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Manejo de pastagens para produção de leite a pasto

O manejo é um dos fatores mais importantes para garantir eficiência das pastagens tropicais na alimentação de vacas em lactação. O nível de acerto em sua aplicação é o que determina se uma mesma espécie de elevado potencial forrageiro produza volumes que variem entre 900 e 22 mil kg/ha/ano, como ocorre em nosso país. Explicações para isso apontam a inadequada localização de áreas de pastejo em terrenos declivosos até a falta de observância do produtor nos períodos de seca, o que acaba determinando a estacionalidade da produção ao longo do ano.
 
Tais razões, acrescidas do limitado potencial da maioria das espécies plantadas por aqui, fazem com que a produtividade leiteira brasileira seja baixa, inferior até mesmo a de outros países tropicais. Trata-se de uma condição que tornar a exploração a pasto muito vulnerável e dependente de outras fontes menos econômicas de alimentos, como silagens e concentrados. Com isso, os custos de produção se tornam elevados, intensificando a competitividade dentro do segmento de produção de matéria-prima e também no âmbito do Mercosul, já que países vizinhos como Argentina e Uruguai se mostram muito mais ajustados na produção leiteira tendo o pasto como base de exploração.
 
Na prática, observa-se que as pastagens constituem-se em importantes fontes de nutrientes para vacas leiteiras, especialmente nos trópicos, onde extensas áreas ainda estão disponíveis para a produção animal. A escolha da forrageira certa e o ajuste no seu manejo requer conhecimentos prévios sobre os níveis de produção por animal e por área, além de considerar os fatores limitantes da produção, principalmente nas épocas em que as condições climáticas são adversas para o crescimento da planta. Diante disso, na Embrapa-Gado de Leite foram conduzidos alguns trabalhos que tiveram como objetivo avaliar os efeitos do manejo em algumas forrageiras sobre a produção de leite a pasto.
 
O primeiro experimento abrangeu duas épocas de chuvas e/ou de temperatura mais elevada (1988/89 e 1989/90), comparando a produção de leite de vacas mestiças (HZ) mantidas em pastagens de capim-setária, manejadas sob pastejo contínuo e submetidas a duas disponibilidades de forragem. O pasto constituiu a única dieta de animais que começaram a ser acompanhados no experimento em início da lactação. Na disponibilidade de forragem mais elevada (2.500 a 2.800 kg/ha de matéria seca), a média de produção de leite foi de 10,4 kg/vaca/dia, enquanto na pastagem com menor disponibilidade de forragem (1.500 a 1.800 kg/ha de matéria seca) foi de 9,8 kg/vaca/dia.
 
Essa pequena diferença na produção de leite se deu devido à maior seletividade da dieta promovida pelos animais que permaneceram na pastagem com maior quantidade de forragem disponível. O número de animais na pastagem, necessário para manter as disponibilidades de forragem em avaliação, foi de 2,7 e 3,1 vacas/ha, resultando em produções de leite próximas de 28 e 31,5 kg/ha/dia, respectivamente nas condições de maior e menor disponibilidade de forragem. Ao final das avaliações, a pastagem de setária, manejada com menor disponibilidade de forragem, apresentou-se muito infestada por plantas invasoras. Este exemplo indica que, em sistema de pastejo contínuo, a maior disponibilidade de forragem proporciona maior produção de leite por vaca, devido à seleção de forragem feita pelos animais, sem comprometer a persistência do pasto.
 
Em outro experimento, foram avaliados, sob pastejo contínuo, os efeitos de duas disponibilidades de forragem (matéria seca) em pastagem de capim-angola sobre a produção de leite de vacas mestiças. À semelhança do que ocorreu na pastagem de capim-setária, a menor disponibilidade de forragem na pastagem de capim-angola proporcionou grande infestação da pastagem por plantas invasoras, enquanto a maior quantidade de forragem disponível para os animais fez reduzir a capacidade de suporte na pastagem. Em um sistema de pastejo contínuo, desaconselha-se manter excesso de forragem, utilizando-se de poucos animais (subpastejo), pois isso pode reduzir a capacidade de suporte da pastagem, com possíveis prejuízos para a produção de leite por área.
 
Por outro lado, disponibilidade de forragem muito baixa, causada pelo pastejo de muitos animais (super pastejo) aumentará a presença de plantas invasoras na pastagem, que, com o passar do tempo, irá substituir as forrageiras, comprometendo, assim, a persistência do pasto. Portanto, recomenda-se manter na pastagem a quantidade de forragem intermediária, evitando-se as disponibilidades extremas (super e subpastejos). Essas condições servem também para o pastejo rotativo, no qual não se deve demorar tanto em colocar os animais no piquete, evitando-se a quantidade de forragem excessiva, como também na retirada dos animais do piquete, impedindo a baixa disponibilidade de forragem. A condição de superpastejo é muito comum no país, sendo a principal razão da intensa degradação das pastagens tropicais.

ANÁLISE E ADUBAÇÃO DEFINEM EFICIÊNCIA EM PASTAGENS TROPICAIS
 
A adubação é outro fator do manejo que interfere na eficiência das pastagens tropicais na alimentação animal. Pastagens localizadas em solos férteis são mais produtivas e sua forragem é de melhor qualidade quando comparadas com as pastagens localizadas em solos de baixa fertilidade. No Brasil, predominam os solos de baixa fertilidade, especialmente com deficiência em fósforo, nitrogênio e potássio, que são essenciais para a persistência e o crescimento das forrageiras. Portanto, a adubação é de muita importância para melhorar a eficiência das pastagens tropicais. Recomenda-se realizar, anualmente, análises do solo onde estão localizadas as pastagens e, quando essas análises indicarem a necessidade de adubações, essas deverão ser realizadas.
 
Na Embrapa Gado de Leite, avaliaram, durante o período de 12/06/85 a 28/05/87, os efeitos da adubação na pastagem de capim-angola sobre a produção de leite de vacas mestiças. Neste trabalho, foi comparada a ausência de adubação com aplicações de 125, 75 e 80 kg/ha de N, P2O5 e K2O, respectivamente. O pasto foi a única dieta dos animais. Os resultados indicaram que a adubação permitiu usar essa forrageira com menor disponibilidade de forragem, sem comprometer a sua persistência. Além disso, a adubação realizada elevou a capacidade de suporte da pastagem de capim-angola e promoveu melhor qualidade na forragem, resultando em produções de leite mais elevadas (8,3 e 9,2 kg/vaca/dia), na época da seca e das chuvas, respectivamente.
 
Na ausência de adubação, além da capacidade de suporte da pastagem ter sido menor, o capim-angola foi intensamente infestado por plantas invasoras, com reflexo negativo na produção de leite, que foram de 6,1 e 7,2 kg/ vaca/dia, na seca e nas chuvas, respectivamente. É preciso levar em consideração, que, para se ter resposta positiva da adubação em pastagens tropicais, é necessário que essa seja realizada em condições favoráveis para o crescimento da forrageira, ou seja, quando houver luminosidade e temperatura adequadas e umidade no solo.
 
A umidade no solo é essencial para o crescimento da planta. Assim, em regiões onde há épocas de seca e de chuvas bem definidas, como no Sudeste, existe a estacionalidade na produção de leite. Na época da seca, as pastagens apresentam baixa produção e baixa qualidade de forragem, tornando os produtores dependentes de outras fontes de volumosos, como silagens e fenos. Como em muitas propriedades não há condições de adotar essa prática, por ser de custo elevado ou inadequada para o sistema de produção, a nutrição dos animais fica comprometida, resultando em baixa produção de leite. Essa situação se agrava na fase final da estação seca (início do mês de setembro) ou com o prolongamento dessa estação, quando, na maioria dos casos, as reservas de alimento para o gado da propriedade já acabaram.
 
A irrigação em pastagens muitas vezes resulta em aumento da produção de leite. Em regiões onde a temperatura ambiente permanece mais elevada e a luminosidade mais intensa ao longo de todo o ano, como ocorre nas regiões Norte e Nordeste, é certa a resposta positiva da irrigação no crescimento das forrageiras e conseqüentemente na produção de leite a pasto. Por outro lado, em regiões muito frias, essa resposta da irrigação pode não existir ou ser reduzida, portanto, não sendo recomendável. Por outro lado, nessas regiões muitas vezes a irrigação estratégica pode ser alternativa viável.
 
Essa estratégia consiste em realizar a irrigação a partir do momento em que a temperatura e a luminosidade começam a aumentar. Nesse momento, como ainda não há chuvas, a irrigação e a fertilização antecipam o crescimento das forrageiras, reduzindo o período crítico da escassez de alimento na propriedade. Portanto, na Região Sudeste, a irrigação estratégica pode reduzir o período de pouco crescimento das forrageiras para cerca de 2 a 3 meses, o que é de muita importância nos sistemas de produção de leite a pasto.

IRRIGAÇÃO: PLANTAS APRESENTAM DIFERENTES NÍVEIS DE RESPOSTA
 
Antes de se decidir pela irrigação, o produtor necessita ter conhecimentos prévios do pasto a ser irrigado, pois existem forrageiras que não respondem à irrigação, uma vez que são sensíveis a outros fatores limitantes ao crescimento da planta, que muitas vezes predominam durante o período de escassez de chuvas. Por exemplo, na Embrapa Gado de Leite, Brachiaria ruziziensis e Chloris gayana cultivar Calide, mesmo sendo irrigadas, produziram durante a época da seca apenas 8,6 e 10,8% de suas produções anuais de matéria seca, enquanto a Setaria sphacelata, cultivares Nandi, Kazungula e Narok e o Panicum maximum cultivar Makueni alcançaram na mesma época 42,5; 32,3; 35,2 e 32,3% de suas produções totais, respectivamente.
 
A irrigação pode ser feita por aspersão, que é muito eficiente, porém de custo mais elevado, devido ao preço do conjunto de irrigação e da energia elétrica. No entanto, a existência desse conjunto de irrigação em um sistema de produção de leite pode ser útil em outros setores da produção, como por exemplo na irrigação de uma lavoura de milho na ocorrência de um veranico. Atualmente, são usados em propriedades produtoras de leite sistemas de irrigação à base de PVC, fixado permanentemente sob o solo, a uma profundidade que não compromete a mecanização da área. Esse sistema demanda pouca mão-de-obra e pode funcionar à noite, quando o custo da energia elétrica é menor.
 
Considerando uma área de pastagem sistematizada e que a fonte de água esteja em nível mais alto que a pastagem, a irrigação pode ser feita por gravidade. Essa forma de irrigação é de custo baixo, mas deve-se tomar o cuidado para evitar empoçamentos de água, pois isso é prejudicial ao desenvolvimento da forrageira. Na Embrapa Gado de Leite, verificou-se o efeito de irrigação por aspersão em pastagem de setária sobre a produção de leite de vacas mestiças, que, além das pastagens de setária (irrigada e não irrigada), também tiveram acesso à pastagem de azevém anual por duas a três horas diárias. No período de meados de junho a meados de agosto, não se observou efeito da irrigação sobre o crescimento da setária.
 
Porém, a partir desse período, com o aumento da temperatura e da luminosidade, a irrigação antecipou a rebrota dessa forrageira, promovendo rápido crescimento do pasto com aumento na capacidade de suporte da pastagem e conseqüentemente da produção de leite. Na ausência da irrigação, a rebrota do capim-setária ocorreu somente com o início das chuvas (mês de outubro). A produção de leite das vacas mantidas na pastagem de setária irrigada foi de 12,2 kg/vaca/dia, enquanto as vacas mantidas na pastagem não irrigada produziram 10,8 kg/vaca/dia, com a capacidade de suporte sendo de 2,0 vacas/ha (sem irrigação) e 2,3 vacas/ha (com irrigação).
  
Alguns estudos realizados na Embrapa Gado de Leite são exemplos que mostram como a utilização racional das pastagens tropicais, adequando-se a fatores de manejo, como disponibilidade de forragem, adubação e irrigação, pode resultar em expressivas produções de leite a pasto. Os estudos foram conduzidos utilizando-se vacas da raça Holandesa com potencial para produzir de 6.000 a 7.000 kg de leite por lactação, mantidas em pastagens de "coast-cross", irrigada na época da seca, adubada ao longo de todo o ano e sob pastejo rotativo. A adubação anual consistiu da aplicação de 350 kg/ha de nitrogênio, 280 kg/ha de K2O e 80 kg/ha de P2O5.
  
No pastejo rotativo, o período de ocupação do piquete foi de um dia, com o período de descanso variando de 24 a 32 dias, conforme a época do ano. A disponibilidade média de forragem (matéria seca) no piquete, observada por ocasião do início de cada pastejo foi de 6 t/ha, na época das chuvas, e 3,5 t/ha, na época da seca, enquanto a quantidade média de matéria seca deixada no piquete no momento de retirada dos animais foi de 3,0 t/ha, nas chuvas, e 1,5 t/ha, na seca. Nessas condições de manejo, o teor médio de proteína bruta da forragem disponível na pastagem de coast-cross foi próxima de 17%, com a pastagem sendo pouco infestada por plantas invasoras. Esses sistemas de produção de leite a pasto foram comparados com o sistema de produção de leite com vacas em confinamento, recebendo silagem de milho a vontade e em média 8 kg/dia de concentrado.
  
As médias de produções de leite obtidas foram ao redor de 16,5 e 20 kg/vaca/dia, respectivamente para as vacas a pasto, recebendo diariamente 3 e 6 kg de concentrado, e 20,5 kg/vaca/dia na condição de vacas em confinamento. Portanto, as vacas a pasto recebendo 6 kg/dia de concentrado produziram quantidades de leite semelhantes à das vacas em confinamento. Contudo, deve-se ressaltar que o custo da alimentação de uma vaca a pasto foi inferior e a margem bruta superior à de uma vaca em confinamento. Esses resultados indicam que pastagens tropicais bem manejadas constituem alternativas viáveis para produção de leite, mesmo quando se tratam de animais com potencial de produção mais elevado que as vacas mestiças.

INTEGRANDO AZEVÉM E SETÁRIA
  
As forrageiras de inverno produzem forragem de qualidade superior à das forrageiras tropicais. Por essa razão, as pastagens de inverno são indicadas para alimentar vacas em lactação. No Brasil, principalmente na Região Sul, entre as forrageiras de inverno, a aveia e o azevém anual são espécies muito usadas na alimentação de vacas em lactação. Sob pastejo, podem constituir dieta exclusiva dos animais ou podem ser usadas como banco de proteína, neste caso para suplementar vacas em pastagens tropicais. O tempo de acesso dos animais às pastagens de inverno vai depender do potencial de produção de leite das vacas ou do planejamento do produtor, qual seja: o pasto de inverno será usado para substituir total ou parcialmente o fornecimento de concentrado para os animais?
  
Na Embrapa Gado de Leite, foi verificado o efeito da integração entre pastagens de azevém anual e pastagens de capim-setária sobre a produção de leite de vacas mestiças. Diariamente, um grupo de vacas tiveram acesso por duas a três horas à pastagem de azevém, com o restante do tempo permanecendo na pastagem de setária. Outro grupo foi mantido em condições exclusivas de pastagem de setária. O pastejo foi contínuo, as pastagens foram irrigadas e os animais não receberam concentrado. A produção média diária de leite das vacas que tiveram acesso à pastagem de azevém anual foi de 12,2 kg/vaca, enquanto a das vacas que permaneceram somente em pastagem de setária foi de 8,7 kg/vaca.
  
Portanto, o pastejo no azevém por duas a três horas diárias fez aumentar a produção de leite em 3,5 kg/vaca/dia, sem perda de peso para os animais. Como nessa condição de pastejo em setária e azevém a capacidade de suporte da pastagem de setária-azevém anual correspondeu a 2,3 vacas, o aumento diário na produção de leite foi de 8,05 kg/ha. Para vacas com potencial de produção de leite mais elevado, é necessário que o tempo de acesso à pastagem de forrageira de inverno seja maior. Na Embrapa Gado de Leite foi registrada a produção de 17 kg de leite de vacas de potencial de produção mais elevado em regime único de pastagem de aveia. Assim, a integração entre pastagens de forrageiras de inverno e de forrageiras tropicais, quando bem manejadas, constitui opção recomendável para garantir expressiva produção de leite a pasto, com redução no fornecimento de concentrado para os animais.

Mais informações poderão ser obtidas com os próprios autores, R Eugênio do Nascimento, 610, Juiz de Fora-MG, CEP 36038-330, E-mail: alvim@cnpgl.embrapa.br

FONTE:
Revista Balde Branco – Número 420 – Outubro/1999
R Gomes Cardim, 532 – CEP 03050-900 – São Paulo-SP
Tel: (11) 3315-6294 / 3115-6292 - Fax: 3315-7230
E-mail: baldebranco@baldebranco.com.br
Assinaturas: 3315-6285

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