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Vacinas e aditivos ajudam a prevenir doenças

Cada vez mais os produtores brasileiros fecham o cerco para reduzir os custos com a atividade leiteira e melhorar a produtividade. Com isso, a sanidade do rebanho assume um papel de fundamental importância em qualquer que seja o sistema de exploração. Evitar doenças pode começar por um programa criterioso de vacinação em cada etapa do desenvolvimento ou, através do uso de aditivos na dieta do rebanho, buscando-se equilíbrio e melhor eficiência dos animais dentro da produção leiteira. Preocupações nesse sentido têm, hoje, nos EUA, o nome da biossegurança, um processo composto de três etapas: prevenção contra novas doenças; redução da exposição do rebanho às enfermidades e aumento do nível de resistência do rebanho.
  
O médico veterinário Richard Wallace, da Universidade de Illinois, entende que a maior resistência do gado leiteiro pode ser alcançada através da utilização de várias linhas de ação, como: redução do estresse nutricional, com o fornecimento de dietas específicas para cada fase; fornecimento de forragens de alta qualidade; um bom manejo dos cochos, recolocando o alimento várias vezes ao dia. "O fornecimento da dieta exige cuidados, caso contrario iremos deparar com biotoxinas e outros problemas", diz. Ele destaca também a necessidade de se balancear a ração, especialmente quanto às fibras, pois deste modo pode-se reduzir a fase ruminal, que leva a uma depressão imunológica.
 
Este balanceamento exige também o equilíbrio de vitamina E e selênio, nutrientes indispensáveis para se preservar a saúde animal. No Brasil, há necessidade também de atenção para o estresse ambiental e térmico. Devido às características climáticas do país, os animais precisam de coberturas e sombras, que podem ser obtidas através de coberturas naturais ou artificiais. Abaixo delas, deve-se ter uma área sempre limpa, o mesmo rigor dispensado aos estábulos, ou seja, ambiente seco e confortável, com um bom controle dos dejetos. "Observando esses fatores, o sistema imunológico dos animais terá todas as condições para funcionar adequadamente", garante Wallace.
 
O primeiro passo para o desenvolvimento de um programa de vacinação estratégica que seja eficaz nesse sentido começa pela utilização de um médico veterinário especializado na área de saúde bovina, pois o esquema tem de ser elaborados de acordo com a prevenção de rotina e das doenças mais comuns na região onde esteja localizada a fazenda. Em muitas fazendas, adota-se o sistema de vacinação anual, mas nas propriedades acompanhadas nos Estados Unidos busca-se voltar o foco para os momentos em que os eventos reprodutivos acontecem, já que é nesta hora que as vacas são mais intensamente manejadas.
 
É preciso ter certeza de que as vacinas estão sendo utilizadas adequadamente, que estão sendo conservadas sob refrigeração. Igualmente importante é seguir as instruções de bula. Em dois tipos classificam-se as vacinas destinadas ao rebanho: mortas e vivas. A vacina morta tem desvantagens em relação às vivas, na opinião de Wallace. A principal delas é que as vacinas mortas necessitam de consecutivas aplicações de reforço, já que uma única dose não consegue estabelecer uma população significativa de células imunes. Ele explica que a aplicação se dá como se o animal estivesse sido exposto ao antígeno, vírus ou bactéria. "Num primeiro momento há o desenvolvimento dos níveis de higiene em um determinado período de tempo; depois decresce", explica.
 
Somente após múltiplas exposições é que o organismo do animal vai produzir as chamadas "células de memória". E são essas células que permitem que a doença seja imediatamente reconhecida no caso de o animal ficar exposto ao seu contágio. Este tipo de resposta é conseguido de forma mais rápida através da utilização de vacinas vivas modificadas. Essa massa antígena não produz a doença. Wallace conta que o vírus vivo modificado pode ficar dentro do organismo do animal, chegando em uma fase crítica desencadear a resposta imune. E se houve produção de anticorpos, não há necessidade de doses de reforço. As vacinas vivas fornecem proteção por um tempo superior, de três anos até toda uma vida.
 
Mas existem casos onde elas podem falhar. A aplicação de apenas uma dose de qualquer vacina não garante a imunização. Se o rebanho tiver sido muito exposto ao estresse térmico ou nutricional, também pode não haver resposta. "Mas é certo que só os programas de vacinação é que garantem o sucesso na produção" sintetiza o professor norte-americano. Em seu país, como aqui, existe um grande número de programas voltado, para o gado leiteiro. Entre eles, destaca-se o programa de vacinação de bezerros, o de vacinação de vacas secas, o de vacas logo após o parto. Ele afirma que um bom programa de vacinação deve ser específico para cada rebanho, aproveitando o período de eventos reprodutivos.

A VACINAÇÃO DEVE SER ESPECIAL E ACONTECER DURANTE A TRANSIÇÃO
 
Tal período é o ponto chave dentro do rebanho também do ponto de vista nutricional. Uma melhor dieta reduz o estresse nutricional e ajuda a preparar o potencial do animal para a próxima lactação. E é neste período que a vaca esta mais suscetível a problemas metabólicos. Ric R. Grummer, professor da Universidade de Wisconsin, entende que o período de lactação é o mais difícil para o animal, observando que a utilização de aditivos pode ajudá-lo a enfrentar esse momento. "O uso de determinados aditivos promove o controle de problemas metabólicos, aumenta o consumo de matéria seca, modifica o padrão de fermentação do rumem, melhora a digestão da fibra, além de promover maior produção de leite.
 
É também através da adição de nutrientes específicos que pode-se promover uma maior eficiência da dieta, reduzindo a predisposição dos animais a doenças metabólicas. "Além de melhorar o sistema imunológico, previne algumas doenças, principalmente mastite", garante Grummer. As sustâncias que estão sendo exploradas de forma intensiva pelo laboratório que dirige nos EUA são o propilene glicol, propionato, niacina, aminoácidos protegidos, colina protegida e ionofólios, que potencialmente podem ajudar no controle da incidência de cetose ou acetonemia e fígado gorduroso.
 
Resultados de pesquisas realizadas pela Universidade de Iowa tem mostrado que o fígado gorduroso acontece antes da cetose. Baseado nisso, tem sido pesquisada a possibilidade da utilização de propilene glicol para evitar o aparecimento de tal distúrbio. Ele explica que o propilene glicol é um precursor da glicose e, no fígado, a substância é transformada em glicose, que por sua vez estimula a liberação de insulina pelo pâncreas. Esse aumento no nível de insulina no sangue causará uma redução na mobilização de ácidos graxos nas reservas corporais. Uma outra alteração metabólica constatada logo após o parto indica que o fígado perde rapidamente a sua reserva de glicogênio. "Um efeito do aumento de insulina no sangue é a redução dessa perda", conta.
 
Os trabalhos da Universidade de Iowa tem mostrado que conseguindo reduzir a mobilização de ácidos graxos das reservas corporais e aumentando a reserva de glicogênio hepático, o animal será menos suscetível ao aparecimento de cetose. O primeiro experimento realizado com o fornecimento de um litro de propilene glicol por dia, via oral e em dose única, durante nove dias do pré-parto, indicou uma redução dos níveis de triglicérides no sangue durante o início da lactação e um decréscimo na concentração de corpos cetônicos. Já que a quantidade usada nessa pesquisa é bem superior a normalmente usada no controle da cetonemia, Grummer fez uma pesquisa subsequente testando 300, 600 e 900 ml por dia. Os resultados obtidos com as diferentes dosagens foram semelhantes em termos de respostas pelo metabolismo do animal.
 
Devido à dificuldade que a forma líquida oferece para ser ministrada, foi testada também uma maneira de oferecer o aditivo aos animais na forma sólida de dois modos; 3kg na ração completa e adicionado a grãos. Neste último, o efeito se deu de forma similar à administração oral, enquanto na ração completa o resultado não foi satisfatório. Ele diz que o modo de determinar o tempo que o propilene glicol deve ser oferecido aos animais pode ser obtido medindo-se o nível de ácidos graxos não esterificados no sangue, que é quando ocorre a sua elevação. Geralmente isso acontece poucos dias antes do parto, em torno de cinco dias antes. E a sua redução costuma ser igualmente rápida no posparto, de modo que a utilização desse aditivo acontece por um breve espaço de tempo.
 
A recomendação de propilene glicol não deve ser feita de forma indiscriminada dentro do rebanho, sendo mais apropriado para situações em que se verifica a ocorrência de vacas muito gordas, que apresentam falta de apetite, ou ainda, em rebanhos em que o histórico de fígado gorduroso seja alto. A recomendação é de 300 a 500 ml/dia ou adicionado a grãos pelo período de sete dias, segundo Grummer. Um produto que funciona de forma similar ao propilene glicol é o propionato de sódio ou de cálcio. Apesar de pouca pesquisa a respeito de seu uso, sabe-se que ele também é um precursor da glicose. O estudo existente e que suporta este conceito data de 1958. Nele, foi trabalhado o fornecimento de 113 g/ dia durante as seis primeiras semanas de lactação do animal, com uma resposta de aumento do nível de glicose no sangue e conseqüente redução dos corpos cetônicos.
 
"A eficácia desse produto é questionada, mas baixo número de estudos a respeito impossibilita a sua recomendação", considera Grummer. Entretanto, sendo um produto na forma sólida, é mais fácil de ser administrado. Mas ele pode também influenciar na ingestão de matéria seca, já que é menos palatável. Com a, insuficiência de dados a respeito da utilização desses sais, Grummer não acha possível fazer recomendações, mas diz que os produtores que os estão utilizando ministram cerca de 112 g/dia.

SAIS ANIÔNICOS REDUZEM PH DO SANGUE E ESTIMULAM RESERVAS DE CÁLCIO
 
Um outro produto que está em uso há algum tempo nos Estados Unidos com o objetivo da prevenção da cetose é a niacina. O seu modo de ação se dá pela redução da mobilização da gordura corporal e conseqüente diminuição do fluxo de ácidos graxos para o fígado do animal. "Com um menor nível de triglicérides no sangue e menor nível de corpos cetônicos, o animal será mais sadio", afirma Grummer. Mas ao fazer uma revisão na literatura existente a respeito da utilização da adição da niacina na alimentação dos animais, ele pode verificar que, mesmo sendo esta uma substância de uso bastante difundido nos Estados Unidos, os experimentos até hoje realizados não oferecem suporte para sua recomendação para o tratamento de doenças metabólicas, melhorando o desempenho dos animais na lactação.
 
A lasalacida e a rumensina, substâncias que são utilizadas no Brasil há vários anos para a produção de leite, ainda não tem eficácia comprovada nos Estados Unidos. Os ionofólios na verdade são antibióticos que atuam no rumem do animal para diminuir as bactérias gram-negativas. Esse efeito sobre a fermentação ruminal diminui a produção de metano, aumentando a proporção de propionato, que vai ser o principal precursor para síntese de glicose no fígado. Um trabalho realizado pela Universidade de Bordeau, onde foi estudado o fornecimento de 300 ou 400 miligramas/dia de lasalacida durante 15 dias do pré-parto observou que no início da lactação houve um decréscimo nos corpos cetônicos no plasma, bem como do nível de ácidos graxos não estereficados.
 
Em um segundo estudo, no Canadá, foi fornecido 200 ou 400 miligramas/dia de rumensina até 21 dias após o parto. Nesse trabalho foi encontrado um decréscimo significativo dos corpos cetônicos no plasma. Foi utilizado rumensina em forma de cápsulas de liberação lenta e foi confirmada a redução de corpos cetônicos durante toda a fase experimental de nove semanas.
 
Mesmo achando necessário mais estudos a respeito da utilização dos ionofólios, Grummer admite os resultados positivos que já foram verificados, e acha que muito em breve esse produto estará sendo utilizado em seu país.
 
Sobre a ação de sais aniônicos, toda teoria por detrás de seu uso é que eles podem atuar na queda do pH do sangue, controlando seus níveis através de estimulo às reservas de cálcio nos ossos, promovendo a sua reabsorção. Além dessa resposta sobre a mobilização de cálcio das reservas ósseas existe também a possibilidade não comprovada de aumento na eficiência de absorção de cálcio pelas paredes intestinais. O efeito contrário, ou seja, o aumento do pH do sangue, pode ser conseguindo através da utilização de sais catiônicos, que de alguma forma diminui absorção ao sangue.
 
Grummer alerta para a grande variedade de equações existentes na literatura que sugerem o balanço catiônico da dieta. Embora o trabalho já tenha algum tempo, diz Grummer, o seu grande mérito é mostrar que o potássio e não cálcio é o maior responsável pelo desenvolvimento da febre vitular. E através dele pôde-se observar que à medida que o balanço torna-se negativo, não há ocorrência de casos de febre vitular, já para baixar pH da urina dos animais, a Universidade de Iowa observa que o elemento mais eficiente é o ácido clorídrico. Por esse motivo, já começam a aparecer no mercado produtos comerciais á base de cloro.
 
Grummer cita também os aditivos que alteram a digestão. Leveduras são um deles, as quais têm sido tratadas como estimuladoras das bactérias que digerem as fibras no rumem estabilizando o pH, além de promover uma melhor utilização do ácido láctico. O fornecimento de leveduras no pré e posparto diminuem a perda da condição corporal e aumenta a ingestão de matéria seca, além de melhorar o desempenho na produção de leite. Esse aditivo foi testado pela Universidade de Illinois e envolveu 39 vacas Jersey, das quais 14 eram de primeira lactação, e 25 vacas adultas. O estudo teve duração de 23 semanas, com início três semanas antes do parto e durou até 20 após o parto, com fornecimento de 56 gramas/dia.
 
Nos animais que receberam a suplementação, a ingestão de matéria seca foi 2 a 3 kg superior ao grupo de controle no pré-parto. No posparto, a ingestão foi de 12 para quase 14 kg/dia. A produção de leite aumentou 1,6 kg. Além disso, as vacas que receberam a suplementação de levedura tiveram uma menor perda corporal e maior teor de gordura e proteína do leite, sem, no entanto, ser significativa a alteração na composição. Concluindo. diz que com as dietas altas em silagem de milho, em que se procuram híbridos com alto teor de amido e baixo de fibra, os tampões são de grande importância. "Nessas situações, em que os componentes alcalinizam a dieta, o recomendável é usar de 100 a 250 g/dia de bicarbonato de sódio, mais 50 a 100 g/dia de óxido de magnésio", finaliza.

Os conceitos desse artigo fizeram parte do Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos Leiteiros.

FONTE:
Revista Balde Branco – Número 415 – Maio/1999

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