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Avicultura de corte ou de postura?
(Por: Elsio A. P. Figueiredo)*

As cadeias produtivas de carne de aves e de ovos estão entre as mais importantes cadeias agropecuárias para o País. Nelas estão incluídos os elos relacionados aos sistemas de produção e aqueles relacionados ao processamento e mercado (atacado e varejo). Ambas contribuem sobremaneira para o desenvolvimento econômico e social, como demonstram os dados do PIB avícola apresentados na Tabela 1, sobre a dimensão de cada uma, mostrando que a cadeia de corte é maior do que a de postura e remunera melhor o trabalho e a produção. Graças à dimensão e organização das cadeias de carne de frangos e de ovos, o Brasil desfruta das invejáveis terceira e sétima posições, respectivamente, na produção mundial (Tabelas 2 e 3, respectivamente). Em 1998 o Brasil tornou-se o terceiro produtor mundial de carne de frango com 11,7% dessa produção e também o terceiro exportador (superado pelos Estados Unidos-2.154.000 t, e China/Hong Kong-1.372.000 t) exportando por volta de 720 mil toneladas.

Tabela 1 - Estrutura do PIB da avicultura de corte e de postura, no nível de varejo

Item

Avicultura de corte

Avicultura de postura

 

Valor (R$)

(%)

Valor (R$)

(%)

Ração

3.125.366.204,60

37,92

259.414.818,54

23,08

Lucro

1.396.363.600,07

16,94

(34.904.525,49)

-3,11

Salários

1.087.693.324,49

13,20

131.493.863,00

11,7

Outros

608.941.025,05

7,39

81.290.177,39

7,23

Genetica

689.450.093,68

8,36

28.270.173,46

2,52

Amortizações

359.246.046,48

4,36

191.154.891,53

17,01

Transporte

352.478.007,87

4,28

23.371.539,02

2,08

Impostos diretos

339.317.237,79

4,12

-

-

Energia

159.119.935,13

1,93

-

-

Embalagem

100.140.885,13

1,21

124.877.842,34

11,11

Pesquisa e desenvolvimento

100.000.000,00

1,21

11.239.020,00

1,00

Medicamentos

96.800.000,00

1,17

28.800.000,00

2,56

Margens – Atacado e Varejo

-

-

278.894.200,00

24,81

Gasto financeiro

70.056.359,92

0,85

-

-

Total

8.242.455.482,42

100,00

1.123.902.000,00

100,00

Fonte: Adaptado de Santos Filho (1998)

Na área de postura a produção mundial de ovos é de 741 bilhões de unidades. A China ocupa o primeiro lugar com 360 bilhões e o Brasil ocupa o sétimo lugar com cerca de 17,7 bilhões de unidades produzidas (superado também pelos Estados unidos, Japão, Rússia, México e India).
 
Em 1998 o consumo per capita brasileiro foi de 23,6 kg de carne de aves e de 108 unidades de ovos representando pequeno aumento sobre os anos anteriores para os dois produtos. A tendência de aumento de produção se verifica igualmente entre os principais países, com destaque para a China, cujos aumentos anuais foram da ordem de 9,7% em produção de ovos e de 6,9% em produção de carne. Isto é, muito mais do que nos demais países produtores.

Tabela 2 – Principais países produtores e síntese da avicultura de corte mundial, 1995-1998.

País

Produção de carne de frangos por ano (ton)

 

1995

1996

1997

1998*

E.U.A

11.261.000

11.844.000

12.366.000

13.133.000

China

4.700.000

5.200.000

5.800.000

6.200.000

Brasil

4.050.000

4.052.000

4.340.000

4.600.000

México

1.435.000

1.478.000

1.550.000

1.620.000

França

1.095.000

1.178.000

1.215.000

1.235.000

Japão

1.171.000

1.130.000

1.135.000

1.125.000

Reino Unido

1.022.000

1.064.000

1.094.000

1.120.000

Produção mundial de carne de frango

34.753.000

36.336.000

38.241.000

39.635.000

Exportação mundial de carne de frango

4.882.000

5.567.000

5.989.000

6.413.000

Consumo mundial de carne de frango

34.075.000

35.638.000

37.401.000

38.741.000

Maior consumo per capita (kg) de carne de frango (Hong Kong)

46,2

37,2

44,9

46,2

Consumo per capita (kg) do Brasil

22,8

21,7

22,7

23,6

*Até Julho de 1998 e projeção
Fonte: Adaptado de Anuário da Pecuária Brasileira (1998)

     Dentro de cada cadeia produtiva brasileira, especificamente os sistemas de produção, caracterizam-se pela estrutura de granjas próprias com mão-de-obra familiar. Cada sistema de produção, isto é, a fase dentro da propriedade rural inclui os aviários de frangos de corte ou de poedeiras comerciais. Tais atividades podem ser independentes ou integradas. No caso da produção de frangos de corte, principalmente na região sul são, em geral, integrados. Nas demais regiões existe maior porcentual de produção independente. Faz parte deste elo da cadeia o segmento de produção caseira e, mais recentemente, o da produção direcionada para nichos de mercado com produtores de frango caipira. No caso da produção de ovos, a maioria dos produtores são independentes, porém organizados em sindicatos e, em alguns casos em cooperativas.

Tabela 3 – Principais países produtores e síntese da avicultura mundial de postura, 1995-1998

País

Produção de ovos por ano (milhões de unidades)

 

1995

1996

1997

1998*

China

301.860

317.560

328.000

360.000

E.U.A

74.592

76.296

77.256

78.960

Japão

42.167

42.891

43.200

43.000

Rússia

33.720

31.500

32.000

32.500

México

25.760

26.045

26.500

26.100

Índia

28.000

29.000

29.500

30.000

Brasil

16.065

15.932

16.890

17.735

França

16.911

16.500

16.350

16.450

Produção mundial de ovos

673.213

690.527

706.340

741.903

Exportação mundial de ovos

17.062

18.428

18.802

19.535

Consumo mundial de ovos

672.296

689.413

705.026

740.090

Maior consumo per capita de ovos (Japão)

342

346

347

345

Consumo per capita de ovos do Brasil

101

99

104

108

*Até Julho de 1998 e projeção Fonte: Adaptado de Anuário da Pecuária Brasileira (1998)

Fora da propriedade o elo de fornecedores de insumos inclui a genética, a nutrição, a sanidade, as edificações e equipamentos. Na genética estão as granjas de avós, de matrizes e incubatórios. Na nutrição estão as empresas de produção de ração, de núcleo proteico, de premixes vitamínicos e minerais e os fornecedores de ingredientes. Na sanidade estão as empresas de produtos veterinários, desinfetantes e kits de diagnóstico.
 
Também fora da propriedade estão os elos relacionados com assistência técnica, laboratórios de diagnóstico, cooperativas de crédito, integradoras, plantas de abate e processamento, sistemas de transporte e comercialização. Na área de postura não existem plantas de abate nem de processamento.
 
Os dados mostram que tanto a avicultura de corte como a de postura de porte empresarial são importantes para a geração de renda e de divisas para o país. Não fica evidente o papel dessas atividades nas escalas familiares. É necessário portanto mencionar que mesmo em escala industrial existe um componente familiar dentro das cadeias produtivas, pois no geral as atividades de produção são de carater familiar ou distrital.
 
Atualmente toma impulso na Europa a pressão de grupos ativistas que buscam incentivar sistemas de produção que promovam o bem-estar animal, preservem o meio ambiente, reduzam ou eliminem drogas, defensivos, antibióticos, etc., conduzindo naturalmente à idéia de criações orgânicas e ao ar livre e com grande apelo familiar. As famílias que investirem nessa direção certamente estarão garantindo bons retornos no futuro.
 
Por outro lado toma impulso a automação e modernização dos sistemas de produção, bem como a agregação de valor aos produtos. No caso ovos líquidos, vendidos em caixas tetra pak, ou ovos em pó, de várias marcas comerciais, que diferenciam proporções de gema e de clara, marcas que vendem ovos enriquecidos com nutrientes diversos (principalmente vitaminas) e com teores mais elevados de ômega 3 (baixo colesterol). No caso das carnes, são elaborados produtos processados nas formas de pré-cozidos, empanados, refeições prontas, etc.
 
O Brasil tem utilizado a avicultura como símbolo de sustentação do plano real, o que é importante para as duas cadeias, porém os governos estaduais e municipais não têm se dado conta de que a avicultura pode fazer muito mais e pode gerar mais empregos e renda no meio rural, distrital e urbano. A pequena propriedade rural que atualmente está esvaída (por falta de crédito compatível, assistência organizacional e técnica e pela legislação trabalhista, além da tributação excessiva dos insumos) é uma esperança para quem não tem terra e um desespero para quem a possui. Existe alta tecnologia instalada no país capaz de alavancar e até duplicar a produção avícola nacional.
 
Os indicadores médios de desempenho para frangos de corte podem ser vistos na Tabela 4 e para poedeiras na Tabela 5.
 
Os investimentos necessários para a implantação de um sistema de produção de frangos de corte ou de uma granja de postura são elevados. Aviários rústicos equipados para 5.000 frangos custam ao redor de R$ 8.000,00 e aviários modernos com equipamentos automáticos para 25.000 frangos custam ao redor de R$ 100.000,00. Aviários rústicos equipados para 5.000 poedeiras custam ao redor de R$ 10.000,00 e aviários modernos com equipamentos automáticos para 100.000 poedeiras custam ar redor de R$ 300.000,00.
 
O retorno financeiro na avicultura de corte inicia-se 60 dias após o alojamento dos pintos e, continua, em períodos de 60 em 60 dias; na de postura, 150 dias após o alojamento das pintas e continua semanalmente até cerca de 560 dias de idade das aves. Os frangos geralmente não podem ser comercializados no varejo e sim no atacado para abatedouros, porém esses preferem o sistema de integração. Os ovos podem ser comercializados no atacado, via contrato, com supermercados e padarias.
 
As principais linhagens de corte (não se usa mais raça e sim linhagem dentro de raça) são Avian Farms, Cobb, Ross, Hubbard, MPK, Vedete, Embrapa e as principais linhagens de postura são Hy-Line, Isa Babcock, Lohmann, Hisex, Nick Chick e Embrapa, com variedades brancas que produzem ovos brancos e variedades castanho que produzem ovos marron.

Tabela 4 - Médias aproximadas para os principais indicadores na produção de frangos de corte.

Produção de pintos por matriz alojada

130

Custo da matriz (galinha+15% de galos) em R$

4,16

Matrizes por m2 de área

4,5

Consumo de ração da matriz, kg

60

Preço de ração reprodução, em R$/kg

0,26

Custo do pinto de um dia, em R$

0,30

Frangos por m2 de área

10-18*

Peso de abate aos 45 dias, kg

2,4

Consumo total de ração por ave, kg

4,35

Preço de ração frango de corte, em R$/kg

0,32

Mortalidade até o abate, %

5

Custo de produção/kg em R$

0,70

Remuneração do produtor em R$/ave

0,12

*Em aviários de alta densidade são abatidos mais jovens

Tabela 5. Médias aproximadas para os principais indicadores na produção de galinhas de postura.

Produção de pintas por matriz alojada

80

Custo da matriz (galinha+15% de galos) em R$

4,16

Matrizes por m2 de área

7

Consumo de ração da matriz, kg

45

Preço de ração reprodução, em R$/kg

0,26

Custo da pinta de um dia, em R$

0,60

Poedeiras por m2 de área

7-9

Produção de ovos até 80 semanas de idade

320

Consumo total de ração por poedeira, kg

50

Preço de ração de poedeiras, em R$/kg

0,23

Mortalidade até 80 semanas de idade, %

7

Custo de produção/kg em R$

0,70

Remuneração do produtor em R$/dúzia de ovos

0,55

*Em aviários de piso e de gaiola respectivamente

     Retornando a questão inicial, avicultura de corte ou de postura? Pode-se dizer que:

  • Existe espaço para produção de carne e ovos em praticamente todas as regiões brasileiras;
  • A produção necessita de escala e o produto de qualidade para competir no mercado tão concorrido, pois as margens são mínimas e os investimentos elevados (mínimo R$ 10.000,00 para uma granja pequena);
  • A produção de produtos especiais para nichos de mercado tem sido atrativo para produtores não tradicionais, por permitir maior agregação de valor (por exemplo produtos orgânicos e(ou) enriquecidos);
  • Existe tecnologia nacional para incrementar a produção de qualquer das duas atividades;
  • Existe demanda reprimida por carne e ovos, se os salários tiverem aumento real a atividade será beneficiada de imediato;
  • Do ponto de vista nutricional tanto carne quanto ovos são excelentes fontes de proteina de alta qualidade biológica;
  • Portanto, se houver sensibilização dos poderes decisórios a avicultura pode contribuir muito mais para geração de emprego, renda e alimentos de alta qualidade em qualquer região do país, num curto espaço de tempo.

Referências Bibliográficas
SANTOS FILHO, J. I. Sobre as cadeias produtivas de aves. Comunicação pessoal, 1998.
ANUÁRIO DA PECUÁRIA BRASILEIRA. Anualpec. p.277—306, 1998.

FONTE:
EMBRAPA - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
Centro Nacional de Pesquisa de Suínos e Aves
Ministério da Agricultura e do Abastecimento
Caixa Postal 21 - CEP 89700-000 - Concórdia-SC
Tel: (49) 442-8555  Fax: 442-8559 
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