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O
maior desafio do homem moderno é impedir que a vida na Terra seja insuportável.
O aumento da população mundial forçou o crescimento da produção de bens
de consumo promovendo no setor agrário aumento da ocupação de terras
e intensificação da produção. O crescimento da conscientização ecológica,
associado à maior exigência dos consumidores, tem exigido o comprometimento
dos governos, empresas e organizações com a melhoria contínua do ambiente
frente ao desenvolvimento de suas atividades.
O comércio internacional que hoje se mobiliza para atender as normas
de qualidade da série ISO 9000, já está implementando os reguladores
da série ISO 14000 que contempla os atendimentos das exigências ambientais.
Dessa forma, é previsível que todas as relações comerciais sejam afetadas
pela atitude ambientalista dos fornecedores.
O Brasil, apesar de ser um país continental, utiliza inadequadamente
seus recursos naturais devido à precariedade da formação cultural e
à falta de uma política efetiva que estimule o desenvolvimento sustentável.
Em se tratando da Suinocultura, verificamos que ela passou por profundas
alterações tecnológicas nas ultimas décadas, visando principalmente
o aumento de produtividade e redução dos custos de produção. A produtividade,
por animal e por área, aumentou consideravelmente, passando-se a produzir
grandes quantidades de dejetos em pequenas extensões de terra. Simultaneamente,
iniciaram-se os problemas com o mau cheiro, oriundo das criações, e
com o destino dos efluentes.
Através de aplicações contínuas de dejetos como fertilizante agrícola
surgiram os problemas de contaminação dos mananciais com microrganismos
e minerais. Esse excesso de minerais contaminando as águas correntes,
através da acumulação no solo e posterior lixiviação ou vazamentos de
lagoas de represamento e depuração, constitui um poluente implacável
afetando a qualidade da água de beber além de causar mortalidade expressiva
de peixes e a proliferação de insetos como o borrachudo.
Diante dessa situação, a sociedade começa a manifestar o seu descontentamento
pelas conseqüências da poluição causada por dejetos animais e o poder
judiciário se organiza para cobrar dos criadores e do poder executivo
as ações corretivas necessárias. Mas serão esses os únicos atores dessa
questão social? Qual o papel dos técnicos nesse contexto?
A água é uma das maiores riquezas naturais da humanidade. Não está sendo
tremendamente desperdiçada em nossas instalações? Não poderíamos usar
equipamentos e técnicas de manejo mais racionais, que preservassem esse
bem comum?
E o papel do nutricionista?
A
quantidade e composição dos dejetos de suínos, como de qualquer outro
animal, tende a ser positivamente relacionada com a quantidade e composição
do alimento que lhe é fornecido.
Ainda
não dispomos de informações técnicas identificando os elementos prioritários
presentes nos dejetos suínos que mais prejuízo causam ao ambiente nas
condições brasileiras. Entretanto, as pesquisas realizadas em outros
países, associadas às nossas e ao conhecimento dos nossos sistemas de
produção, permitem que apresentemos essa discussão e que cheguemos a
algumas inferências.
O
QUE PODEMOS FAZER?
As alternativas propostas a seguir são importantes para que os nutricionistas
de suínos, e talvez os nutricionistas que trabalham com outras espécies
também, possam reduzir o problema da poluição ambiental dos dejetos
animais. A maioria delas promove conjuntamente melhoria no desempenho
e qualidade das carcaças dos animais além de reduzir, em muitos casos,
o custo de produção.
Continuar a busca da melhoria da eficiência alimentar e do aumento de
produtividade por reprodutor, pois estão diretamente relacionadas com
a redução da quantidade de dejetos produzidos.
Incrementar o uso de valores de disponibilidade de nutrientes dos alimentos
utilizados nas formulações de dietas. Nesse particular, são imprescindíveis
novos investimentos em pesquisa com a finalidade de obter valores mais
precisos e sua predição por métodos rápidos e de fácil uso pelas indústrias
de rações.
Melhorar o conhecimento das exigências nutricionais dos suínos, concentrando-se
no genótipo, no sexo e nos fatores que afetam o consumo de ração.
Formular as dietas com maior precisão, buscando-se o atendimento das
exigências nutricionais e evitando-se o uso indiscriminado de "margens
de segurança".
Reduzir o sal das dietas, de maneira a atender apenas os níveis exigidos
de sódio. Formular para sódio e não fixar um valor para sal nas matrizes
de exigências durante a formulação das dietas. Essa medida, além de
reduzir a excreção de sódio, promove redução no consumo, na excreção
de água e no volume de dejetos produzidos.
Empregar o conceito de alimentação em múltiplas fases e sexos separados.
Utilizar, dentro do possível, alimentos com nutrientes de alta digestibilidade.
Evitar o uso de altos níveis de cobre e zinco como promotores de crescimento
e no controle da diarréia.
Aumentar o uso de fontes de minerais com maior disponibilidade como
os quelatos orgânicos.
Utilizar enzimas nas dietas, desde que apresentem resultados que comprovem
sua eficiência.
Utilizar a técnica da restrição alimentar em suínos na fase de terminação.
UTILIZAÇÃO
DE DEJETOS DE SUÍNOS NA ALIMENTAÇÃO ANIMAL.
A utilização de dejetos suínos na alimentação animal é uma questão
bastante complexa e demanda maiores conhecimentos para uma discussão
mais aprofundada. Entretanto, essa prática vem acontecendo e algumas
considerações são pertinentes.
Há referências na literatura internacional, publicadas na década de
70, apresentando desempenhos satisfatórios de suínos alimentados com
dejetos da mesma espécie. Entretanto, quando se avaliou, nas condições
brasileiras, o valor nutricional de dejetos de suínos processados de
diferentes formas, verificou-se que o conteúdo energético e o coeficiente
de digestibilidade da matéria seca desses resíduos são muito baixos,
inviabilizando um possível uso em rações de suínos. Se dejetos de suínos
viessem a ser utilizados na alimentação de outros suínos, mesmo sem
considerar as implicações com a saúde humana, haveria sempre o risco
de contaminação e disseminação de doenças entre os animais, independente
da utilização de dejetos da própria granja ou não.
Com relação aos ruminantes, foram verificados bons desempenhos de bovinos
de corte alimentados com dejetos de suínos. Esses resultados são decorrência
da capacidade de digestão microbiana dos ruminantes, que os capacita
a aproveitar alimentos considerados de baixa qualidade nutricional para
os monogástricos. Contudo, não foram realizados estudos sobre a qualidade
da carne e das vísceras desses animais do ponto de vista de saúde pública,
qualidade nutricional e palatabilidade, o que desautoriza o emprego
de dejetos na alimentação animal nos dias de hoje. Mesmo que a questão
da qualidade da carne seja contornada, haverá também, indubitavelmente,
questionamentos quanto à aceitabilidade de carne desses animais por
parte do público consumidor, o que por si só poderá definir o uso ou
não dessa prática. Uma preocupação importante é com relação a utilização
desses dejetos na alimentação de vacas de leite. Sabendo-se que a secreção
de leite funciona também como veículo excretor de nutrientes, elementos
e metabólitos encontrados na dieta, há poucas possibilidades de que
o leite desses animais atenda os níveis de qualidade requeridos para
o consumo humano.
Sem dúvida há necessidade emergente de estudos que esclareçam essas
questões e que subsidiem uma ampla discussão do assunto, para que se
possa decidir sobre a recomendação técnica dessa prática.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A questão dos dejetos suínos não se constitui apenas num problema
que envolve o setor produtivo de suínos. Ela tem interrelação com todas
as atividades que de certa forma afetam a qualidade da natureza que
temos ao nosso redor. Assim, regiões onde há problemas de emissões de
resíduos industriais, alterações no sistema ecovegetal, contaminações
da natureza com dejetos urbanos e aqueles produzidos por outras espécies
animais podem tornar mais complexo o problema.
Essa questão deve ser tratada amplamente pela sociedade de maneira técnica,
sem apegos particulares, visando a qualidade de vida das populações,
o atendimento dos anseios do consumidor e o desenvolvimento sustentável
de nossa Agricultura.
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