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Olhos: império dos sentidos
(Por: Roger Moko Yabiku)

"Olho por olho, dente por dente" é a frase que sintetiza a Lei de Talião, o fundamento do Código de Hamurabi, rei da Babilônia de 1728 a 1686 a.C. Significa que a vítima teria, em sinal de justiça, o direito a uma vingança equivalente ao mal que 1he foi imposto. Os olhos são as razões de diversas expressões populares porque carregam consigo o fardo da visão – o prisma dos sentidos de grande parte dos seres vivos na formulação e concepção dos desejos. São máquinas orgânicas derivadas de milhares de anos de aperfeiçoamento contínuo, cujas variedades são adaptações funcionais das necessidades das espécies que evoluíram no decorrer das eras. Apesar do grau de complexidade, os olhos não estão salvos dos desgastes e dos acidentes inerentes à vida.
 
Afinal de contas, o que são os olhos? São órgãos da visão que, por meio da refração dos raios luminosos e por fotorreceptores, traduzem a imagem, conceitua a professora Mirian Siliane B. Souza, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). "Suas principais partes são a córnea, a íris, a pupila, a retina, o cristalino, o humor aquoso e vítreo e a conjuntiva", complementa.
 
Vá um pouco mais além e imagine-os como uma câmera fotográfica, recomenda o médico veterinário Luciano Carneiro Filho. Associe a córnea à lente, a íris ao diafragma que controla a abertura (a pupila) e o cristalino ao foco. A retina desempenha a função do filme, "gravando" as imagens por intermédio da luz. Nas aves de rapina, os olhos agem como uma "mira eletrônica", devido a uma curvatura corneana associada a um ajuste de foco de alta precisão no cristalino e maior quantidade de células especializadas na retina. Algumas espécies de falcão são capazes de detectar suas presas por meio de um espectro de luz ultravioleta que identifica rastros fluorescentes das fezes e urina, conta.
 
As pupilas dos gatos, explica, possuem o formato de fenda, proporcionando melhor controle da luz – uma herança de seus ancestrais selvagens de hábitos noturnos. Os cães possuem pouca capacidade de acomodação (três dioptrias, que são as medidas universais de foco. Exemplo: uma dioptria = um metro; duas dioptrias = 50 centímetros), por isso suas curvaturas corneais são maiores e detêm maior número de células na retina especializadas em captação do movimento.
 
A visão binocular periférica dos herbívoros permite-lhes bisbilhotar o que ocorre ao seu redor enquanto se alimentam, uma propriedade útil ao seu papel de vítima na cadeia alimentar, segundo Carneiro. Por outro lado, seus predadores miram precisamente seu alvo com uma visão frontal binocular sofisticada. As pálpebras inferiores de alguns animais de sangue frio como os lagartos são mais móveis que as superiores e formam "óculos" para proteger a córnea, os "spetacles".

O Cotidiano
 
Geralmente, não há problemas com os bichos-pacientes durante as consultas oftalmológicas. Ganhar a confiança dos proprietários é a primeira coisa a ser feita, mesmo que signifique pedir sua ausência durante o atendimento. Um ambiente escuro é ideal para tranqüilizar o animal. Vale tudo – ou quase tudo – para conseguir que o paciente vire o globo ocular na direção do veterinário. Se o animal é ansioso, Carneiro dá uma dica: produzir ruídos para prender a atenção do animal. "Um oftalmologista veterinário experiente rivaliza com um condutor de charretes na produção de sons", brinca.
 
Mas quando as circunstâncias requerem, coloca-se uma mordaça no paciente. Em situações mais radicais, os enfermeiros fazem a contenção física, narra Mirian. O próximo passo é medir a quantidade de lágrimas e a pressão intra-ocular. Usa-se corantes (como a fluoresceína), lâmpada de fenda e fundoscopia. As demais técnicas diagnósticas são a dacriocistorinografia, a ultra-sonografia e até mesmo a tomografia computadorizada, acrescenta Jorge Pereira, presidente da Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais (Anclivepa-RJ), do Rio de Janeiro. Os exames relacionados à refração, ao contrário dos humanos, não são realizados nos animais. Os motivos são óbvios. Por acaso, alguém já viu cachorro usar óculos?
 
As cirurgias oftalmológicas em animais e seres humanos baseiam-se nas mesmas técnicas e suas diferenças estão nas particularidades anatômicas. Então, é necessário ter olho clínico. E muito. Desses procedimentos, um dos mais comuns é a correção da inversão palpebral (entrópio), diz Mirian.
 
Uma das técnicas mais bem sucedidas para tratamento de catarata é a facoemulsificação, introduzida na América do Sul por Pereira. Ao se formar, em 1981, valia-se das técnicas intracapsular e extracapsular tradicional em operações de catarata, na falta de alternativas melhores.
  
Sua desforra veio em 1993 quando comprou um aparelho de facoemulsificação. Desde então, só opera por esse método cirúrgico. A técnica, criada em 1967 por Charles Kelman para ser usada em humanos, foi recebida com ressalvas pela comunidade científica. A extracapsular tradicional já era eficaz. Então, por que mudar? Mesmo sendo um sucesso em humanos, tal técnica em veterinária é um elefante branco na contramão.
  
Sempre que submetidos as cirurgias intra-oculares, o olhos dos cães respondem com uma inflamação até 180 vezes maior que os de um humano. Numa técnica com excesso de manipulação nas estruturas intra-oculares por um período muito longo, até uma hora e meia, é de se imaginar que o olho responda com uma inflamação muito severa. Esses fatores criaram fantasmas nas cabeças dos clínicos e deixaram preconceitos, pois de cada dez cães operados com a técnica tradicional, seis tinham complicações pós-operatórias como as uveítes e os glaucomas severos. "A facoemulsificação mudou a história da catarata em veterinária", acentua Pereira. Neste procedimento que dura de três a seis minutos a incisão é pequena, a pressão intra-ocular permanece constante por toda cirurgia e não há necessidade de pontos.

Instrumentos e medicação
 
Um dos instrumentos fundamentais para o exame dos olhos é uma fonte de luz brilhante. Para os não especialistas, recomenda-se o transiluminador Finoff, da Welch Allen. Dos tonômetros para medir pressão intra-ocular, o mais usado é o da Schiotz. Uma versão mais cara é o Tonopen eletrônico. As lâmpadas de fenda estão disponíveis nas modalidades monocular ou binocular. Lupas simples com aumento de 2,5 vezes são baratas e fáceis de usar. Outros tipos podem ter um aumento de até seis vezes.
 
Nos exames brasileiros, as oftalmoscopias diretas são as mais incidentes. Os oftalmoscópios são ajustados conforme a estrutura ocular almejada. "As dioptrias negativas são adequadas para examinação do segmento posterior do olho, ao contrário das dioptrias positivas que devem ser utilizadas para a câmara anterior, córnea e outros", aponta Carneiro. No exterior, a fundoscopia é feita por meio da oftalmoscopia indireta – situação em que uma lente é posicionada entre o transiluminador e o objeto observado. Dessa forma, há maior margem de segurança, já que o clínico fica mais de 50 centímetros distante do paciente e, automaticamente, da sua boca repleta de dentes.
 
Na hora de receitar a medicação, mais uma revelação: 99% da farmacopéia utilizada no Brasil – colírios, pomadas ou gel – são oriundos da linha humana. A maior parte dos medicamentos é de administração tópica e, outras vezes, sistêmica ou subconjuntival. Bem pertinho, na Argentina, o Laboratório Love produz colírios para cães, gatos e cavalos há 20 anos. Deve-se prestar muita atenção pois o uso de medicação inadequada pode resultar em seqüelas irreversíveis ao olho, podendo implicar até na perda total da visão, comenta Mirian.
 
Uma boa alimentação também é fundamental para a boa manutenção da visão. Em 1992, Peter Bradford, do Royal Veterinary College (da Inglaterra), dirigiu um trabalho para comprovar que a retinose pigmentar, uma retinopatia degenerativa, era causada pela oxidação da retina. Com base nisso, uma empresa européia prometeu apresentar ao mercado uma ração terapêutica enriquecida com um complexo de fatores antioxidantes que, em tese, preveniria tal doença. "Isso foi comprovado e publicado. Mas o produto ainda não foi lançado", diz Pereira. Nos gatos, a deficiência em taurina é um condicionante de uma determinada lesão de retina. "Por causa disso, sou totalmente favorável às rações terapêuticas", defende.

Especialização
 
Para Carneiro, a especialização se deu via aeroporto. Quer dizer, no começo da década de 80 os que se embrenhavam no ramo da oftalmologia veterinária eram basicamente autodidatas que buscavam informações no exterior. Sua motivação inicial foi o desafio no tratamento de cataratas. "Ingenuamente, acreditava que a oftalmologia se restringia a isso, um enorme engano". Apaixonou-se pelo assunto e fez um estágio no serviço de oftalmologia veterinária, sob tutela de Dennis Brooks, no hospital de pequenos animais da Universidade da Flórida (Estados Unidos), e hoje é um dos poucos brasileiros a aplicar a técnica de facoemulsificação em animais.
 
De volta ao Brasil, conseguiu uma vaga num serviço inédito de oftalmologia no maior hospital particular do Rio de Janeiro (RJ), o Inpa, em Copacabana. Essa experiência serviu de base para Carneiro escrever o Manual de Oftalmologia Veterinária, da Editora Roca, um dos primeiros do tipo no Brasil, que se dispõe a ajudar os clínicos a estabelecer diagnósticos e propor tratamentos. No ramo acadêmico, cita alguns nomes de destaque; Paulo de Barros, da Universidade de São Paulo (USP), José Luiz Laus, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e Felipe Wouk, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
 
No caso de Pereira, o interesse por oftalmologia surgiu devido a uma circunstância particular. Sua mãe teve uma retinopatia diabética que 1he provocava uma incomoda coceira no fundo dos olhos e 1he tirava lentamente a visão. À medida em que os especialistas diziam que não havia mais jeito, Pereira se aprofundava no assunto.
 
Logo que se formou, freqüentou como residente o departamento de oftalmologia do Hospital das Clínicas de Teresópolis (RJ), por três anos. "Tive que aprender com oftalmologistas humanos". Em 1990, Pereira fez um curso de pós-graduação em oftalmologia no Animal Medical Center, em Nova Iorque (Estados Unidos) e aprendeu a técnica de facoemulsificação com veterinários. "Adquiri muitos conhecimentos sobre as particularidades dos olhos de animais".
 
No início de sua vida profissional, praticou a clínica geral paralelamente à oftalmologia. Hoje, aos 18 anos de carreira, Pereira dedica-se exclusivamente a sua especialidade, enquanto seis colegas encarregam-se dos procedimentos de clínica e cirurgia geral no seu hospital em Teresópolis, o Centro de Estudo, Pesquisa e Oftalmologia Veterinária (Cepov), no qual orienta um estágio em oftalmologia veterinária, com certificado.
 
A popularização dos serviços dos oftalmologistas veterinários depende dos clínicos, dispara Carneiro. Em seu raciocínio, o cliente de hoje tem a noção de que um profissional sozinho, por melhor e mais talentoso que seja, não domina todas as áreas da medicina veterinária. "Recomendar o serviço de um especialista mostra que o clínico quer o melhor tratamento possível para o paciente", argumenta.
 
Acostumado a assistir cirurgias em humanos no mundo inteiro, Pereira conclui que, se um dia necessário, opera seus olhos no Brasil. "Nossos profissionais equivalem aos do exterior". Porém, os números fazem a diferença. Alguns hospitais em Los Angeles, diz, possuem um microscópio e um facoemulsificador com recurso de vitrectomia posterior em cada sala de operação. No Brasil, cada exemplar serve para o hospital inteiro.
 
Estima-se que haja aproximadamente 400 oftalmologistas veterinários membros de diversos colegiados do planeta, que se encontram anualmente no encontro do American College of Veterinary Ophthalmology (ACVO), relata Pereira. A especialidade está começando no Brasil e desperta interesses, pois nos cursos de oftalmologia, há cerca de 300 participantes por evento. Por outro lado, o Colégio Brasileiro de Oftalmologia Veterinária (CBOV) tem apenas 17 membros, mostrando que ainda há muito a crescer. "Acho que há umas 50 pessoas praticando oftalmologia veterinária no País".
 
O mercado existe mas precisa ser garimpado, enfatiza Mirian, que desenvolve um projeto de extensão em oftalmologia em pequenos animais na UEL. Ter um objetivo definido também ajuda. Ela iniciou-se no assunto ainda na graduação, com trabalhos científicos. Fez residência na Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Jaboticabal (SP), onde realizou pesquisas e acompanhou o serviço de oftalmologia. E o seu mestrado, também feito lá, foi novamente sobre sua especialidade.
 
As vivências de Mirian e outros profissionais comprovam a afirmação de Pereira: "Aquele que estuda e procura manter-se atualizado tendo sempre em vista a ética conquista o seu espaço. É importante estar pelo menos um pouco acima da média. Na média, reside o medíocre".

FONTE:
Revista Cães & Gatos – Número 82 – Ano 14 – Mai/Jun/1999
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