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Desde
o final da década de 80, quando uma mortandade de gado, especialmente
de vacas de cria, surpreendeu os pecuaristas da região Centro-Oeste,
a Embrapa Gado de Corte vem estudando o que era inicialmente conhecido
como a "síndrome da vaca caída". O que, na época, foi cogitado
como sendo ataque de "disco voador", "fluorose atípica"
e uma série de outras versões do repertório criativo do imaginário brasileiro
era, de fato, sintoma do botulismo bovino, que, em dois anos, levou
à morte mais de 400 mil animais. Mesmo passado o pânico inicial, a doença
ainda vitima o rebanho bovino da região de Cerrados e seu controle reside
em suplementação nutricional e mineral adequadas, vacinação e limpeza
da pastagem, com a retirada de matéria orgânica em decomposição, meio
ambiente onde se desenvolve o Clostridium botulinum, produtor da toxina
botulínica.
Durante 4 anos, o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Pedro Paulo
Pires, estudou a eficácia de algumas vacinas antibotulínicas disponíveis
no mercado, uma vez que houve relatos de ocorrência de surtos em rebanhos
vacinados previamente. Com o apoio dos próprios fabricantes de duas
das cerca de dez vacinas comercializadas no Brasil, que investiram aproximadamente
R$ 60 mil (a pesquisa inteira custou quase R$ 300 mil), Pires foi buscar
na região do Pantanal, MS, um rebanho de 120 bezerros que nunca haviam
sido vacinados contra o botulismo e nem mesmo suas mães possuíam histórico
de vacinação. "Procuramos animais sem qualquer memória imunológica
para garantir os resultados da pesquisa. Adquirimos as vacinas usadas
nos testes em estabelecimentos diferentes, para não levantar dúvidas",
afirma Pires.
O lote de 120 bezerros foi dividido em quatro partes e três destas foram
vacinadas. Meses depois da vacinação, animais submetidos à aplicação
da toxina não sobreviveram. A vacina não protegeu e os bovinos foram
morrendo entre 24 horas e alguns dias após a aplicação.
A pesquisa da Embrapa Gado de Corte, além de definir as doses mínimas
e letais da toxina botúlica, para bovinos, desenvolveu um método inovador
e mais econômico de avaliar as vacinas disponíveis no mercado e uma
nova forma de diagnosticar a presença da toxina no corpo do animal,
a partir de exames laboratoriais. Até então, só era possível o diagnóstico
clínico do animal doente. O pesquisador assegura que o botulismo bovino
não é transmitido ao homem e os prejuízos com a doença recaem na produção
agropecuária.
A doença - O botulismo é uma intoxicação alimentar causada pela
toxina botulínica, a toxina orgânica mais potente que se conhece - produzida
pelo germe Clostridium botulinum, responsável pela produção de 7 toxinas,
inclusive a que ataca o sistema nervoso humano, e que se desenvolve
em matéria orgânica em decomposição.
O botulismo bovino está diretamente ligado ao apetite depravado do gado
com carência nutricional e mineral (severa deficiência de fósforo e
proteínas), que leva o bovino a comer, lamber ou roer couro, tendões,
ligamentos, carne e ossos de cadáveres em estado de putrefação. A carência
de fósforo, em especial, faz com que o gado passe a ingerir toda sorte
de materiais estranhos a sua dieta alimentar, como terra, pedra, madeira,
borracha e plástico, entre outros, encontrados na pastagem. Uma vez
que o gado cria esse mau hábito, torna-se quase impossível reverter
a situação. Se ingerir a toxina botulínica, a doença e a morte dos animais
são quase certas. A prevenção contra o botulismo reside em boa suplementação
nutricional e mineral do rebanho, vacinação e limpeza do pasto.
Nesta quarta-feira, dia 24 de maio, às 15 horas, na Embrapa Gado de
Corte, o pesquisador Pedro Paulo Pires fará uma palestra técnica para
pesquisadores da Unidade de Gado de Corte, representantes da Delegacia
Federal do Ministério da Agricultura em MS, da Empaer, Iagro, Famasul,
Sindicato Rural de Campo Grande e Universidade Federal de Mato Grosso
do Sul, onde apresentará os resultados obtidos na pesquisa de avaliação
de vacinas antibotulínicas.
O estudo deve provocar uma nova avaliação das vacinas desse tipo comercializadas
no Brasil. Para isso acontecer, o Ministério da Agricultura e do Abastecimento
precisa delegar às instituições de pesquisa, como a Embrapa Gado de
Corte, e aos técnicos competentes o trabalho de avaliação dos produtos
disponíveis ao pecuarista no mercado.
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