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A
indústria brasileira de alimentação vai bem, obrigado. O balanço do
setor aponta um sucessivo crescimento ao longo dos últimos anos. Segundo
dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Alimentação
(Abia), em 1997 o setor faturou US$ 71,8 bilhões, contra US$ 69,8 bilhões,
em 1996, e US$ 65,4 bilhões, em 1995. E há números ainda mais tentadores
sobre o setor.
De acordo com a Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), o agronegócio,
de uma maneira geral, movimenta 35% do Produto Interno Bruto do País
(PIB), emprega 28% da População Economicamente Ativa, participa com
45% dos gastos familiares e 36% do total das exportações brasileiras.
Apenas na etapa "pós-porteira" (processamento e distribuição),
o agronegócio movimentou US$186 bilhões ano passado.
As indústrias processadoras de carne têm uma participação importante
nesses resultados. No último semestre, Sadia, Ceval e Perdigão apuraram
juntas um lucro líquido consolidado de R$123,9 milhões. Tanto barulho
tem despertado a atenção de multinacionais interessadas em investir
no mercado brasileiro. É a globalização batendo na porteira.
Nesse cenário, a cada semana surgem notícias sobre a entrada da Tyson
Foods, maior processadora de frangos dos EUA, com vendas anuais superiores
a US$ 8 bilhões, no mercado brasileiro. Mas além dos boatos, são vários
os exemplos de multinacionais comprando ou se associando às agroindústrias
nacionais Ceval/Bunge, Batavo/Parmalat, etc.
Logo, não chega a espantar os números apurados por recente reportagem
do jornal Gazeta Mercantil. Das 40 maiores empresas do setor de alimentos
do País, cerca de 60% estão nas mãos de grupos internacionais. No mais
recente ato dessa dança de cadeiras, os acionistas da Frangosul informaram
o mercado que celebraram com a Doux S.A., empresa de capital francês,
um protocolo de acordo ajustando a venda do controle acionário da companhia.
A venda ainda depende dos resultados de uma auditoria contábil e legal.
Para outubro é aguardado um pronunciamento final das empresas sobre
a transação. Para breve também é esperado o anúncio da venda da Chapecó.
Há um ano a empresa está sendo negociada com o grupo Macri, da Argentina,
que fatura R$ 4 bilhões e já dá os primeiros passos no País por meio
da indústria de massas e biscoito Isabela.
Alavancagem
Cientes de que estão na mira do capital externo, as agroindústrias apostam
na diversificação de seus produtos. Ao agregar mais valor ao frango,
por exemplo, esperam alavancar seus lucros e assim manter-se competitivas
frente ao assédio estrangeiro. A estratégia já pode ser verificada nas
gôndolas dos supermercados, tamanha a diversidade com que o frango é
apresentado às donas de casa. Pratos semiprontos, cortes especiais,
temperados e industrializados, como filés empanados e hambúrgueres,
são algumas das novas opções encontradas.
As empresas apostam nesses lançamentos de olho na mudança de estilo
de vida verificada nos grandes centros urbanos. "A rotina agitada
exige refeições cada vez mais rápidas, de preparo simplificado",
comenta o superintendente da Associação Nacional dos Abatedouros Avícolas
(Anab), José Carlos Sandoli. E esse movimento não se verifica apenas
em empresas consagradas como Sadia e Perdigão. A paulista Predileto
Alimentos (antiga Pena Branca), Nicolini (RS) e Coopercentral (Aurora)
também exploram a nova tendência.
Na verdade, as carnes industrializas vêm ganhando terreno no Brasil
nos últimos anos. Essa é, aliás, a tendência mundial. Nos EUA, de cada
US$100 gastos com alimentos, US$25 são com pratos prontos. No País,
o crescimento das vendas desse tipo de produto foi de 146% ano passado,
informa o Instituto Nielsen. Apenas o segmento de empanados congelados
cresceu 68% conforme o mesmo levantamento. José Carlos Sandoli dá outras
pistas sobre a diversificação verificada na indústria de aves.
Conforme os números apurados pela Anab, o cardápio dos brasileiros inclui
58% de frangos inteiros, 32% de frango em cortes e aproximadamente 10%
de carne de frango industrializada.
Para não ficar de fora desse filão de mercado, a Predileto Alimentos
destinou R$ 350 mil para a aquisição de novos equipamentos, que devem
chegar em outubro. Estão programados ainda investimentos de R$ 180 mil
em fevereiro próximo. O objetivo é um só: ampliar a linha de industrializados.
No momento, a Predileto possui um mix variado de produtos. A lista inclui
frango inteiro, temperado, cortes especiais, miúdos, salsicha, mortadela
e lingüiça de frango. O volume total produzido em 1997 chegou a 170
mil toneladas. "Oito por cento desse total foi de produtos industrializados",
atesta o gerente comercial, Décio Francisco DallAgnol. A Predileto
não descrimina a participação dessa área no seu faturamento, calculado
em R$ 234 milhões. Mas Décio não tem dúvidas de que a tendência é aumentar
ainda mais o volume de produtos mais elaborados da marca.
Investimentos
Os dirigentes do Frigorífico Nicolini Ltda (RS) comungam no mesmo credo.
Com produção total de 30 mil toneladas por ano, na qual os industrializados
participam aproximadamente com 20%, a empresa fatura cerca de US$ 35
milhões. Para azeitar seus resultados, planeja ampliar a produção de
lingüiça de frango e lançar novos produtos, como salsicha, mortadela
e cortes temperados. Com essa finalidade vai investir cerca de US$ 1,5
milhão no frigorífico. Como se nota, o alvo principal será a ampliação
dos itens pré-cozidos e embutidos.
Por enquanto, para agregar valor ao frango, a marca aposta em cortes
especiais, espetinhos, hambúrguer e lingüiça. A Nicolini atende um mercado
regional voltado em especial para o Rio Grande do Sul. Mas também tem
clientes na Argentina, Chile e, até mesmo, na China.
Nos últimos anos, a Cooperativa Central Oeste Catarinense (Coopercentral),
sediada em Chapecó (SC), priorizou a ampliação de seu mix de produtos,
todos sob a marca Aurora. Para as festas de final de ano, lançou no
mercado quatro novos itens dentro da linha de aves: partes de frango
em bandejas (60 ton/mês), frango temperado congelado, ave temperada
congelada (peças com 3 a 3,5kg somando um milhão de peças/mês) e lingüiça
de frango (150 ton/mês).
Com
a entrada em operação da nova unidade industrial de processamento de
frango em Quilombo (SC), a empresa lançou-se de uma vez por todas na
estratégia de diversificação, tanto para o mercado interno como para
o externo. As novidades abrangem produtos elaborados e semi-elaborados.
As novas opções são produzidas com carne de alta digestibilidade e pouca
gordura.
Na linha fast food, a Aurora já comercializa três produtos: hambúguer,
almôndegas e quibes de carne bovina e abocanha uma participação de 6%
a 7% do mercado nacional. Isto graças à sua parceria com o Frigorífico
Bertin, de Lins (SP), que produz 242 toneladas mensais de carne industrializada
(80% de hambúrguer) totalmente destinada ao consumo interno. O diretor
comercial da Aurora, Oscar José Ghizzi, observa que o mercado de fast
food representa um importante segmento. Os produtos dessa linha são
uma excelente vitrina para qualquer marca. "É o mercado que mais
cresce no Brasil", constata.
Com a pretensão de abocanhar 10% desse nicho, a Aurora já ocupa a quinta
posição do mercado e anuncia para o ano que vem o lançamento de hambúrgueres
à base de carne de frango e de carne suína.
Gigantes
A Pif Paf Alimentos (MG) também investe pesado na diversificação da
carne de frango. O resultado é claro. A empresa espera faturar este
ano cerca de R$ 176 milhões R$ 66 milhões a mais que no ano passado.
Para isso, pretende alcançar a marca de 200 mil aves abatidas por dia
até dezembro. Deste total, 55% são de aves inteiras e cortes. O restante
é destinado à produção de industrializados como salsichas, marinados
e empanados, que compõem juntos um mix de 85 produtos. Até o final do
ano lançará no mercado sete itens nas linhas de marinados, semiprontos
e prontos.
O objetivo principal é lançar dois novos produtos a cada bimestre, até
agosto de 1999. Não é pouca coisa. "Estamos empenhados em transformar
a Pif Paf em uma das maiores avícolas do Brasil", explica o superintendente,
Luiz Carlos Mendes Costa. Todas essas novidades são fruto de um programa
de investimentos, prestes a ser concluído, que já soma R$ 34 milhões.
O programa engloba duas novas unidades: uma fábrica de rações e um frigorífico
(suínos) que serão inaugurados ainda em 1998.
Ultrapassando todas as fronteiras da produção de industrializados de
carne de frango, as maiores empresas do País colocam à disposição do
mercado nacional produtos semiprontos, de sabores requintados e preparo
rápido. Como se viu, a Pif Paf avisa que está se preparando para morder
um naco desse mercado. Por sua vez, a Perdigão, que já tem produtos
nessa área, lançou há pouco tempo a linha Cozinha Internacional, que
traz três opções de pratos prontos.
Peito de frango ao catupiry, peito de chester à parmeggiana e o steak
à suíça (peito e coxa de frango empanados com queijo e acompanhados
de molho branco) são algumas das novas tentações. O investimento já
oferece retorno. As vendas dos industrializados tiveram um aumento de
13,9% só no primeiro semestre, de acordo com os números apresentados.
A Sadia, outra megaempresa do setor, também possui sua linha de pratos
prontos, a Todo Sabor. São várias as opções: peito de frango à parmeggiana
e lazanha de frango ao molho de vegetais, por exemplo. Mas o lançamento
de novidades como essas não está ao alcance de qualquer agroindústria.
O volume de investimentos exigido é muito alto. Para se ter uma idéia,
a Sadia investiu R$ 86 milhões em 1997, dos quais 55% foram destinados
ao desenvolvimento de industrializados.
É neles que reside o foco principal do grupo. Os pratos prontos representam
hoje 5% dos produtos resfriados e congelados da marca.
Outras
áreas
Mas as gigantes não investem só em novos produtos para encarar a concorrência
estrangeira. Para citar um exemplo, a Perdigão aplicou este ano US$
4,2 milhões em dois projetos implantados na unidade de Videira (SC).
Um deles é o centro de tecnologia de carnes e o outro é a central de
armazenagem e distribuição. "Eles garantirão todo o suporte técnico
de mercado e de abastecimento à Perdigão", declara o vice-presidente
de operações da empresa, Carlos Alberto Gradin. O centro de tecnologia,
instalado numa área de 1630 metros quadrados, proporcionará atualização
tecnológica a novas tendências de mercado. Nesse sentido é fundamental
na estratégia de diversificação de produtos.
A principal atividade do centro será desenvolver produtos e embalagens.
Ele vai operar em sintonia com a diretoria de marketing. Nele vão trabalhar
cerca de 30 técnicos, cujas atividades serão divididas entre o dia-a-dia
dos laboratórios de análises físio-químicas, microbiológica, sensorial,
etc. Como se não bastasse, o centro ainda conta com uma planta-piloto
que reproduz todas as etapas de uma unidade industrial. Por sua vez,
a central de armazenagem e distribuição de Videira atenderá pequenos
e médios varejos localizados em 120 municípios do planalto serrano,
meio-oeste e oeste de Santa Catarina, e sudoeste do Paraná. A capacidade
estática de armazenagem será de 500 toneladas.
Carne
industrializada representa investimentos
Empresas investem em equipamentos e
novos produtos para saciar o mercado (investimentos em 1998)
| Nicolini |
US$
1,5 milhão |
| Predileto |
R$
530 mil |
| Sadia |
US$
86 milhões* |
| Pif
Paf |
R$
34 milhões** |
Fonte:
Dados fornecidos pelas próprias empresas
*1997
**Programa de investimentos prestes a ser concluído
Nossa
Língua Portuguesa
O Ministério da Agricultura e do Abastecimento anunciou em agosto
que, a partir de 1º de janeiro de 1999, todos os produtos importados
de origem animal deverão ter embalagens com rótulo, número de registro,
prazo de validade, especificações sobre a composição e instruções de
uso e armazenagem em português. Segundo o secretário de Defesa Agropecuária
do Ministério, Ênio Marques, essa norma já está sendo comunicada aos
países que exportam para o Brasil produtos de origem animal, tais como
carnes, queijo, leite, mel, embutidos e pratos prontos.
"Queremos que os consumidores possam saber e escolher o produto
que estão comprando", explica. Ainda de acordo com Marques, esse
tipo de exigência já é feita há anos por outros mercados, inclusive
os do Mercosul. "Estamos apenas nos adequando para elevar a nossa
posição no ranking mundial". Hoje, cerca de cinco mil empresas
de 50 países, principalmente da Europa, exportam aproximadamente mil
produtos de origem animal para o Brasil.
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