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O trigo na alimentação de aves 
(Por: Paulo A. R. de Brum)*

O trigo é uma gramínea do genêro Triticum com tradição milenar de cultivo e consumo humano pelo seu valor nutricional como alimento. Esse cereal se adaptou a uma grande variedade de solos e condições adversas de clima, podendo ser produzido de forma extensiva na maior parte das regiões do mundo, motivos pelo qual foi adotado como um alimento básico para consumo humano.
 
Existem numerosas espécies. Mas apenas três apresentam importância econômica: o trigo duro (Triticum durum), o trigo comum (Triticum aestivum) e o trigo compacto (Triticum compactum).
 
O trigo vem sendo utilizado como fonte principal de energia nas dietas de aves de vários países, especialmente na Europa. No Brasil, até recentemente, não era utilizado em rações para animais pelo alto custo de produção e, também, pela disponibilidade de outros ingredientes alternativos. Normalmente, o grão integral só é destinado ao consumo animal quando possui classificação inferior. Mas devido aos altos preços do milho, principalmente em épocas de entressafra, o trigo passou a ser uma opção em potencial como alternativa ao milho na alimentação animal.
 
Nas regiões produtoras de trigo do Brasil (Estados do Sul), durante o período da colheita, é comum a ocorrência de chuvas. Isso poderá levar a uma alta incidência de grãos germinados que são classificados como de qualidade inferior para a indústria panificadora, depreciando seu valor ao redor de 50%. Considerando-se que a cada ano cerca de 20% da safra de trigo (que foi de 2,188 milhões de toneladas em 1998) é de grãos germinados, teríamos cerca de 437 mil toneladas de trigo germinado, que poderiam ser utilizados na alimentação animal.
 
O trigo apresenta boa qualidade nutricional e grande potencial de utilização nas dietas para monogástricos e ruminantes. Por outro lado, quando utilizado em rações peletizadas, apresenta capacidade aglutinante, melhorando a qualidade do pelete. Contudo as cultivares de trigo apresentam grande variação na composição química e valor nutricional. Considerando os trigos cultivados no mundo, os valores de proteína bruta variam entre 6% e 22%, com maior freqüência de valores entre 13% e 14%.
 
Nos resultados da determinação da composição química e energética de amostras de trigos, obtidos pela Embrapa Suínos e Aves, verificou-se que a proteína bruta variou de 11,03% a 16,42% com média de 13,49% e a energia metabolizável aparente corrigida para nitrogênio de 2887 a 3292 kcal/kg com média de 3040 kcal/kg.
 
Experimentos conduzidos pela Embrapa Suínos e Aves demonstraram que o trigo germinado é uma excelente fonte de nutrientes para aves e suínos, podendo substituir o milho sem prejuízo no desempenho. Esses resultados são importantes para as cadeias produtivas de trigo e aves que dispõem de nova alternativa de comercialização e utilização.
 
Um destes experimentos teve por objetivo gerar informações sobre o melhor uso do trigo com alto grau de grãos germinados em rações fareladas, trituradas e peletizadas para frangos de corte, quando foram testadas cinco dietas: D1 - Dieta à base de milho e farelo de soja (FS); D2 - Substituição de 50% do milho da dieta D1 por trigo com 0% de grãos germinados; D3 - Dieta a base de trigo com 0% de grãos germinados e FS; D4 - Substituição de 50% do milho da dieta 1 por trigo com 9% de grãos germinados; D5 - Dieta a base de trigo com 9% de grãos germinados e FS.
 
As dietas foram isocalóricas e isoprotéicas, fornecidas à vontade, bem como a água. O trigo utilizado foi da cultivar EMBRAPA-16, com zero e 9% de grãos germinados, tendo peso hectolitro de 67,15 e 76,55 kg/hl, respectivamente. Na fase inicial (0 a 21 dias de idade) todas as rações foram fareladas. Nas fases de crescimento (21 a 35 dias de idade) e final (35 a 42 dias de idade), seis repetições, de cada tratamento, continuaram com ração farelada. As outras seis receberam ração triturada na fase de crescimento e peletizada na fase final. As dietas tinham seqüencialmente 21,0%, 19,5% e 18,5% de proteína bruta e 3010, 3100 e 3150 kcal/kg de EM nas fases inicial, crescimento e final, respectivamente. Para comparar os tratamentos, foi considerado o período total de 0 a 42 dias de idade.
 
Observa-se (Tabela 1) que as dietas com trigo determinaram melhor peso corporal e ganho de peso em relação à dieta sem trigo, entretanto não houve efeito no consumo de ração e conversão alimentar. Com base nesses resultados, conclui-se que as dietas com trigo apresentaram melhores resultados em relação à dieta a base de milho e farelo de soja.
 
Considerando-se os níveis de substituição (50% e 100%) do trigo pelo milho não se verificou efeitos no peso corporal, ganho de peso, consumo de ração e conversão alimentar. Já o contraste entre as porcentagens de grãos germinados (0% e 9%) foi significativo, sendo que a utilização de dietas com trigo com 0% de grãos germinados determinou melhores peso corporal, ganho de peso e maior consumo de ração em relação à dietas com 9% de grãos germinados. Mas, não houve efeito da porcentagem de grãos germinados na conversão alimentar. Esses resultados mostram, ao comparar-se dietas a base de milho e farelo de soja com dietas contendo trigo, que é possível usar qualquer nível de substituição do milho pelo trigo. Entretanto quando se compara dietas contendo trigo, aquelas com 0% de grãos germinados determinam melhor peso corporal e ganho de peso em relação às com o trigo contendo 9% de grãos germinados.
 
Foi verificado efeito significativo (Tabela 2) da forma física da ração no peso corporal, ganho de peso, consumo de ração e conversão alimentar no período de 22 a 35 dias, sendo que a utilização de rações trituradas determinou maior peso corporal, ganho de peso, consumo de ração e melhor conversão alimentar que as rações fareladas. No período de 35 a 42 dias de idade dos frangos, as rações peletizadas resultaram em maiores peso corporal, ganho de peso e consumo de ração em relação às fareladas, porém não houve efeito na conversão alimentar. Concluiu-se que a utilização de rações trituradas nos períodos de 21 a 35 dias e peletizadas de 36 a 42 dias de idade, respectivamente, proporcionou melhor desempenho dos frangos de corte em relação às fareladas.

  • Tabela 1. Comparações no desempenho dos frangos no período de 0 a 42 dias de idade considerando dietas contendo ou não trigo, níveis de substituição do milho pelo trigo e da porcentagem de grãos germinados do trigo.

  • Variáveis

    Tipos de dietas

    Porcentagem de substituição

    Porcentagem de grãos germinados

     

    s/trigo

    c/trigo

    50

    100

    0

    9

    Peso inicial(g)

    46,91

    47,04

    47,07

    47,01

    47,12

    46,96

    Peso corporal (g)

    2370b

    2412a

    2430

    2413

    2440a

    2402b

    Ganho de peso (g)

    2323b

    2374a

    2383

    2366

    2393a

    2355b

    Consumo de ração (g)

    4207

    4259

    4272

    4246

    4290a

    4229b

    Conversão alimentar (kg/kg)

    1,81

    1,80

    1,80

    1,80

    1,79

    1,80

  • Tabela 2 – Efeito da forma física das rações nas médias de ganho de peso, consumo de ração e conversão alimentar dos frangos de corte nos períodos de 21 a 35 e 36 a 42 dias de idade.

  • Variáveis

    Formas físicas das rações

     

    Farelada

    Triturada

    Período de 21 a 35 dias de idade

    Ganho de peso (g)

    1064b

    1167a

    Consumo de ração (g)

    1908b

    1983a

    Conversão alimentar (kg/kg)

    1,79a

    1,70b

    Peso corporal (g)

    1834b

    1934a

    Variáveis

    Formas físicas das rações

     

    Farelada

    Peletizada

    Período de 35 a42 dias de idade

    Ganho de peso (g)

    515b

    538a

    Consumo de ração (g)

    1176b

    1271a

    Conversão alimentar (kg/kg)

    2,30

    2,37

    Peso corporal (g)

    2349b

    2473a

     

     

    FONTE:
    * Pesquisador da Embrapa, DSc. em nutrição. Embrapa Suínos e Aves

    EMBRAPA - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
    Centro Nacional de Pesquisa de Suínos e Aves
    Ministério da Agricultura e do Abastecimento
    Caixa Postal 21 - CEP 89700-000 - Concórdia-SC
    Tel: (49) 442-8555  Fax: 442-8559 
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