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Resumo
Nesse artigo, discute-se os principais
fatores que devem ser levados em consideração na polinização de culturas
agrícolas e sugere-se a adoção de programas racionais de polinização
no Brasil.
Introdução
A polinização constitui-se atualmente em um fator de produção fundamental
na condução de muitas culturas agrícolas ao redor do mundo. Além do
aumento no número de vagens ou frutos vingados, a polinização bem conduzida
também leva a um aumento no número de grãos por vagem, melhora a qualidade
dos frutos e diminui os índices de malformação, aumenta o teor de óleos
e outras substâncias extraídas dos frutos, encurta o ciclo de certas
culturas agrícolas e ainda uniformiza o amadurecimento dos frutos diminuindo
as perdas na colheita (WILLIAMS et al., 1991). Em países da Comunidade
Européia e nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, o
uso de serviços de polinização tem sido um dos principais responsáveis
pela produtividade e rentabilidade da agricultura. Nesses países o comércio
de serviços de polinização é muito organizado, tanto do lado dos apicultores
que vendem esses serviços quanto da parte dos agricultores que os compram.
No Brasil no entanto, ainda prevalece a errônea idéia de que a simples
introdução na área plantada de algumas colmeias de abelhas já é suficiente
para obter-se os níveis ideais de polinização. Como consequência, temos
culturas mal polinizadas com baixos índices de produtividade, altas
percentagens de perdas, pouca rentabilidade e que apenas contribuem
para a desvalorização dos serviços de polinização no meio agrícola nacional
(FREITAS, 1994).
No momento atual, em que a apicultura nacional vive um período de grande
crescimento em todas as regiões do país, inclusive na diversificação
da exploração dos produtos apícolas, é preciso que se discuta a situação
dos serviços de polinização oferecidos no Brasil, a sua qualidade, a
capacitação técnica de apicultores e produtores envolvidos no processo
e a expansão desse mercado. É hora de também passarmos a desenvolver
programas racionais de polinização baseados em conhecimentos da eficiência
dos agentes polinizadores utilizados e nos requerimentos de polinização
de cada cultura. O principal impecilho nos parece ser a falta de informações
a respeito da polinização e dos fatores envolvidos na eficiência do
processo. Por isso, nesse artigo, pretendemos dar a nossa contribuição
para o desenvolvimento dos serviços de polinização no Brasil discutindo
alguns aspectos do próprio processo de polinização e sugerindo a adoção
de programas racionais de polinização na agricultura nacional.
O
que é polinização?
Qualquer apicultor sabe da importância das abelhas como agentes polinizadores
das plantas. Mas será que qualquer apicultor sabe dizer o que é a polinização
e quais as suas implicações? Em linguagem simples, a polinização é definida
como a transferência de grãos de pólen das anteras de uma flor para
o estigma da mesma flor ou de uma outra flor da mesma espécie (CORBET
et al., 1991). Porém, essa simples deposição de grãos de pólen
no estigma da flor não é suficiente para que haja a formação de sementes
e frutos. É preciso que após a polinização propriamente dita, alguns
desses grãos de pólen depositado no estigma venham a germinar e fertilizar
o(s) óvulo(s) presente(s) no ovário da flor, em um processo chamado
de fertilização.
A fertilização da maioria dos óvulos, e consequente formação de um maior
número de sementes e frutos de qualidade superior, portanto, é uma consequência
direta da polinização. Quanto mais eficiente for o processo de polinização,
ou seja, quanto maior for o número de grãos de pólen viáveis e compatíveis
no estigma, maior será a competição entre eles para fecundar os óvulos
e maior será a percentagem de fertilização (FREITAS, 1997a). Multiplicando-se
isso pelas milhões de flores normalmente encontradas em uma área agrícola,
pode-se ver como o processo de polinização afeta a produção final de
uma cultura.
A
eficiência do processo de polinização
Como bem sabemos, as plantas dependem de agentes polinizadores,
principalmente as abelhas, para realizarem a transferência de pólen
das anteras para os estigmas. No entanto, a eficiência polinizadora
de qualquer visitante floral (não somente em seu sentido mais restrito
de transferência do pólen para o estigma, mas incluindo também a fertilização
dos óvulos e formação de sementes e/ou frutos) pode ser influenciada
por uma série de fatores, alguns inerentes do próprio inseto e outros
dependentes da cultura a ser polinizada (SPEARS 1983; FREITAS &
PAXTON, no prelo).
Os principais fatores relacionados à cultura são a estrutura e morfologia
da sua flor; o volume, concentração e conteúdo de açúcar total do seu
néctar; horário e padrão de secreção do néctar ou liberação de pólen;
viabilidade e longevidade do pólen; autocompatibilidade ou incompatibilidade
do pólen da mesma planta, variedade ou cultivar; período de receptividade
do estigma; e vida útil dos óvulos (HARDER & THOMSON, 1989; FREITAS,
1996a, b). Por outro lado, para que uma espécie animal qualquer, incluindo
as abelhas, possa ser classificada como polinizadora de uma certa cultura
agrícola, é preciso que o potencial polinizador seja atraído pelas flores
da cultura; que apresente fidelidade àquela espécie; que possua tamanho
e comportamento adequados para remover pólen dos estames e depositá-los
nos estigmas; que transporte em seu corpo grandes quantidades de pólen
viável e compatível; que visite as flores quando os estigmas ainda apresentam
boa receptividade e antes do início da degeneração dos óvulos (FREE,
1993; FREITAS & PAXTON, 1996; FREITAS, 1997b). Por isso nem todas
as espécies vegetais são igualmente atrativas para todos os polinizadores,
e nem todo visitante floral é eficiente na polinização de qualquer cultura
agrícola.
O uso de agentes polinizadores em áreas cultivadas é uma atividade complexa,
uma vez que exige do responsável bons conhecimentos sobre fisiologia
de plantas, requerimentos de polinização da cultura em questão e biologia
e eficiência polinizadora do inseto usado. Esses conhecimentos por parte
de quem propõe-se a trabalhar com polinização são de fundamental importância
para o sucesso da atividade. O desconhecimento, por exemplo, de que
devido a morfologia da flor da macieira (Malus domestica), as
abelhas melíferas (Apis mellifera) que coletam pólen apresentam
uma eficiência polinizadora bem superior a das coletoras de néctar (FREITAS,
1992; 1995), pode levar alguém a iludir-se com a perspectiva de coletar
mel de maçã e deixar de estimular nas colmeias a coleta de pólen, o
que resultaria em índices de polinização bem mais elevados. Já o arranjo
floral do girassol (Helianthus annuus) faz com que ele seja mais
beneficiado quando é visitado por abelhas coletoras de néctar. Isso
ocorre porque a sua inflorescência constitui-se em um capítulo formado
por centenas de pequenas flores que abrem em sequência de fora para
dentro da inflorescência, ao longo de vários dias. As flores passam
primeiro por uma fase masculina, na qual liberam pólen, e somente depois
entram na fase feminina quando tornam-se receptivas para serem polinizadas.
Dessa forma, as abelhas que coletam pólen limitam suas visitas apenas
as flores na fase masculina que ainda não estão receptivas a polinização,
enquanto que as abelhas coletoras de néctar visitam todas as flores
da inflorescência, efetuando a polinização daquelas que estão na fase
feminina (FREE, 1993). Em casos como esse, a produção de mel pode ser
incentivada em colmeias usadas para polinização.
Outro aspecto importante em polinização, é a identificação do agente
polinizador mais eficiente para cada cultura agrícola. Há uma tendência
muito grande de supervalorizar a abelha melífera e considerá-la capaz
de polinizar qualquer espécie vegetal, cultivada ou não. No entanto,
estudos tem mostrado que em várias situações existem agentes polinizadores
bem mais eficientes do que as abelhas do gênero Apis (TEPEDINO,
1981; FREITAS & PAXTON, no prelo). A a acerola (Malphigia glabra),
por exemplo, não produz néctar e portanto é pouco atrativa para abelhas
melíferas (Apis mellifera), sendo sua polinização realizada principalmente
por abelhas do gênero Centris (RAW, 1979; MELO et. al.,
1997). Similarmente, o maracujá (Passiflora edulis) obtém polinização
de abelhas do gênero Xylocopa (CORBET & WILLMER, 1980; SAZIMA
& SAZIMA, 1989) e a alfafa (Medicago sativa) de abelhas do
gênero Megachile (FREE, 1993), para não citar aqui uma lista
de plantas cultivadas cujos polinizadores mais importantes não são abelhas.
Esses exemplos citados acima são clássicos e bastante conhecidos no
meio apícola, porém ainda existem muitas indagações sobre os principais
agentes polinizadores da maioria das culturas agrícolas.
Finalmente, é preciso termos em mente que cada plantio é uma situação
diferente, e deve-se evitar aqueles índices de aumento de produtividade
"tabelados" onde lê-se que a polinização aumenta x% nessa
cultura e y% naquela. Esses dados apenas refletem a realidade do local,
período e ano em que aquele experimento foi feito. A mesma cultura em
outras situações comumente apresenta índices bastante diferentes porque
as condições climáticas, competição com outras plantas, abundância e
eficiência dos polinizadores naquela área dificilmente serão idênticos
aos da situação anterior.
Os
programas de polinização
Um dos maiores impecilhos para o desenvolvimento do mercado de polinização,
por incrível que possa parecer, tem sido os próprios resultados obtidos
com o uso de abelhas como polinizadoras. Como a grande maioria dos apicultores
não se preocupa em acompanhar a eficiência polinizadora de suas colmeias,
mas apenas em produzir a maior quantidade de mel possível, os resultados
de polinização normalmente são aquém do que seria esperado. Isso ocorre
porque o apicultor não se interessa em estimular suas abelhas para coletar
mais pólen em detrimento do néctar, por exemplo, no caso de culturas
mais beneficiadas por esse comportamento; não maneja suas colônias para
que as abelhas visitem as flores nos momentos mais favoráveis a sua
polinização, ao invés da hora preferida pelas próprias abelhas; não
dirige suas abelhas para a cultura desejada fazendo com que muitas procurem
plantas sem interesse comercial que estejam florescendo nas proximidades;
não distribui as colmeias uniformemente na área plantada preferindo
a comodidade de tê-las todas reunidas, etc.
Os resultados insignificantes fazem com que os produtores não incorporem
os serviços de polinização como fatores de produção de suas atividades
agrícolas, nem atraiam outros agricultores para utilizarem agentes polinizadores
em suas lavouras. A preocupação por parte dos apicultores em adotarem
programas racionais de polinização, que considerassem esses e outros
fatores, certamente aumentaria consideravelmente a eficiência dos agentes
polinizadores e a demanda por seus serviços.
Um programa racional de polinização bem conduzido deve constar das seguintes
etapas:
1 - Levantamento dos níveis de polinização atual da cultura e potencial
produtivo sob níveis de polinização adequados;
Algumas áreas apresentam níveis de polinização
próximos do ideal e a introdução de agentes polinizadores não altera
quase nada a produtividade da cultura. Outras áreas por sua vez, apresentam
níveis de polinização natural tão baixos, que o uso de polinizadores
suplementares pode constituir a diferença entre a inviabilidade econômica
e boas margens de lucro.
2 - Estimativa preliminar da viabilidade econômica da execução do programa;
Produtor e apicultor precisam ter uma idéia
se será economicamente viável executar um programa de polinização para
aquela cultura, considerando todos os custos envolvidos com pessoal,
transporte, agentes polinizadores, etc., em relação aos aumentos de
produtividade previstos no ítem anterior.
3 - Identificação dos requerimentos de polinização da cultura e da espécie
polinizadora mais adequada;
Conforme discutido anteriormente, cada espécie
vegetal tem suas próprias necessidades de polinização e há agentes polinizadores
mais adequados para atendê-las do que outros. É preciso que se identifique
esses requerimentos da cultura e o agente mais eficiente para suprí-los
afim de assegurar os níveis de polinização máximos da cultura.
4 - Elaboração da estratégia de polinização a ser usada;
Em função do ítem anterior, tem-se que determinar
o número de colméias por hectare, disposição das colméias, direcionamento
das abelhas, rodízio das colméias em função do ciclo das culturas, enquadramento
do programa em função dos tratos culturais das culturas, etc., mais
adequados para cada situação.
5 - Dimensionamento e instalação dos apiários e infra-instrutura necessários
ao programa de polinização;
Também é preciso atentar para a quantidade
de apiários, número de colmeis por apiário, e todo o material apícola
necessário para dar suporte às atividades de polinização.
6 - Treinamento do pessoal responsável pela manutenção das colmeias
nas condições ideais para a polinização da cultura e na aplicação do
manejo necessário;
O preparo de colmeias para polinização nem
sempre coincide com aquele usado quando a finalidade principal é produção
de mel. È preciso que o pessoal de campo seja capacitado a preparar
e manter cada colmeia no estágio de desenvolvimento e populacional mais
adequado para polinizar aquela cultura em particular.
7 - Treinamento do pessoal para coleta dos dados de polinização no campo
ou contratação de pessoal qualificado para tal;
Os resultados do manejo dos polinizadores tem
que ser acompanhados constantemente. Não se pode esperar o final da
safra para avaliar o resultado final. Dependendo da cultura, o pessoal
de campo deve coletar dados de percentagem de flores e sementes vingadas,
descartes naturais, etc., a intervalos variáveis para permitir o acompanhamento
da eficiência com que o trabalho está sendo desenvolvido.
8 - Interpretação dos dados e acompanhamento constante dos resultados
a medida que forem sendo obtidos;
Esse ítem depende do anterior e é de fundamental
importância. A análise dos dados coletados permite saber se a estratégia
de polinização traçada inicialmente está adequada para a realidade naquelas
circunstâncias ou se há necessidade de redirecionamento de manejo em
algum momento do ciclo de florescimento da cultura.
9 - Ajustes de procedimentos constantemente em função do ciclo e das
variações de atratividade relativa da cultura, do estágio das colméias
e dos resultados de polinização obtidos;
Além de alguma possível alteração no programa
de polinização em função do ítem anterior, tem-se que considerar que
as plantas e os polinizadores são seres vivos dinâmicos que mudam constantemente
suas necessidades e comportamentos. Nesse ítem procura-se identificar
essas mudanças e ajustar os procedimentos do programa de polinização
visando manter estáveis os níveis de polinização ideais.
10 - Estudo completo da viabilidade econômica do programa de polinização.
Finalmente, após considerar todos os fatores anteriores, deve-se fazer
uma análise completa da viabilidade econômica do programa de polinização
tanto para apresentar ao produtor o rendimento do seu capital investido,
quanto para controle financeiro do próprio apicultor, e também para
demonstrar a outros clientes potenciais as perspectivas do resultado
do seu trabalho.
A execução e condução de cada uma das etapas acima certamente exige
conhecimentos técnicos daqueles interessados em vender serviços de polinização
e a capacitação a respeito de fisiologia e biologia floral de plantas,
além de noções de etologia (comportamento animal) e manejo é fundamental
para o sucesso da atividade.
Conclusão
O agricultor que contrata os serviços de polinização normalmente
não está interessado se as abelhas produzem mel ou não, ou se para o
apicultor é mais cômodo ter todas as colmeias próximas umas das outras,
mas sim que polinizem sua cultura eficientemente. Ele também pode não
enteder muito de polinização e não saber explicar porque a sua produtividade
não aumentou como planejado, mas o certo é que caso não fique satisfeito
com o serviço, dificilmente o procurará de novo em anos subsequentes
nem o divulgará em seu meio.
O apicultor por sua vez, argumenta que preocupa-se principalmente com
a produção de mel, porque os agricultores geralmente não pagam nada
a mais pelos serviços de polinização além de que permitir que o apicultor
coloque suas colmeias nos pomares e plantios. Também dificultam a distribuição
das colmeias pelas áreas porque alegam que isso atrapalha as atividades
normais da propriedade, pulverizam inseticidas sem consideração com
as abelhas e muitos ainda querem participação no mel coletado. Tudo
isso é verdade. Porém, isso ocorre porque tanto nossos agricultores
quanto nossos apicultores, ainda não estão encarando os serviços de
polinização com a devida seriedade. Somente quando os apicultores tiverem
consciência sobre o serviço que se prestam a oferecer, conhecimentos
para garantir bons resultados, e evitarem submeter-se a situações vexatórias
de brigarem entre si para colocarem suas abelhas em áreas onde o proprietário
quer apenas tirar proveito do seu desespero, os bons resultados sem
dúvida farão os produtores mudarem de idéia a respeito dos serviços
de polinização. Quem não pagará um preço justo se tiver a certeza de
aumento de produtividade e melhoria de qualidade dos seus produtos?
Isso já ocorre em muitos países e não há razão para pensar que não possa
acontecer aqui também, caso façamos a coisa da maneira correta.
Na verdade, o uso de insetos polinizadores em culturas agrícolas é só
uma questão de tempo para tornar-se uma realidade do sistema de produção
agrícola no Brasil. O que devemos tentar evitar, é que ele seja conduzido
por pessoas despreparadas, cujas atividades produzam resultados fracos,
e portanto releguem os serviços de polinização a uma situação marginal,
desvalorizada técnica e economicamente.
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