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Cana e uréia aceleram crescimento de novilhas com economia

Numa época em que a remuneração do leite se ajusta a partir de uma competição cada vez mais acirrada, o ato de alimentar vacas leiteiras de forma adequada e a um custo reduzido se configura como uma das poucas saídas para assegurar ganhos com a atividade. Nesse aspecto, a oferta da mistura de cana-de-açúcar e uréia, sobretudo durante a recria de novilhas durante a seca, vem sendo adotada por muitos produtores. A razão está no custo desse volumoso, que equivale a pelo menos um terço ao da silagem de milho, comumente utilizada como complemento alimentar no período.
  
A prova prática desta opção vem sendo feita por Paulo Botelho de Abreu Sampaio, produtor de leite B na centenária Fazenda São Joaquim, no município de São Carlos-SP. Há mais de 30 anos na atividade, a fazenda conta hoje com 67 vacas em lactação, que proporcionam cerca de 1.000 litros/dia, equivalentes a uma receita de R$ 12 mil a R$ 14 mil mensais, pagos pela Cooperativa de Laticínios de São Carlos e Rio Claro. "Todos as fêmeas são inseminadas com sêmen de touros Holandeses provados, o que promove no rebanho picos de produção de até 35 litros/vaca/dia e médias de 20 litros", assegura o produtor.
 
Hoje, o rebanho é composto de 200 fêmeas Holandesas 7/8 a puras. Além das 67 em lactação, conta com 80 novilhas mantidas em piquetes, 20 bezerras e, as demais, novilhas enxertadas e solteiras. Os animais são distribuídos em lotes, segundo a idade, e têm à disposição piquetes de braquiária e de capim elefante. No verão, com o pasto abundante, Botelho pratica uma rotação de pastagens sem muita racionalidade, mas complementa a dieta com concentrado à base de farelo de soja, de trigo, fubá de milho e minerais, adquirido pronto. No inverno, além do pasto, fornece silagem de milho, concentrado (o mesmo dado no verão), cevada e polpa de laranja.
 
Apesar de não saber precisar o custo de produção por litro de leite (ele argumenta que as despesas da fazenda são computadas como um todo), Botelho afirma que a receita obtida com a venda do produto não tem sido ainda suficiente para tornar o leite um bom negócio. O produtor atribui esse desempenho ao fato de a atividade não ser tocada pela própria família. "Apesar disso, o leite "pinga" todo o mês e paga as despesas da fazenda. Mas ainda tenho a pretensão de morar de graça", brinca. Para engordar a receita e diminuir custos, Paulo Botelho decidiu não mais entregar a terceiros a recria de suas novilhas na época da seca.
 
"Elas eram enviadas a criadores de gado de corte, que durante 4 a 5 meses as alimentavam com cana e cama de frango", relata. Passado o período, o produtor retomava seus animais e dava ao criador uma porcentagem em gado, como forma de pagamento. "A expectativa era que as novilhas ganhassem peso durante a seca, mas isso acabava não ocorrendo", acrescenta. Este ano, quando estava prestes a iniciar o confinamento das novilhas em piquetes, foi procurado por agrônomos da Cati e da Embrapa - Pecuária Sudeste, que o convidaram a participar do projeto que previa o fornecimento de cana com uréia às novilhas no período da seca, como forma de suplementar a alimentação dos animais numa época em que os pastos são escassos e possuem baixo valor nutritivo.
 
Os técnicos defendem a necessidade de se ofertar volumosos no período de estiagem, a fim de evitar a paralisação do crescimento dos animais, combater uma possível redução da produção de leite e das taxas de fertilidade, além de garantir maior imunidade a doenças. "Uma vez suplementadas durante a época da seca, as fêmeas jovens mantêm o ritmo de crescimento e de engorda, atingindo a idade da primeira parição mais cedo", atesta Botelho. Na verdade, o fornecimento de cana-de-açúcar como forragem para a alimentação de bovinos não é novidade. Contam a seu favor a facilidade do cultivo, a época da colheita coincidir com o período da seca e, sobretudo, o baixo custo de cultivo, se comparado a silagem de milho ou feno.

PARA AS NOVILHAS, DIETA PROMOVEU GANHO DE PESO DE 848 G/DIA -
 
De maio a setembro, as 50 novilhas da Fazenda São Joaquim foram divididas em dois grupos de 25 animais. Um deles, com novilhas mais magras (163,7 kg em média), recebeu diariamente apenas cana-de-açúcar e uréia como volumoso, além de 2,5 kg de concentrado com 18% de proteína bruta. Nos últimos 15 dias do experimento, o grupo teve acesso a pastagem. Ao final de 150 dias, o peso médio das novilhas havia pulado para 260,8 kg, o que significou um ganho de cerca de 698 g/dia por animal. O segundo grupo foi formado por animais de 257,5 kg de peso médio inicial e foi alimentado, nos 150 dias, com cana-de-açúcar e uréia, pastagem de braquiária e 1,5 kg/dia de concentrado.
 
Além disso, a partir de meados de setembro as novilhas receberam 650 g de polpa cítrica paletizada/dia. No final do período, o peso médio havia saltado para 375,4 kg, num ganho médio de 848 g/dia. Vale lembrar que o concentrado foi fornecido com o objetivo de acelerar o ritmo de ganho de peso dos animais, o que contribuiu para o resultado final. Botelho avalia que esse tipo de alimentação fez com que as novilhas atingissem mais cedo os 350 kg de peso necessários para a primeira cruza, o que possibilitará antecipá-la para os 24 meses, contra os 36 meses previstos anteriormente. "Metade delas já vai ser inseminada", garante. Ele espera também que, graças a esse tipo de dieta, os animais produzam mais na primeira lactação.
 
Nos 150 dias da experiência, os gastos médios com a alimentação por novilha (fora o pasto e a mão-de-obra), corresponderam à cerca de R$103,50 para animais na faixa de 250 a 300 kg de peso. Cada um deles recebeu, diariamente, 15 kg de cana misturadas com 150 g de uréia e 2,5 kg de concentrado. Para apurar essa despesa, tomou-se por base os valores de R$10,00 para a tonelada da cana, R$ 0,20 o kg de concentrado e R$0,25 o kg de uréia (misturada a sulfato de amônia). Para as novilhas com 300 a 350 kg de peso, o custo da alimentação correspondeu a R$115,50 por cabeça, levando-se em conta que elas consumiram mais cana (22 kg/dia), e mais uréia (220 g/dia), para a mesma quantidade de concentrado (2,5 kg/dia).
 
Armando de Andrade Rodrigues, agrônomo e pesquisador na área de Nutrição Animal da Embrapa, de São Carlos-SP, um dos responsáveis pelo projeto, garante que os ganhos de peso obtidos com a cana equivalem aos proporcionados pela silagem de milho, a um custo pelo menos três vezes menor. "Com a silagem de milho a quantidade necessária de concentrado cai para 2kg a 1,5 kg/dia para animais de 250 a 300 kg, mas a de volumoso se mantém na faixa dos 15 kg/dia - e é aí que reside a diferença de preço", afirma.
 
Animado com esses resultados, o produtor tenciona estender a dieta de cana e uréia também para as vacas em lactação. Para isso, está decidido a acabar com os 43 ha de milho que cultiva, para plantar uns 17 ha de cana, que se juntarão aos 2,42 ha que já possui. "O plantio da cana se dá apenas uma vez a cada quatro anos e a colheita coincide com a carência dos pastos", explica. "Gastando menos com a alimentação, poderemos aumentar o número de animais na propriedade. Conseqüentemente, a mão-de-obra vai pesar menos nos custos e ganha-se mais por área", avalia.
 
Outra novidade prevista para ser implantada a partir do próximo ano na Fazenda São Joaquim é o sistema Voisin de rodízio de pastagens, que prevê cercas elétricas e irrigação. De acordo com o sistema, as vacas permanecem apenas um a dois dias nos piquetes. "Todo esse esforço só vale se os animais forem de alta produção leiteira, ou seja, produzam acima de 20 a 30 litros/dia", esclarece Botelho. Os piquetes de um dia vão medir cerca de 2,42 ha. "Dessa forma, os animais podem comer só aquilo que lhes interessa e terão melhor aproveitamento", explica. No sistema atual, cada grupo de 50 vacas ocupa 12 a 13 ha de pastagens. O produtor ainda não levantou os custos do novo sistema, mas assegura que a implantação será gradativa, "pois em pecuária leiteira deve-se ter muito cuidado em relação a investimentos, uma vez que o retorno proporcionado pela atividade é limitado".

O PASSO A PASSO DO FORNECIMENTO

     Devido à baixa digestibilidade da cana-de-açúcar para animais muito jovens, os pesquisadores da Embrapa e da Cati recomendam ministrá-la a novilhas com idade a partir de cinco a seis meses e peso superior a 150 kg. "Com isso, pode-se reduzir a idade de parição de 40/44 meses para em torno de 30 meses, afirma o pesquisador da Embrapa. Segundo ele, para parir aos 2,3 anos uma novilha precisa ganhar 700 g/dia, em média, durante o ano. Com a dieta a base de cana e uréia ministrada durante cinco meses, a novilha pode ganhar cerca de uma arroba por mês.
     Apesar do alto valor energético e baixo custo de produção, a cana tem reduzido valor nutricional, o que determina a necessidade de se reforçar a dieta com uréia pecuária, uma fonte potencial de proteínas. Para o preparo desta mistura, os técnicos recomendam adicionar ainda pequenas quantidades de sulfato de amônia. "O enxofre disponível no sulfato é importante para que os microorganismos existentes no rúmen dos bovinos possam sintetizar a proteína a partir do nitrogênio contido na uréia", explica Armando. "Fornecer uréia pura resulta num menor aproveitamento da dieta, pois a síntese de proteínas é inferior aquela em que existe uma fonte de enxofre", acrescenta.
     A combinação uréia + sulfato é feita misturando-se bem, com uma pá, no chão limpo, com nove partes de uréia e uma parte de sulfato de amônia peneirado. Para um saco com 50 kg de uréia pecuária vão 5,5 kg de sulfato. "A mistura não precisa ser preparada diariamente e, por isso, deve ser guardada em local seco, longe dos animais", ressalta o agrônomo Joaquim Bordini do Amaral Neto, da Casa da Agricultura de São Carlos. Antes de ser adicionada à cana, que deve ser fresca e bem picada, a uréia com sulfato deve ser dissolvida em 3 a 4 litros de água, num regador plástico. De acordo com os técnicos, essa quantidade de água é suficiente para uma boa difusão da solução em 100 kg de cana.
     Os pesquisadores alertam que os animais necessitam de uma semana de adaptação ao novo alimento, período esse que se deve observar qualquer sintoma de reações tóxicas. Por isso, durante os primeiros sete dias de fornecimento da cana, a dose recomendável é 0,5 kg de uréia com sulfato para 100 kg de cana. "Depois desse período, a proporção a ser utilizada 1 kg da mistura para 100 kg de cana", explica Bordini. Despeja-se metade da solução de uréia, sulfato e água sobre a cana já disposta no cocho e mistura-se com o garfo, acrescentando-se, em seguida, o restante do líquido e revirando-se novamente a cana. "Os animais podem comer à vontade", garante o agrônomo.
     O cocho deve ser furado para evitar acúmulo de água caso venha a chover e dimensionados para cada cabeça ocupar de 80 cm a 1 metro. A mistura tem de ser renovada diariamente, descartando-se as sobras do dia anterior, já que a cana fermenta de um dia para o outro. A dieta torna-se mais eficiente quando o animal tem acesso ao pastejo com boa disponibilidade de forragem, durante duas e três horas por dia. Os técnicos ressaltam que se o produtor desejar acelerar mais ainda os ganhos de peso na época da seca é conveniente reforçar a alimentação com ração a base de farelo de algodão ou de soja, melhores até que o farelo de arroz e grão de milho moído.
     Eles sugerem colocar a ração por cima da cana, de manha e a tarde, sem misturar muito, na base de 1,5 kg de concentrado/dia para cada cabeça. É necessário suprir também a deficiência de minerais, acrescentando-os ao concentrado. Outro alerta importante: produtores que pretendem utilizar a uréia na alimentação do gado devem tomar cuidado com as quantidades ministradas e formas de oferecer o produto aos animais, pois o emprego indevido pode ser fatal. "O uso correto da tecnologia não incorre em riscos. O mesmo não acontece quando a quantidade de uréia utilizada estiver acima dos níveis recomendados ou mal misturada a cana-de-açúcar e quando não se observar o período de adaptação de uma semana", avisa Armando.

FONTE:
Revista Balde Branco – Número 409 – Novembro/1998

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