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mastite é uma das mais complexas e dispendiosas doenças da indústria
leiteira, devido a sua alta prevalência e os prejuízos que acarreta.
Seu efeito é notado principalmente pela redução na produção e alterações
na composição do leite. Ao mesmo tempo, significa ainda um risco potencial
à saúde pública, já que promove a eliminação de patógenos causadores
de zoonoses e toxinas produzidas pelos microorganismos do leite.
Este quadro traduz sua gravidade quando se observa que a doença pode
promover perdas de valores que chegam até a 70% na produção; 8% com
o descarte do leite; 8% com medicamentos e assistência veterinária;
14% com mortes e descarte do animal, o que significa também perda de
material genético.
As estatísticas que envolvem a mastite apontam ainda que a redução na
produção total é representada principalmente pela mastite subclínica,
chegando ao nível de 82%. Por outro lado, a mastite clínica representa
18% do prejuízo total, por causar a morte ou descarte prematuro. Indicam
ainda que a redução na produção leiteira por quarto acometido por mastite
subclínica é de 6 a 46% por vaca afetada.
Considerando-se que nos Estados Unidos a prevalência estimada é de que
40% das vacas apresentam pelo menos um quarto com mastite subclínica,
projeta-se uma perda de US$ 200 correspondente ao prejuízo por vaca
anualmente, quando não se aplicam medidas de prevenção e controle da
doença.
Nas fazendas de leite norte-americanas calcula-se que as perdas em produção
sejam da ordem de US$ 2 milhões, não estando incluídas nesta cifra as
perdas adicionais decorrentes das alterações na qualidade e composição
do leite, que afetam diretamente a indústria de laticínios. No Brasil,
estudos recentes envolvendo propriedades dos estados de São Paulo e
Minas Gerais avaliaram que o nível de mastite clínica e subclínica é
da ordem de 17,45% e 71,56%, respectivamente.
Tais índices foram obtidos com vacas que apresentavam pelo menos um
quarto com mastite. Embora não existam estimativas comparativas oficiais,
pode-se inferir que o prejuízo brasileiro devido à mastite seja ainda
maior que o alcançado nos EUA e na Comunidade Européia, onde a cifra
deve ultrapassar US$ 2,200 milhões.
Em virtude da relevância do problema, os prejuízos econômicos devido
à mastite têm sido estudado por vários autores em todo o mundo. E as
perdas têm sido calculadas atualmente como sendo de US$ 200 por vaca/ano,
variando entre US$ 35 e 295. Estimativas anteriores realizadas no período
de 1977 a 1979 oscilaram entre US$ 199 e 215 e US$ 90 a 250 vaca/ano,
de acordo com diferentes trabalhos, projetando um gasto só com antibiótico
de US$ 2,16 vaca/ano.
No Brasil, pesquisas realizadas no ano passado pela Faculdade de Medicina
Veterinária e Zootecnia-USP em propriedades leiteiras paulistas e mineiras
concluíram que os gastos com a prevenção está na faixa de R$ 24,55 vaca/ano,
enquanto as perdas devido à mastite subclínica foi de US$ 329,34. O
custo total de prevenção de mastite, por produtor em média, foi estimado
em US$ 1.611,79. Para os casos de mastite subclínica, os gastos são
da ordem de US$ 21.619,93 por propriedade/ano.
Neste estudo foi analisada uma amostragem casual estratificada constituída
por 34 propriedades leiteiras, para estimar os componentes de custo
de mastite por vaca. Nos componentes dos custos de prevenção foram incluídas
as diversas categorias de produtos e procedimentos preventivos diretamente
direcionados para mastite, não incluindo-se gastos com vacinação preventiva
de outras doenças infecciosas.
Nos componentes de perda, a categoria correspondente à perda de leite
foi estimada com base na redução da produção pelo número e escore de
quartos com CMT positivo. Os custos anuais e diários foram calculados
por vaca e por propriedade. A população de vacas monitoradas foi de
2.232 animais.
A
mastite promove uma grande e invisível perda na produção
A maioria dos produtores estudados adotava algumas das práticas usualmente
recomendadas para controle de mastite, mas só 26% adotavam todas as
recomendadas - isto é, realizar o teste da caneca preta com os primeiros
jatos de leite a cada ordenha; anti-sepsia pré-ordenha; secar tetos
com toalhas descartáveis; antisepsia pós-ordenha; alimentar os animais
logo após a ordenha e tratatamento de vaca seca.
Destes, 50% não lavavam tetos ou usavam anti-sepsia pré-ordenha; 29,4%
não secavam com toalhas descartáveis; 28,6% não faziam anti-sepsia pós-ordenha;
41% não adotavam tratamento dos animais na secagem, na interrupção da
lactação.
A principal perda devido à mastite subclínica é a redução de produção
leiteira. Geralmente corresponde a 75% do prejuízo total, mas esta perda
permanece invisível ao produtor, passando na maioria das vezes desapercebida,
enquanto que os custos com as medidas de controle são altamente visíveis.
Na prática, há uma falta de motivação para a manutenção de um programa
efetivo de controle de mastite na propriedade.
Esta situação não é peculiar do Brasil, já que tem sido observada em
vários países e só se altera quando do estabalecimento de programas
de qualidade, quando então os proprietários passam a associar aumento
de células somáticas com perdas monetárias ou penalidades. Assim, passam
a entender que o único fator que aumenta o número de células somáticas
no leite é a inflamação da glândula mamária, e que para reduzí-lo é
necessário controlar a mastite subclínica no rebanho.
Embora a inflamação da glândula mamária seja decorrente de várias causas,
geralmente é apontada como resultado da introdução e multiplicação de
microorganismos patogênicos, que determinam uma série de eventos que
levam a uma redução da capacidade de síntese das células alveolares
produtoras de leite e mudanças na composição do leite.
Nota-se com isso alteração na qualidade do produto, demonstrada pela
elevação no número de células somáticas, predominantemente leucócitos,
os chamados glóbulos brancos. Na Comunidade Européia o limite praticado
é de 400 mil células/ml leite e a meta é de até 250 mil. Em 1995, vários
países já haviam atingido esta meta.
No Brasil, alguns levatamentos mostraram médias regionais bem mais altas,
acima de 600 mil células/ml leite. Com este nível, deve-se considerar
a necessidade de implantação de programas de qualidade de leite no país,
mas com a cautela de se procurar conhecer preliminarmente, através de
um efetivo diagnóstico de situação, os limites factíveis para a realidade
aplicada.
Somente adotando-se uma estratégia a médio e longo prazos, sustentada
por uma base sólida de conhecimento e pesquisa, poderá se viabilizar
o projeto de qualidade e autosuficiência em leite no país. Entretanto,
é importante ressaltar que para isso não basta apenas produzir mais
leite, mas, sim, produzir com mais qualidade e a preços competitivos.
Mastite
em 10 conceitos
1. Mastite é a mais importante doença da vaca leiteira
adulta.
2. Estima-se que 17 a 20% da população mundial de
vacas leiteiras tenha mastite em pelo menos um quarto.
3. Trata-se da doença que causa aos maiores prejuízos
à produção de leite no mundo.
4. O prejuízo acarretado pela mastite constitui cerca
de 25% do valor gerado por todas as outras doenças de importância econômica.
5. Estimativas feitas em vários países calculam que
as perdas por mastite sejam da ordem de 10 a 15% da produção total.
6. A mastite causa sérias alterações na composição
do leite. Diminui gordura, lactose, caseína, cálcio, fósforo e aumenta
o número de células somáticas, comprometendo a qualidade da matéria-prima.
7. Rebanhos leiteiros com aumento da celularidade,
que apresentem vacas com CBT escore 3, podem perder cerca de 20% da
produção potencial, sendo que quartos individuais podem perder até 50%.
8. Vacas com mastite têm sua vida útil reduzida por
descarte prematuro, por desvalorização por perda funcional de quarto
ou mesmo morte do animal, resultando em perda de potencial genético
e gastos com animais de reposição.
9. A doença pode comprometer a saúde pública, pela
veiculação de microorganismos patogênicos ao consumidor.
10. A nível social, a mastite é preocupante por agravar
problemas sociais como desnutrição, mortalidade infantil e fome.
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Professora da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade
de São Paulo
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