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Intensificação de sistemas de produção de leite

A receita para se atingir elevada eficiência em sistemas de produção de leite é composta de cinco requisitos básicos: explorar vacas especializadas, manejo sanitário adequado, ter bom manejo reprodutivo, ter bom manejo nutricional e oferecer condições adequadas de conforto para os animais. Tais itens independem do sistema de produção adotado, seja ele baseado em pastejo ou em confinamento total, com alto ou baixo nível de concentrado, com vacas Holandesas, Jerseys, Pardo Suíças ou mestiças.
  
Produtores de leite eficientes dos Estados Unidos, Canadá, Europa e Oceania têm em comum o fato de cumprirem esses requisitos de forma satisfatória. Citando inicialmente o conceito de vaca especializada, é preciso esclarecer que ele não está relacionado à pureza racial, tipo ou aparência do animal, mas sim a aspectos produtivos como potencial genético, persistência de lactação, eficiência reprodutiva, longevidade e outros.
 
Isso vale para produtores americanos, que adotam sistemas de confinamento total e exploram o mérito genético das vacas, obtendo produções de 8.000 a 13.000 kg de leite por vaca/ano, como também para produtores da Nova Zelândia, que adotam sistemas baseados exclusivamente em pastagens manejadas intensivamente e exploram a produção de leite por área com vacas produzindo entre 3.000 a 4.500 kg, fazem uso de animais especializados, com alto mérito genético, elevada persistência de lactação e inseminam estas vacas com touros provados melhoradores para a produção de leite, proteína e gordura.
 
No Brasil, a difusão do conceito de animal rústico em detrimento do animal especializado resultou de uma pecuária leiteira baseada em vacas com alto grau de sangue zebuíno, de baixo potencial genético e baixa persistência de lactação. Esses fatores, associados a um manejo nutricional, reprodutivo e sanitário inadequados têm como conseqüência um panorama que mostra a vaca média brasileira produzindo apenas 1.000kg de leite por ano, com lactação inferior a 10 meses e intervalo entre partos superior a 15 meses.
 
Em um sistema eficiente de produção de leite tem-se como objetivo vacas dando uma cria a cada 12 meses, produzindo leite durante 10 meses e permanecendo secas apenas dois meses. Isto significa que a vaca deve estar em produção pelo menos 83% dos dias do ano, ou seja, 10 meses de produção divididos por 12 meses do ano. Transferindo este valor para o rebanho, o produtor deve ter em média 83% das vacas do rebanho em lactação e apenas 17% das vacas secas ao longo do ano.
 
O fator mais importante para que um valor elevado de vacas em lactação no rebanho seja atingido é trabalhar com animal de alta persistência de lactação. Entende-se por vaca de alta persistência, aquela que apresenta queda de produção após o pico de lactação de no máximo 10% a cada 30 dias, isto é, capaz de manter pelo menos 90% da produção a cada 30 dias após o pico de lactação. Vacas com alta persistência são capazes de produzir leite por mais de 10 meses, enquanto vacas com baixa persistência normalmente produzem leite por apenas cinco a nove meses.
 
A tabela 1 mostra a interação entre período de lactação e intervalo entre partos em termos de percentual de vacas em lactação no rebanho. E importante observar que rebanhos que possuem vacas com alta persistência apresentam percentual de vacas em lactação sempre acima de 80% mesmo quando o intervalo entre partos é maior que 12 meses, enquanto em rebanhos que possuem vacas com baixa persistência. o período de lactação é normalmente inferior a 10 meses e a porcentagem de vacas em lactação é baixa (inferior a 80%) mesmo com reprodução eficiente.

TABELA 1 - Influência do período de lactação e intervalo entre partos sobre a % de vacas em lactação

Período de Lactação (meses)

Intervalo entre partos

  12 13 14 15
13 - - - 86
12 - - 85 80
11 - 74 70 73
10 3 77 71 66
9 75 69 64 60
8 66 61 57 53
7 58 64 60 47


MANEJO REPRODUTIVO EFICIENTE É OBTER UM IEP DE 12 MESES
 
Um levantamento recente feito no estado de Minas Gerais mostrou que a porcentagem de vacas em lactação nos rebanhos daquele estado está ao redor de apenas 64%. A tabela 2 mostra a perda em kg de leite por dia em uma fazenda de leite devido a baixa persistência de lactação das vacas e ao aumento no intervalo entre partos. O uso de animais não especializados com manejo sanitário, reprodutivo e nutricional inadequados resulta no quadro geral observado no Brasil de rebanhos pouco produtivos e baixa rentabilidade da atividade leiteira.
  
Alguns dos principais objetivos de uma manejo reprodutivo eficiente são estabelecer ou restabelecer a lactação, manter porcentagem elevada de vacas em lactação, minimizar os custos com animais improdutivos, maximizar a produção de leite por vaca/ano, gerar fêmeas de reposição geneticamente superiores e em número adequado para permitir descarte de vacas entre 25 a 30% ao ano e reduzir os riscos da disseminação de doenças sexualmente transmissíveis dentro de rebanho.
  
Por outro lado, entende-se por reprodução eficiente a obtenção de um intervalo entre partos médio ao redor de 12 meses com boa taxa de concepção no rebanho. Os dados da tabela 2 mostram que o efeito negativo de um intervalo entre partos prolongado na produção média de leite de uma vaca ou de um rebanho, é muito mais intenso quando se explora animais com baixa persistência de lactação.
  
Observe que no rebanho que explora vacas especializadas (persistência de lactação de 95%), uma piora no manejo reprodutivo passando de 12 para 14 meses de intervalo entre partos, resultou em uma queda na produção de leite média da vaca de 14,7 para 14,1 kg/dia, e uma redução na produção total do rebanho de apenas 16 litros (1.228 x 1.212 litros) ao passo que no rebanho que explora vacas não especializadas (persistência de lactação de 85%), a média diária por vaca caiu de 9,3 para 7,7 litros e a produção total da fazenda de 771 para 546 litros de leite por dia.
     

Tabela 2 - Influência da persistência da lactação sobre a produção de leite da vaca e do rebanho % de em lactação por ano

Mês de Lactação

Nível de Persistência

  95% 80%
1 15,4 15,4
2 18,0 18,0
3 17,1 14,4
4 16,2 11,5
5 15,4 9,2
6 14,6 7,3
7 13,8 5,8
8 13,2 4,7
9 12,5 3,7
10 11,9 3,0
Média em 365 dias 14,8 9,3
% vacas em lactação* 83% 83%
Produção diária de 100 vacas 1228 771
11 11,3 -
12 10,7 -
Média em 365 dias 14,1 7,7
% vacas em lactação** 86% 71%
Produção diária de 100 vacas 1212 546
* 12 meses de intervalo entre partos
** 14 meses de intervalo entre partos
   

    
Esses dados mostram claramente que a combinação de vacas não especializadas e reprodução ineficiente resultam em uma perda de leite expressivas para o produtor, devido à menor produção individual de cada vaca por dia e ao menor número médio de vacas em lactação no rebanho. Os prejuízos não se restringem apenas à quantidade de leite produzida, mas também ao número de fêmeas de reposição geradas durante o ano, diminuindo a chance do produtor de fazer descarte de vacas inferiores ou com problemas como infertilidade, mastite crônica, casco, etc.
  
Já quando se fala em manejo nutricional estamos nos referindo a práticas que vão muito além da simples formulação de dietas. Apesar de essencial, a formulação de receitas bem balanceadas, utilizando alimentos volumosos e concentrados de boa qualidade, é apenas o primeiro de uma série de passos necessários para que se tenha um bom manejo nutricional em rebanhos leiteiros.
  
Toda vez que se formula uma dieta para vacas de leite, seja qual for o sistema utilizado, com base em dados como peso vivo da vaca, produção de leite esperada, composição do leite, estágio de lactação e dias de prenhês, a primeira informação que o programa fornece é o consumo esperado de matéria seca que o animal teoricamente deverá apresentar; a segunda informação é a quantidade de energia, proteína, fibra, minerais e vitaminas exigidas pelo animal. Assim teremos a concentração destes nutrientes na dieta.

LEITE SE OBTÉM COM DIETA BALANCEADA E CONSUMO SUGERIDO
  
Fica claro então que para o animal apresentar a produção esperada, além de receber uma dieta bem balanceada, é necessário que a vaca atinja o consumo sugerido pelo programa de formulação. Caso o consumo esteja abaixo do exigido, a produção esperada de leite só será atingida às custas do uso de reservas corporais, processo este natural em vacas recém paridas, porém preocupante para animais com mais de 40-60 dias de lactação.
  
Portanto, todo programa nutricional bem sucedido para vacas de leite de alta produção é altamente dependente de um consumo adequado de alimento por parte da vaca. Infelizmente, para a maximização do consumo não basta apenas oferecer uma dieta bem balanceada ao animal. Inúmeros outros fatores relacionados ao manejo diário da propriedade terão reflexo direto na ingestão de alimento pela vaca. E por esse motivo que um bom manejo nutricional vai muito além da formulação da dieta.
  
O consumo de uma dieta balanceada para vacas de leite de alta produção pode ser afetado por fatores como manejo pré-parto, condição corporal no parto, qualidade da forragem, manejo da silagem, disponibilidade de água de boa qualidade, problemas de casco, manejo de cocho, incluindo limpeza e área de cocho por animal, disponibilidade de alimento para o animal a maior parte do dia, horário de alimentação, parcelamento do fornecimento de alimento, separação de vacas primíparas de vacas de segunda lactação ou mais, uso de ração completa, número de ordenhas, horário da ordenha, conforto visando reduzir ao máximo o nível de estresse do animal.
  
Como pode ser visto são inúmeros os fatores que podem interferir no manejo nutricional do rebanho e estes podem ser mais difíceis de serem controlados do que o fator formulação em si. É comum observar nutricionistas e produtores não darem a devida atenção aos diversos aspectos do manejo nutricional que interferem diretamente no consumo de alimento, super valorizando o aspecto formulação da dieta. Afinal de contas o que são um ou dois quilos a menos de matéria seca consumida por dia por uma vaca de leite? A tabela 3 mostra a exigência de uma vaca pesando 600 kg, produzindo leite com 3,5% de gordura e ganhando 330g de peso vivo por dia.

Tabela 3 - Exigências de uma vaca de acordo com produção de leite

Kg de leite Consumo MS (kg) NDT* (%) PB**(%)
10 12,86 62,80 12,14
20 16,70 66,30 13,80
30 20,04 70,15 15,00
40 23,00 73,95 16,00
50 26,63 75,10 16,60
* NDT: nutrientes digestíveis totais     ** PB: proteína bruta

    
Os dados da tabela mostram que a diferença de consumo entre uma vaca produzindo 30 ou 40 kg de leite por dia é de apenas 3 kg de matéria seca. Redução de consumo desta magnitude pode facilmente ocorrer quando alguns dos itens de manejo mencionados não são observados com atenção na rotina diária da fazenda. Como explicar que em rebanhos de alta produção dentro de um mesmo lote de vacas, recebendo a mesma dieta formulada para 45 kg de leite por dia, alguns animais se destaquem com produções superiores a 60 kg de leite.
  
Obviamente, além da capacidade privilegiada de converter nutrientes da dieta em leite, estas vacas apresentam consumo de alimento superior às demais. Todo o conhecimento hoje disponível na área de formulação e balanceamento de dietas para vacas de alta produção, que vai muito além do simples balanceamento em termos de NDT, PB, fibra, minerais e vitaminas pode e deve ser utilizado, como por exemplo o balanceamento em termos de carbohidratos não estruturais da dieta, amido degradável no rúmen, proteína protegida, aminoácidos essenciais, aditivos etc.
  
Entretanto, todo este refinamento pode ser parcial ou totalmente anulado em termos de aumento em produção de leite quando o demais fatores do manejo nutricional não recebem a devida atenção e o consumo da vaca é afetado negativamente. Na verdade, o manejo nutricional visando maximização de consumo tem início antes mesmo de a vaca parir, ainda no período seco, pois vacas que apresentam maior consumo antes do parto também terão maior consumo de alimento pós-parto.

PASTOS SÃO CULTURAS EXIGENTES EM MANEJO E FERTILIDADE DO SOLO
  
Na grande maioria das fazendas de leite no Brasil, a produção de alimento volumoso em quantidade e qualidade adequadas para suprir as exigências de vacas de leite durante os 365 dias do ano ainda, é o principal fator limitante para a obtenção de índices de eficiência satisfatórios. Sistemas baseados na exploração de pastagens tropicais são os mais comuns em nosso meio. Infelizmente muitos produtores ainda não se deram conta de que seus pastos devem ser vistos como uma área de cultura exigente em fertilidade de solo e manejo geral.
  
A adoção de sistemas rotacionados intensivos de manejo de pastagens tem permitido mudar radicalmente este panorama em diversas propriedades nos mais diversos locais do país. Lotações de pastagens da ordem de 10 vacas por hectare durante 180 a 200 dias por ano vêm sendo obtidas e quando conciliadas a uma produção de alimento conservado para o inverno, na forma de silagem de milho, sorgo, ou capim, ou o uso de cana-de-açúcar, têm permitido aumentar de forma significativa a produção de leite por animal e por área.
  
Produções superiores 10.000kg de leite por hectare/ano podem ser atingidas nessas condições, tornando a atividade leiteira altamente competitiva e vantajosa em relação a outras atividades agropecuárias. O custo da adubação de pastagens, muitas vezes questionadas pelos produtores como sendo cara, quando feita de forma correta propicia a produção de um alimento de alta qualidade a baixo custo. No geral o custo da adubação para 200 dias de verão tem ficado em torno de R$ 0,20 a 0,25 por vaca dia, o que representa ao redor de 1 litro de leite.
  
Vacas recebendo este tipo de pastagem e suplementadas com quantidades moderadas de concentrado podem produzir ao redor de 12 a 18 litros de leite com um custo de alimentação que torna o sistema bastante competitivo, principalmente em regiões onde o preço pago ao produtor seja inferior a R$ 0,25 por litro. O produtor precisa ter em mente que a resposta de vacas em regime de pasto, quando suplementadas com concentrado, é da ordem de 1,2 a 1,7 kg de leite por kg de concentrado fornecido. Comprar concentrado por preços acima de R$ 0,25 o kg pode inviabilizar o seu uso em função do preço recebido pelo leite.
  
Todo o esforço direcionado para a nutrição da vaca de leite pode não levar ao sucesso se a questão de estresse não for levada em consideração. Por estresse entenda-se qualquer desconforto causado ao animal, quer seja pela construção inadequada de instalações ou práticas inadequadas de manejo. Estresse térmico, competição (área de cocho e área de descanso) são fatores muitas vezes desprezados por técnicos e produtores, mas podem comprometer tremendamente o desempenho e a saúde do animal.
  
Reduções na produção de leite da ordem de 10 a 40% podem ocorrer devido ao estresse por calor durante o verão, fazendo com que o fornecimento de sombra e água sejam fatores fundamentais para a vaca. A principal razão para essa redução na produção de leite é que vacas sob qualquer tipo de estresse comem menos e por isso produzem menos.

Texto baseado em palestra do prof. Flávio Augusto Portela Santos, do departamento de Produção Animal, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz-USP.

FONTE:
Revista Balde Branco - Número 426 - Abril/2000
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