”.

Segundo ele, a suplementação enzimática em dietas para frangos de corte a base de milho e soja tem promovido uma melhora na digestibilidade da ração, com maior disponibilização de aminoácidos e aproveitamento da proteína da dieta, refletindo em melhores resultados de desempenho dos frangos, com maiores ganhos de peso e fator de produção e melhora na conversão alimentar.

“Embora o milho e o sorgo sejam considerados como alimentos que apresentam baixa viscosidade, a adição de xilanase pode proporcionar uma redução na viscosidade da digesta. Esta redução adicional pode melhorar a digestão dos nutrientes na porção inicial do trato digestório, determinando uma melhor utilização da energia e um maior desempenho das aves”, continua. “O uso de enzimas proteolíticas (proteases) pode melhorar o valor nutricional da soja, pois são efetivas em degradar os inibidores da tripsina e lectinas presentes na soja mal processada”.

 

O uso de fitase

O fitato, é um poderoso fator anti-nuticional que diminui significativamente a disponibilidade de nutrientes para os monogástricos. A enzima fitase pode ser adicionada nas dietas para liberar os nutrientes ligados ao fitato, aumentando a disponibilidade de fósforo para o animal. A adição de fitase nas dietas de aves e suínos reduz a excreção de fósforo nas fezes em 20 a 30% e aumenta a disponibilidade de outros nutrientes, tais como minerais (cálcio, zinco e cobre), proteínas, aminoácidos e energia, reduzindo as excreções e, consequentemente, diminuindo a contaminação ambiental com estes resíduos.

O que são enzimas?

Enzimas são proteínas que catalizam reações químicas nos sistemas biológicos, ou seja, participam de reações de síntese e degradação do metabolismo do animal. A atividade catalisadora de uma enzima é específica para determinada reação e substrato. As enzimas são, portanto, classificadas pelos substratos com que vão reagir e por sua especificidade de reação. As enzimas do trato digestório, chamadas de enzimas endógenas, promovem a quebra das moléculas complexas dos nutrientes em moléculas simples, de forma que possam ser absorvidas pelo organismo. A digestibilidade de um alimento é medida pela capacidade do organismo em digerir o mesmo e é obtida comparando-se o alimento ingerido e o que é excretado nas fezes.

Basicamente, as enzimas são adicionadas aos alimentos para melhorar a digestibilidade e o aproveitamento pelos animais. Estas enzimas são denominadas exógenas e podem ser derivadas de fontes microbianas, animais e vegetais. Porém, a maioria provém da fermentação de bactérias (Bacillus sp.) e fungos (Aspergilus sp.).

 Como funcionam - ações e efeitos das enzimas

a) Remoção de fatores antinutricionais: os componentes da parede celular dos grãos (b-glucanos e arabinose) possuem um efeito antinutricional nas aves. Quando estes componentes se encontram na forma solúvel, aumentam a viscosidade da ingesta, interferindo na motilidade e na absorção de outros nutrientes e favorecendo o aparecimento de fezes úmidas e pegajosas, sendo a causa de baixos rendimentos. As enzimas b-glucanases são específicas para estas frações de polissacarídios e podem ser adicionadas nas dietas para melhorar a qualidade nutricional dos grãos de cereais, como a cevada, centeio, aveia, trigo e triticale.

b) Aumento da disponibilidade de nutrientes: a má digestibilidade das matérias primas é, a princípio, o resultado da quantidade insuficiente de enzimas endógenas para extrair os nutrientes dos alimentos. A suplementação de enzimas nas dietas pode melhorar a ação massal das enzimas endógenas sobre os ingredientes tradicionais, melhorando o seu valor nutritivo e o desempenho das aves.

c) Aumento na digestibilidade de polissacarídios não amídicos (fibras): os monogástricos não têm capacidade endógena para digerir as fibras. Enzimas exógenas podem ser utilizadas para hidrolizar os polissacarídios não amídicos que podem, potencialmente, serem utilizados pelas aves.

d) Suplementação na produção de enzimas endógenas: em aves e suínos jovens, a produção de enzimas endógenas é menor que em adultos, de modo que, a digestibilidade dos alimentos, em geral, é menor nos animais jovens, podendo ser melhorada pela adição de enzimas exógenas.

Vantagens ambientais

O uso de enzimas nas rações das aves e outros animais domésticos, melhora a digestibilidade e disponibilidade de certos nutrientes para os animais, principalmente o fósforo, nitrogênio, cálcio, cobre e zinco - diminuindo a sua presença desses nas fezes e, consequentemente, a sua deposição no meio ambiente.

Segundo Sartori, a maior preocupação ocorre com o fósforo dos alimentos vegetais, que por estar ligado ao ácido fítico na forma de fitato, é pouco disponível aos animais monogástricos, pois estes não dispõem da enzima fitase para aproveitá-lo. Somente cerca de um terço do fósforo total destes alimentos é disponível para aves e suínos. “A lixiviação do fósforo a partir de excretas de aves e outros animais domésticos para a água de superfície e lençóis freáticos é um grave problema de poluição ambiental, que pode ser minimizado com o uso de uma enzima fitase exógena”.

 

FONTE:
Revista Alimentação Animal – Número 19 - Jul/Set/1999
Sindicato Nacional da Indústria Alimentação Animal – SINDIRAÇÕES
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