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Abatedouros dúvidas no ar

O mercado de frangos abatidos em 1998 teve um comportamento de preços bastante diverso do verificado não só em 1997, mas também na média dos últimos seis anos. Na maior parte do primeiro semestre o frango abatido alcançou preços mais altos que nos anos anteriores.
 
Entretanto, essa situação se inverteu a partir de junho, com os preços ficando abaixo dos patamares obtidos em 1997 e da média dos últimos seis anos. "Os preços do frango vivo na granja, no interior de São Paulo, tiveram praticamente o mesmo comportamento", avalia Oto Xavier, da Jox Assessoria Agropecuária.
 
De acordo com os cálculos apresentados pela Associação Brasileira dos Produtores de Pintos de Corte (Apinco), a produção nacional de carne de frango, de janeiro a setembro de 1998, alcançou um volume de 3, 311 milhões de toneladas, contra 3,263 milhões de toneladas produzidas no mesmo período de 1997. Isso representa um crescimento de apenas 1,47%.
 
"Este pequeno aumento de produção, por si só, é muito pequeno para explicar o achatamento ocorrido nos preços no decorrer do ano", comenta Xavier. "Há que se considerar, porém, que as exportações brasileiras de carne de frango, no período de janeiro a setembro, acumularam volume de 447,1 mil toneladas", ressalta. Esse número, comparado com as 488,2 mil toneladas exportadas no ano anterior, representa uma redução de 8,4%.
 
O incremento da produção aliado à redução na exportação aumentou de forma significativa a disponibilidade interna do produto, pressionando os preços e reduzindo as margens da avicultura brasileira. Apesar de o frango ser um alimento barato e de grande apelo popular, o consumo não alcançou volumes suficientes para absorver a produção total de carne.
 
A exemplo do que acontecia nos tempos de inflação alta, o consumidor vem concentrando as compras de alimentos na parte inicial do mês, por ocasião do pagamento da massa salarial. Além do mais, a economia nacional está com o crescimento comprometido.
 
O Produto Interno Bruto (PIB) calculado pelo IBGE para o terceiro trimestre de 1998 apresenta um crescimento negativo de 0,14%. Na realidade, a situação da avicultura brasileira de corte só não foi pior porque foi favorecida pelos custos de produção relativamente baixos. Em razão das boas safras agrícolas, milho e farelo de soja tiveram preços acessíveis na maior parte do ano.
 
"É difícil fazer qualquer tipo de previsão para 1999", comenta Xavier. Segundo suas estatísticas, o alojamento de matrizes de corte no País vem crescendo mês a mês e os indícios são de que este crescimento continue no decorrer do próximo ano. Algumas fontes apontam para um alojamento de 26,2 milhões de matrizes no próximo ano. "O aumento no potencial de produção de pintos de corte resultará no aumento da produção de carne de frango", explica Xavier. O difícil é prever este crescimento com alguma segurança, uma vez que diversas linhagens de matrizes de corte estão sendo introduzidas ou mesmo aumentando sua participação no mercado.
 
Neste contexto, fica difícil prever qual a produtividade que o setor conseguirá tirar dessas matrizes, o que, por conseqüência, impede o estabelecimento de uma previsão segura para o crescimento da avicultura de corte em 1999. "Algumas fontes estão trabalhando um crescimento provável em torno de 5%", alerta. O primeiro semestre praticamente já está comprometido. "E o pior de tudo é que a situação pode ter desdobramentos no segundo semestre", acredita Célio Terra, vice-presidente da União Brasileira de Avicultura (UBA) e presidente da Associação Paulista de Avicultura (APA).
 
Para que a atividade trabalhe com lucratividade no próximo ano, qualquer crescimento na base de produção precisará ser acompanhado de incremento nas exportações, via abertura de novos mercados. Infelizmente, o atual cenário de câmbio supervalorizado sugere que isso não será nada fácil. Enquanto o Real se mantém valorizado, diversos concorrentes do Brasil no mercado exportador de carne de frango tiveram suas moedas fortemente desvalorizadas com a crise asiática, o que tornou sua produção mais barata do que a brasileiro. Como se vê, 1999 será um ano cheio de incertezas para o setor.
 
Confira abaixo as opiniões de alguns executivos de empresas avícolas sobre o desempenho do setor em 1998 e as perspectivas para o próximo ano: 
 
Luiz Carlos Mendes Costa
- Superintende executivo da Pif Paf S.A. Indústria e Comércio (MG). Formado em Administração de Empresas e MBA pela Faculdade Cândido Mendes (RJ), exerce o atual cargo desde 1985. Costa vem implementando na companhia a filosofia da qualidade, produtividade e bem-estar de equipe, a partir das técnicas de administração que aprendeu em diversos cursos de especialização, inclusive na Inglaterra, para garantir o crescimento da indústria. Acompanhe sua avaliação:

Mix ampliado
 
Apesar de 1998 ter apresentado uma série de problemas para o setor, a Pif Paf deve obter um acréscimo de 14,33% sobre o faturamento anterior. Esse feito ocorreu face aos investimentos realizados em nosso parque industrial e em novas unidades. Adquiridos equipamentos de alta tecnologia visando a transformação de produtos in natura em industrializados.
 
Com isso, conseguimos de certa forma amenizar a redução das margens verificadas este ano, pois passamos a ter em nosso mix produtos com maior valor agregado. Em 1997, o percentual de nossa produção de industrializados era de 38,53%. Este ano, esse número subiu para 40%. Para 1999 pretendemos atingir o patamar de 64% em relação à nossa produção total.

Balanço de 1998
 
A necessidade de tornar a empresa cada vez mais produtiva para enfrentar os problemas vivenciados pelo setor, em 1998, foi um ponto positivo para nós. Trabalhamos duramente e podemos considerar essa fase como de grande aprendizado para toda a equipe. Um outro ponto positivo foi o comportamento dos preços das principais matérias-primas na criação de aves. O preço do milho manteve-se estável e o do farelo de soja obteve uma queda expressiva em relação ao ano passado.
 
Este fato serviu para contrabalançar a queda dos preços médios dos produtos finais, evitando que os resultados não fossem ainda piores. Entre os pontos negativos, vale citar que as empresas não se integraram e nem tão pouco se empenharam para solucionar os problemas que afligem o setor. Em síntese: não houve união. 
 
Penso que há mercado para todos. Trabalhando em equipe podemos encontrar soluções com maior agilidade. Quanto à queda do mercado externo, os produtos brasileiros perderam competitividade no âmbito internacional devido à excessiva carga tributária que recai sobre eles. Sem falar nas altas taxas de juros, na burocracia e numa série de outros entraves.

Pacote econômico
 
O recente pacote fiscal anunciado pelo governo poderá implicar em mais arrocho na economia, impedindo o crescimento econômico. Em seu bojo, o pacote traz embutido aumento de impostos, o que afugenta novos investimentos. Com o pacote, nosso custos vão aumentar e também o nível de desemprego deve crescer. Se isso realmente ocorrer, haverá uma retração na demanda e por tabela outra queda em nossos preços.
 
Diante desse quadro, teremos a médio prazo uma seleção das empresas. Só vão continuar na atividade as que possuírem uma estrutura enxuta e as que conseguirem constituir um caixa sólido para suportar o período de retração econômica. Com isso, espero que haja equilíbrio entre a oferta e a procura em nossa atividade, a fim de que possamos praticar preços compatíveis com os custos, necessários para continuarmos a oferecer produtos de qualidade.

Perspectivas
 
Para o ano que vem a Pif Paf pretende colocar no mercado novos produtos industrializados para eliminar a dependência de vendermos frango inteiro e em cortes. Afinal, os produtos industrializados são uma exigência dos clientes, que procuram produtos de fácil manipulação e prontos para comer. Investimos nos últimos quatro anos R$ 32 milhões para isso. Neste momento, precisamos otimizar a utilização destes investimentos na elaboração de produtos de qualidade e com maior valor agregado, o que não tem acontecido ultimamente com o frango.
 
O diretor-presidente da Cooperativa Agrícola Consolata (Copacol - PR), Valter Pitol, é engenheiro agrônomo e está na empresa desde 1973. Pitol administra a companhia dando abertura às opiniões dos associados e funcionários, tomando decisões democráticas e rápidas. Abaixo, ele descreve o desempenho de sua empresa em 1998 e faz uma breve análise sobre o setor avícola:

Balanço Copacol
 
A Copacol produziu até outubro 50 mil toneladas de carne de frango. Sessenta por cento da produção foi na forma de cortes e 30% de frangos inteiros. O mercado externo absorveu 11% do que produzimos. Com tal desempenho, nosso faturamento deve atingir a marca de R$ 75 milhões. Em 1998, a Copacol investiu significativamente no segmento de cortes para dois mercados específicos: interno e externo. A empresa também ampliou sua capacidade produtiva com a aquisição de novos equipamentos.

Mercado externo
 
Apesar das crises financeiras da Ásia e Rússia, da estagnação econômica do Japão (principal importador do Brasil) e da manutenção da política protecionista por parte da União Européia, que praticamente impede a entrada do frango brasileiro, a Copacol, felizmente, superou suas expectativas no mercado internacional. A cooperativa duplicou sua exportação para a Ásia e para o Mercado Comum Europeu.

Sobrecarga de impostos
 
O anúncio das novas medidas econômicas para o setor agropecuário não foi nada agradável. Além de estar descapitalizado, com uma sobrecarga de impostos, o produtor de alimentos deverá estreitar mais a sua margem de receita. O novo pacote gera ainda mais encargos e impostos, dificultando a produção no setor. Isto com certeza vai influenciar no mercado como um todo, pois com produtos mais caros, as vendas diminuem sem perspectivas de bons resultados.

1999
 
A administração da Copacol tem metas definidas para, a partir do próximo ano, iniciar a duplicação do seu complexo avícola por meio do processo de integração com os associados. O abate atual de 130 mil frangos dia será duplicado dentro dos próximos quatro anos, pois toda a cadeia produtiva de frango de corte exige estruturas físicas e operacionais de grande porte. A Copacol vai investir cerca de R$ 45 milhões nessas ampliações, além da industrialização de produtos elaborados.
 
O presidente da Macedo, Koerich S.A. (RS), José Ferreira de Macedo, é engenheiro agrônomo graduado pela Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel (RS), e mestre na área econômica de Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Macedo é fundador e sócio majoritário da empresa. As atividades da companhia iniciaram-se em 1973 com sete colaboradores. Hoje são 800 pessoas trabalhando para produzir o equivalente a 37 mil toneladas de carne de frango por ano.

Desempenho geral
 
A Macedo deve produzir em 1998 cerca de 37 mil toneladas de carne de frango, entre inteiros e cortes. Fizemos também o lançamento de duas linhas: interfoliados (peito, filé de peito, coxa inteira e asa) e cortes temperados em bandeja (filé de peito, coxa, sobrecoxa, asa, coxinha da asa). Com estes lançamentos vamos poder agregar maior valor aos nossos produtos, fugindo um pouco da instabilidade das commodities. Para lançar estas novidades investimos R$ 5 milhões.
 
Este ano, nossa empresa completou 25 anos, e teve seu trabalho coroado com a Certificação ISO 9001 em seu frigorífico, inclusive considerando aspectos de HACCP. Em novembro de 98, recebemos o maior prêmio de Marketing Catarinense, o Top of Marketing, concedido pela ADVB-SC, com o case "Macedo 25 anos – A Qualidade Certificada". A premiação demonstra a posição de destaque da Macedo no mercado e principalmente reforça suas referenciais de qualidade. Como resultado concreto devemos fechar 1998 com um faturamento de R$ 49,6 milhões.

Adversidades
 
Este foi um ano com algumas adversidades para o mercado avícola. Houve o aumento continuado da produção, mesmo com excesso de oferta, agravado pela redução das exportações e aumento da oferta no mercado interno. Com tudo isso, as margens de lucro ficaram diluídas, requerendo das empresas empenho máximo e habilidades gerenciais extremas para evitar-se um resultado negativo no final do exercício.

Mercado brasileiro
 
A visão geral que tenho sobre o mercado interno a médio prazo é de estabilidade, sem grandes variações de crescimento. Um mercado cada vez mais voltado à redução de custos e à produção de itens com maior valor agregado. Também acho que as empresas do setor estarão mais voltadas à melhoria da qualidade de produtos e serviços. O grande obstáculo, com certeza, será o novo pacote econômico.
 
Com as mudanças fiscais o setor terá um aumento de custo, devido ao aumento da alíquota da CPMF e Cofins, o que diminuirá ainda mais as margens de rentabilidade. Vale lembrar que essas margens já estão achatadas, visto que o frango foi um dos pilares do Plano Real, tornando-se a proteína animal mais barata disponível no mercado.

Ano novo
 
Em 1999, a Macedo, Koerich S.A. deverá investir cerca de R$ 3,5 milhões no frigorífico. O dinheiro será empregado do aprimoramento das linhas de frios e na ampliação da granja de matrizes. A empresa continuará concentrando sua atuação no mercado interno (SC, SP e RJ) e aumentando as praças de atuação dentro desses Estados. Porém, estamos estudando a possibilidade de atuarmos em novas regiões.
 
O próximo ano será difícil, em linhas gerais, para toda a avicultura. Mas, com esses investimentos e com a oferta de produtos mais elaborados, projetamos um crescimento de 7% na produção e no faturamento da empresa em relação a 1998. 

     (Frangos de Corte)

Ano Produção de frangos de corte (em nº de aves) Produção de carne de frango (em ton)
1989
1.603.214.004
2.059.688
1990
1.781.657.439
2.267.358
1991
1.930.385.701
2.521.828
1992
1.981.746.052
2.726.992
1993
2.151.934.323
3.142.998
1994
2.539.700.141
3.411.026
1995
2.578.832.467
4.050.449
1996
2.719.850.000
4.051.561
1997
2.717.000.000
4.461.000
1998
4.520.000

Fonte: Anab. *Previsão

FONTE:
Revista Avicultura Industrial
Gessulli Agribusiness
Pça Sergipe, 156 – CEP 18540-000 – Porto Feliz-SP
Tel: (15) 262-3133 / 262-3919
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