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Introdução
Piodermite pode ser definida como condição infecciosa, produtora
de pus (ou piogênica), de origem bacteriana que acomete o tegumento
em qualquer nível de profundidade.
A despeito dessa simples definição, trata-se de um grupo de doenças
que freqüentemente são diagnosticadas incorretamente na prática clínica.
A extrema variabilidade de apresentação clínica, com lesões ora localizadas
ou ora generalizadas, superficiais ou profundas, a dificuldade em se
observar pústulas devido tanto ao auto-trauma como a presença de pústulas
microscópicas, a pouca espessura epidérmica (levando ao rompimento precoce
das lesões), o conhecimento incompleto sobre a etiologia e patogênese,
respondem em parte pelo insucesso observado.
Para complicar um pouco mais, existem várias afecções cutâneas não bacterianas
que também podem resultar na presença de pústulas como por exemplo a
sarna demodécica e a dermatofitose. Doenças autoimunes ou imunemediadas
citando aqui o pênfigo foliáceo e a dermatose pustular subcorneal também
produzem pústulas. O clínico pode, ainda que reconhecendo o quadro piogênico,
subestima-lo em relação a alguma enfermidade de base prontamente identificável
e não ministrar a merecida atenção terapêutica.
Assim a dificuldade no diagnóstico associada uma abordagem pouco técnica
e compreensiva a respeito das drogas e esquemas terapêuticos, fazem
com que existam muitas falhas no tratamento das piodermites.
Mesmo com a escassez de estudos epidemiológicos sobre a prevalência
de doenças nos outros sistemas orgânicos é geralmente aceito que as
dermatopatias encabeçam a lista dos problemas, respondendo por 20% a
75% dos casos atendidos na prática clínica de pequenos animais. Considerando
as doenças de pele em cães, as infecções bacterianas estão indubitavelmente
entre as mais observadas, engendrando por vezes notáveis dificuldades
de manejo para o clínico.
As infecções cutâneas podem ser tratadas topicamente, sistemicamente,
cirurgicamente ou por alguma combinação dessas formas. Os agentes antibacterianos
tópicos atuam geralmente como adjuvantes à terapia sistêmica, acelerando
a resposta terapêutica ou mesmo impedindo as recorrências.
Os agentes antibacterianos sistêmicos, como grupo de drogas, estão entre
as mais usadas e abusadas na medicina de pequenos animais, havendo com
relativa freqüência equívocos de escolha, dose, intervalo de administração,
tempo de uso e efeitos colaterais esperados.
Esse artigo, no seu objetivo, discute as principais drogas antimicrobianas
utilizadas para o tratamento sistêmico das piodermites, oferecendo previamente
uma sucinta revisão sobre a etiopatogênia, diagnóstico e classificação
sem no entanto adentrar na descrição dos sinais clínicos.
Etiopatogênese
Até o início dos anos 80, o principal patógeno cutâneo isolado a
partir de lesões piogênicas das dermatites na espécie canina era o Staphylococcus
aureus. Entretanto, já na segunda metade da década de setenta, baseado
em estudos taxonômicos, uma nova espécie de estafilococos coagulase
positivo foi isolada a partir da pele de várias espécies animais incluindo
o cão: o Staphylococcus intermedius. Alguns anos após,
vários estudos confirmaram a posição do Staphylococcus intermedius
como o principal patógeno isolado das piodermites caninas.
Embora não exista dúvida da predominância desses microrganismos nos
isolados das piodermites, observando até mesmo a recomendação de se
repetir o procedimento de cultura caso o exame resulte negativo para
os estafilococos é vero que outros gêneros , principalmente o Proteus
mirablis, Pseudomonas sp, Streptococcuss sp, entre
outros, podem complicar a infecção cutânea, mesmo como invasores secundários.
Tal ocorrência torna-se maior nas infecções que atingem profundamente
o tegumento.
Hoje, fundamenta-se no conceito de que a infecção pelo S. intermedius
cria um microambiente favorável à invasão tecidual por bactérias gram
negativas.
A microflora da pele canina é composta tanto de bactérias residentes
como transitórias. Entende-se por bactérias residentes aquelas que se
multiplicam na superfície da pele e nos folículos pilosos, mantendo
uma população constante e consistente, sendo portanto considerados comensais
inofensivos. As bactérias transitórias se instalam na pele, oriundas
das membranas mucosas ou do meio ambiente e que sob condições normais
não podem competir com a população residente, no intuito de assegurar
um nicho ecológico.
Os microrganismos cutâneos residentes são o Micrococcus sp, estreptococos
a hemolítico, estafilococos coagulase negativo e Acinetobacter sp.
É possível que o Propionibacterium sp esteja também incluído
na lista, mas não o Clostridium perfrigens.
A participação dos estafilococos coagulase positivo como microrganismos
residentes ainda permanece um assunto controverso. A análise de vários
estudos qualitativos e quantitativos, sobre a microflora bacteriana
na pele e no manto piloso de cães sugere que o S. intermedius
seja provavelmente um contaminante no pêlo de cães normais ou alternativamente,
um contaminante ou microrganismo transitório ao invés de residente na
pele de cães normais. O S. intermedius são isolados com maior
regularidade das junções mucocutâneas (anal, oral e nasal), funcionando
esses locais como reservatórios para a disseminação cutânea e aqui devem
ser considerados como residentes.
Interessante observar que esses microrganismos residentes são submetidos
e sofrem controle de vários fatores que compõe o chamado microambiente
cutâneo. Esses fatores de natureza física, química, imunológica e microbiológica
funcionam em um sistema integrado de fino ajuste, modulando a densidade
da população bacteriana. Os principais desses fatores na pele dos mamíferos
são: temperatura e umidade, proteínas de superfície (imunoglobulinas,
transferrinas e componentes do sistema complemento), lipídios de superfície
(ácido linoleico e outros ácidos graxos essenciais), eletrólitos de
superfície (ions orgânicos e inorgânicos), pH da superfície cutânea
e outros constituintes de superfície (creatinina, glicose e ácido láctico).
Na pele saudável existe uma relação estável, de equilíbrio, entre os
microrganismos comensais e o hospedeiro. As interações entre os comensais
envolve benefício mútuo favorecendo a sobrevivência desses microrganismos.
Tem sido experimentalmente demonstrado a produção de bacteriocinas e
antibióticos que inibem o crescimento de eventuais patógenos cutâneos.
Postula-se também que exista, nas bactérias não produtoras de antibióticos,
outros mecanismos competitivos.
No lado reverso, os estafilococos produzem fatores que conferem virulência.
A cápsula bacteriana possui propriedades antifagocíticas. Embora não
tão bem estudado como o S. aureus, o S. intermedius parece
possuir constituintes e exotoxinas de efeito nocivo. Mesmo sendo ainda
assunto controverso, existem evidências que o S. intermedius
produz proteína A. A proteína A possui propriedades antifagocíticas,
ativa o complemento, induz reações de hipersensibilidade e é quimiotáctico
para neutrófilos. Leucocidinas, hemolisinas e toxina epidermolítica,
as conhecidas exotoxinas estafilocócicas, podem também ser importantes,
mas seus papéis não são ainda conhecidos na espécie canina.
Nenhuma diferença foi notada na comparação dos perfis de toxinas de
amostras de S. intermedius provenientes da pele de cães hígidos
e de cães com piodermite. Em vista disso, os fatores inerentes ao animal
e seus mecanismos de defesa parecem ser mais importantes que os fatores
microbiológicos no tocante à evolução do quadro piogênico.
A resposta do hospedeiro à infecção pode ser benéfica ou levar a alguns
efeitos prejudiciais. Vale frisar que o animal possui alguns mecanismos
de defesa que impedem a invasão e a colonização bacteriana. A descamação
do epitélio, a camada lipídica epidérmica intercelular, a proliferação
epitelial em resposta à agressão, os efeitos antibacterianos dos sais
inorgânicos do sebo cutâneo e do suor apócrino são todos reconhecidos
mecanismos de defesa. Além desses, existe o sistema imume cutâneo; o
tecido linfóide associado à pele (SALT) que envolve a participação das
imunoglobulinas (IgA, IgM, IgG), das células de defesa (linfócitos,
plasmócitos, células dendríticas, mastócitos e células endoteliais)
e de outras proteínas ativas de superfície.
Em contrapartida, algumas reações podem ser danosas. Recentemente tem
sido investigado os denominados superantígenos na patogênese das piodermites.
Esses potentes antígenos bacterianos induzem a liberação do fator de
necrose tumoral (TNF) e de interleucina 6. As ações inflamatórias do
TNF são bem conhecidas e incluem ativação endotelial, agregação e aumento
da atividade neutrofílica e liberação de enzimas proteolíticas das células
mesenquimais, tudo contribuindo para a lesão tissular6. Adicionalmente
tem se valorizado também a hipersensibilidade bacteriana como amplificador
da sintomatologia de piodermite principalmente em animais atópicos.
É um conceito bem aceito que as piodermites ocorrem como fenômeno secundário
a vários outros distúrbios, destacando assim as ectoparasitoses, desordens
de hipersensibilidade (p.ex. dermatite alérgica a pulga, alergia alimentar
e atopia), endocrinopatias e distúrbios metabólicos (p.ex. hipotiroidismo,
hiperadrenocorticismo, diabetes melitus), desordens de ceratinização
e distúrbios imunológicos20,22. No entanto, a melhor documentação
sobre a ocorrência secundária das piodermites é encontrada para os processos
alérgicos e as desordens de ceratinização.
Nestas duas categorias de doenças verificou-se maior densidade de estafilococos
patogênicos tanto na pele lesional como na íntegra. Assim, com a evolução
do conhecimento, a tendência é haver uma diminuição dos diagnósticos
de piodermites primárias e/ou idiopáticas, enquanto eleva-se a identificação
das piodermites secundárias.
Em tese, virtualmente qualquer dermatose pode ser complicada com infecção
bacteriana secundária, podendo a lista ser ampliada e incluir o manejo
higiênico inadequado da pele e pelagem, condições pruriginosas e inflamações
de qualquer etiologia, o uso abusivo de glicocorticóides e as diversas
afecções das estruturas anexiais, principalmente dos folículos pilosos.
Curiosamente, as infecções bacterianas da pele parecem ser relativamente
incomuns nas desordens autoimunes. Uma possível explicação é a alta
concentração cutânea de citocinas com atividade antimicrobiana.
A espécie canina é notavelmente mais sensível às dermatites piogênicas
do que a felina, eqüina, bovina e a humana. A razão para isso é ainda
desconhecida. As possíveis causas incluem uma esparsa camada lipídica
intercelular epidérmica, pH elevado da pele, a ausência de um rolhão
escamoso-lipídico no óstio folicular e um estrato córneo não muito compacto.
Felizmente, em circunstâncias normais o homem não apresenta grandes
riscos de se contaminar a partir infecções bacterianas da pele canina,
possivelmente porque o patógeno incriminado na maior parte dos casos
é o S. intermedius. A exceção existe para os acidentes por mordedura.
Devido ao fato de se isolar o S. intermedius da cavidade oral
de cães bem como das feridas humanas infligidas por cães, existe uma
preocupação real do contato de cães doentes com pessoas imunossuprimidas.
Recomenda-se que essas pessoas devem procurar orientação médica sempre
que mordidos ou arranhados por algum animal.
Além disso, há a possibilidade da intoxicação alimentar através de enterotoxinas
produzidas pelo S. intermedius.
Diagnóstico
Muitas doenças podem imitar ou predispor aos quadros de piodermite.
Foge ao objetivo desse artigo discutir sobre os diagnósticos diferenciais
dos quadros piogênicos, tendo o leitor acesso a essas informações na
bibliografia referida 5.
Indiscutivelmente uma história clínica bem tirada e um detalhado exame
físico constituem os mais importantes passos para o correto diagnóstico
dermatológico.
Nesse sentido é pertinente o conhecimento da raça, idade e sexo do animal,
manejo higiênico e dietético, descrição do ambiente, viagens, presença
de prurido e suas características, presença de ectoparasitos, tratamentos
prescritos e seus resultados, condição dos contactantes humanos e animais,
sazonalidade, padrão de distribuição das lesões, reconhecimento e interpretação
precisa das lesões primárias e secundárias, entre outras informações
úteis de acordo com o caso.
Por exemplo, pústulas interfoliculares na região glabra abdominal de
um cão de três meses de idade é a marca registrada da dermatite pustular
superfícial ou impetigo que tipicamente acomete cães jovens. Da mesma
forma, pústulas das quais emergem pêlos de seus respectivos centros,
direcionam para um quadro piodérmico de origem folicular.
Decerto, alguns exames de laboratório são muito importantes e na opinião
dos autores, praticamente mandatórios, mesmo porque são de baixo de
custo e de utilidade inequívoca. Esses testes além permitir o diagnóstico
de piodermite, podem também levar ao conhecimento da condição predisponente.
Os exames geralmente realizados são o raspado de pele, o exame citológico,
cultura fúngica e a biópsia de pele.
Raspado de Pele
O raspado de pele justifica-se porque a sarna demodécica pode
se apresentar clinicamente como piodermite e mais ainda, pode ser complicada
por notável infecção bacteriana. Todo animal que apresente uma dermatose
deve ser raspado e investigado para a presença de ácaros. A presença
de sarna demodécica deve ser suspeitada especialmente em lesões pápulo-pustulares,
com ou sem a formação de comedos, não importando a região afetada. Os
rapados negativos obtidos de lesões podais devem ser interpretados com
certa reserva, pois pode ser difícil recolher amostras representativas
nessas regiões devido à fibrose ou excessiva friabilidade tecidual.
Cultura Fúngica
A dermatofitose pode ser clinicamente muito variável, imitando
muitas condições cutâneas. Juntamente com o Demodex canis, e
o S. intermedius, os dermatófitos são os principais causadores
de foliculites na espécie canina, assim o descarte de infecção dermatofitíca
é fundamental quando se investiga a etiologia de qualquer foliculopatia.
O exame tricográfico também é útil, podendo revelar estruturas fúngicas
em pêlos bem selecionados.
Exame Citológico
Este é considerado o procedimento complementar no diagnóstico
dermatológico, com a menor relação custo/benefício, fornecendo valiosas
informações, consumindo pouco tempo e material para ser executado. Para
os casos de piodermites o material pode ser obtido de pústulas íntegras
ou de trajetos drenantes. Na rotina emprega-se normalmente os corantes
tipo Romanowsky e de coloração rápida (ex. Panotic), no entanto outros
métodos como Leishman ou Giemsa são também apropriados. Essas colorações
oferecem a vantagem do exame da celularidade, bem como de microrganismos.
Nas condições de campo as colorações especiais (p. ex. Gram e PAS) não
são práticas e provem poucos benefícios adicionais. A coloração pelo
novo azul de metileno permite a montagem da lâmina sem a prévia fixação
do material. Essa técnica oferece a vantagem de eliminar a lavagem da
lâmina durante a coloração. Outra diferença observada entre as colorações
rápidas e a supra vital (novo azul de metileno) está na qualidade da
visualização nuclear e citoplasmática. As colorações tipo Romanowsky
permitem melhor visualização citoplasmática, sendo portanto mais indicadas
em processos de natureza inflamatória.
A presença de bactérias livres, não fagocitadas e de neutrófilos íntegros
favorecem o diagnóstico de colonização ao invés de infecção. Nesta última
observamos bactérias fagocitadas e neutrófilos degenerados.
Biópisa de Pele
A biópsia de pele pode ser útil para o diagnóstico das piodermites.
Quanto mais se biopsia, mais se faz diagnóstico de piodermites mesmo
quando essa não é suspeitada, dada a grande frequência dessa enfermidade.
O auxílio da biópsia não se limita apenas ao diagnóstico da condição
infecciosa, mais importante talvez, seja o reconhecimento do processo
de base que predispõe à infecção. Por essa razão e também pelo fato
de que com alguma experiência, é relativamente fácil chegar ao diagnóstico
clínico de uma piodermite, aconselha-se primeiro tratar o quadro infeccioso
para depois biopsiar o animal. Essa conduta facilita a identificação
do problema de base, uma vez que as alterações histopatológicas da infecção
piodérmica usualmente ofuscam as mudanças das condições predisponentes.
Assim, ao examinar um corte de pele proveniente de piodermite, deve-se
prestar atenção nas informações das "entrelinhas". O resultado
de biópsia é maximizado quando observados alguns critérios importantes:
tempo de evolução da lesão a ser biopsiada - natureza da lesão: primária
x secundária técnica de biópisa utilizada a quem enviar a amostra cutânea.
Pouco adianta se uma lesão bem selecionada e coletada com técnica adequada
não for enviada a um dermatopatologista veterinário experiente. Os resultados
podem ser frustrantes.
Os achados histopatológicos na piodermite canina foram recentemente
descritos.
Cultura bacteriana, Antibiograma e Patologia Clínica
A cultura e sensibilidade bacteriana são excessivamente usadas
para as infecções superficiais e pouco utilizadas para as profundas.
Esses testes estão indicados para as infecções mistas e profundas, quando
a antibioticoterapia planejada falhar na obtenção do resultado desejado,
quando os glicocorticóides foram administrados recentemente ou em casos
recorrentes. Vale apontar que os bastonetes Gram negativos são imprevisíveis
no tocante à sensibilidade antibiótica e devem ser testados sempre que
observados no exame citológico. Os resultados do teste são mais confiáveis
quando se utilizam pápulas, pústulas ou nódulos íntegros para obtenção
do material. Entretanto, nas piodermites profundas, quando não existirem
lesões íntegras, o material pode ser coletado de trajetos drenantes,
desde que as crostas sejam removidas e a superfície higienizada, diminuindo
assim a população de bactérias contaminantes. Alternativamente, a biópsia
de pele também pode ser usada para essa finalidade. Qualquer que seja
a forma de se coletar o material, deve-se sempre cortar o pelo da região
afetada, para diminuir a possibilidade de contaminação da amostra. Apesar
do reconhecido benefício dos testes de sensibilidade, esses não precisam
ser feitos na maioria dos casos de piodermite, ficando geralmente o
julgamento clínico e a apreciação citológica como instrumentos suficientes
para o norteio terapêutico.
Infelizmente os exames para avaliação da imunocompetência são ainda
apenas disponíveis nos laboratórios de pesquisa, são caros e cada um
revela apenas uma ou poucas facetas do que se constitui o complexo integrativo
da resposta imunológica. O clínico, no entanto, pode ter uma visão grosseira
através do hemograma e proteinograma. O cão imunologicamente normal,
sofrendo de piodermite deveria demonstrar leucocitose com neutrofilia
e contagens linfocíticas maiores que a 1000 a 1500 cels/m l de sangue.
Uma linfopenia persistente pode indicar disfunção linfocitária.
Da mesma forma, o perfil eletroforético em um cão imunologicamente normal
deveria mostrar um aumento das frações b e g .
Classificação das Piodermites
A despeito das várias classificações existentes, o esquema que considera
a profundidade da infecção (tabela 1) parece ser o mais útil do ponto
de vista clínico, porque permite inferências terapêuticas e prognósticas.
Quanto maior a profundidade da infecção, maior deverá ser o empenho
terapêutico e o esforço para se descobrir a doença de base. Genericamente,
as infecções de superfície exigem apenas o tratamento tópico, enquanto
que as infecções superficiais e as profundas requerem uma abordagem
sistêmica somada à tópica.
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TABELA
1- CLASSIFICAÇÃO DAS PIODERMITES DE ACORDO COM A PROFUNDIDADE
DA INFECÇÃO
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PIODERMITES
DE SUPERFÍCIE
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Dermatite
úmida aguda
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Piodermite
das Dobras Cutâneas
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Intertrigo
das pregas labiais
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Intertrigo
das dobras faciais
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Intertrigo
da dobra da cauda e prega vulvar
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Intertrigo
do cão obeso
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Piodermite
mucocutânea
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PIODERMITES
SUPERFICIAIS
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Impetigo
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Folículite
superficial
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Piodermite
superficial extensiva
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PIODERMITES
PROFUNDAS
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Foliculite
bacteriana profunda e furunculose
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Folículite
e furunculose mentoniana (acne canina)
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Folículite
piotraumática
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Foliculite
e furunculose podal (pododermatite)
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Piodermite
dos calos de apoio
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Piodermite
do Pastor Alemão
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Celulite
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DOENÇAS
PREVIAMENTE CLASSIFICADAS COMO PIODERMITE
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Celulite
juvenil
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Hidradenite
supurativa (provalvemente tratavam-se de casos de penfigóide
bolhoso ou dermatose ulcerativa do Collie ou Shetland Sheepdog)
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Terapia Antimicrobiana Sistêmica
Como já mencionado, o sucesso da terapia depende fundamentalmente
do reconhecimento e eliminação do processo de base. A permanência da
causa subjacente resultara em resposta terapêutica inadequada ou recorrência
após o término do tratamento.
O tratamento tópico quase sempre está indicado e possui várias propriedades
benéficas, como promover a drenagem e a reepitelização apenas para citar
alguns. No entanto, essa forma de tratamento é insuficiente, necessitando
de apoio sistêmico na maioria das infecções cutâneas, mesmo porque a
profundidade e extensão das lesões, bem como a cooperação e entendimento
do proprietário constituem, não raramente, condições limitantes.
Embora variações regionais, ao longo do tempo, são e vem sendo observadas
a respeito da sensibilidade antimicrobiana do Staphylococcus intermedius,
a maioria dos estudos demonstram previsibilidade e estabilidade
a esse respeito. Determinantes importantes a serem considerados na terapia
antimicrobiana sistêmica incluem a escolha apropriada do antibiótico,
uso da dose e freqüências corretas de administração e manutenção do
tempo adequado de tratamento. Tecnicamente o antibiótico ideal deve
ser efetivo contra S. intermedius, comprovadamente funcionar
nos casos de piodermites, possuir um estreito espectro de ação (menor
ação contra a flora intestinal e a cutânea residente), ser de baixo
custo, de alta absorção intestinal, levar a poucos efeitos colaterais
e ser de fácil administração.
A escolha do antibiótico pode ser feita empiricamente ou através do
teste de sensibilidade. Em geral, os antibióticos que constituem boa
escolha empírica são os mesmos apontados pelos testes de sensibilidade
antimicrobiana. Para a maioria dos casos de infecção superficial, que
não foram tratados previamente e cuja previsão é de não ultrapassar
três semanas de terapia, o teste não apresenta boa relação custo/benefício.
O mesmo não vale para animais de grande porte ou gigantes (o teste pode
indicar como efetivo um antibiótico de baixo custo), que apresentam
infecções recorrentes ou exibam importante piodermite profunda. Nessas
situações o antibiograma está indicado, mesmo existindo controvérsias
sobre a correlação dos resultados "in vitro" e a resposta
clínica.
Quando um único antibiótico não pode cobrir todos os agentes microbianos
de um dado exame, deve-se escolher o antibiótico que atue sobre o S.
intermedius, pois este microrganismo desenvolve um microambiente
favorável à multiplicação de outros patógenos cutâneos.
Embora poucos estudos indiquem a vantagem das drogas bactericidas sobre
as bacteriostáticas em um animal imunocompetente, existe um consenso
que as primeiras devam ser usadas nos casos de piodermite profunda ou
na suspeita de um animal imunossuprimido.
Todo o animal deve ser pesado antes do início do tratamento, pois sem
essa precaução os animais de raça grande tendem a ser subestimados,
enquanto que os de raça pequena, superestimados em relação à dose da
droga.
Nas infecções de pele o arredondamento da dose deve preferencialmente
ser para cima. Alguns dermatologistas, argumentando a dificuldade da
ação antibiótica no tegumento lesado, tem preconizado dobrar a dose
usualmente recomendada para o tratamento das piodermites, especialmente
as profundas. Nestas, a reação piogranulomatosa que se forma em resposta
ao agente microbiano, bem como aos restos epiteliais, fragmentos de
pêlos e ceratina, impedem a boa penetração do antibiótico no foco infeccioso.
Além disso, alguns antibióticos podem ser inativados pelos produtos
da inflamação, como o pús.
Outros investigadores apenas recomendam o aumento da dose, quando o
animal não responder completamente à dose recomendada. O aumento desnecessário
da dose da droga encarece o tratamento e eleva as chances de ocorrer
os indesejáveis efeitos colaterais. Parece razoável assumir, que a dose
de antibiótico utilizada nunca deva ser menor que a preconizada, aumentando-a
ou não de acordo com as condições do caso em questão.
O tratamento deve durar o suficiente para liquidar completamente a infecção
e não apenas levar à cura aparente, devendo o animal ser monitorado
para isso. A interrupção prematura da antibioticoterapia sistêmica tem
sido apontada como a principal causa de recorrência das infecções cutâneas.
Cada animal responde diferentemente, e portanto o tratamento deve ser
individualizado. O reexame clínico frequente é a melhor conduta de avaliação
terapêutica ao invés de apenas se fixar em tempos de tratamento predeterminados
e confiar nas observações e impressões dos proprietários. O clínico
é que deve decidir sobre a interrupção ou não do tratamento.
As lesões de pele cicatrizam mais rápido na superfície, mas os focos
infecciosos podem continuar ativos na profundidade. Dessa forma é muito
importante palpar meticulosamente o tegumento, buscando as mais discretas
infiltrações, ao invés de se basear somente na inspeção. Qualquer indício
de inflamação requer a continuidade do tratamento até o seu desaparecimento,
mesmo que o regime terapêutico pareça excessivamente extenso.
Eventualmente uma lesão crônica e profunda torna-se fibrótica e espessa,
não havendo mais possibilidade de reversão ao tecido normal; essa alteração
é mais comumente observada nas lesões podais. Geralmente as piodermites
superficiais são tratadas por uma semana além da cura clínica, enquanto
que as piodermites profundas são medicadas por duas a três semanas após
a cura aparente. Nesse aspecto, não é raro existir tratamentos longos
ultrapassando 12 semanas de duração.
A
escolha do antibiótico
Muito da preferência pessoal, entre os dermatologistas, influência
a escolha desse ou daquele antibiótico para uma piodermite profunda
ou superficial, mas a despeito dessa "personalização" os antibióticos
empregados são geralmente os mesmos.
Com pouca variação, também agrupando nossas preferências e experiências
pessoais, a eritromicina, lincomicina, clindamicina e sulfametoxazole-trimetoprim
são utilizadas para infecções superficiais, não complicadas e não tratadas
anteriormente. A cefalexina, cefadroxil, oxacilina, enrofloxacina e
amoxilina/ácido clavulânico são empregadas para as infecções recorrentes,
crônicas, profundas e já previamente tratadas. Para as infecções onde
necessita-se de um grande poder de penetração antibiótica, a cefalexina
e a enrofloxacina são as melhores escolhas.
A penicilina, amoxicilina e ampicilina são inativadas pela b lactamase
e a tetraciclina possui pouca atividade contra o S. intermedius,
possuindo essas drogas pouca indicação para o tratamento das piodermites
na espécie canina. Entretanto, a ampicilina e a amoxicilina são indicadas
para os abscessos na espécie felina cujo agente etiológico é geralmente
a Pasteurela sp. A penicilina é a droga de escolha para o Actinomyces
sp, e a tetraciclina é a droga de escolha para micoplasma e bactérias
L, microrganismos estes que podem eventualmente causar infecções cutâneas.
A seguir encontram-se alguns comentários específicos sobre alguns dos
antibióticos mais indicados para o tratamento das piodermites.
Macrolideos.
Esses antibióticos inibem a síntese de proteína, ligando-se reversivelmente
à subunidade 50S do ribossomo. Incluem-se nessa classe a eritromicina
e a tilosina.
Eritromicina
- Trata-se de um bom antibiótico (bacteriostático) para as infecções
superficiais não complicadas, possuindo baixo custo e estreito espectro
de ação. No entanto, pode causar vômitos e diarréias. Outra desvantagem
é a necessidade da administração três vezes ao dia. O uso prévio de
antibióticos aumenta a resistência bacteriana a esse antibiótico. É
metabolizado e excretado pelo fígado, podendo assim ser usado em pacientes
com função renal prejudicada. Hepatotoxicidade (hepatite colestática)
e ototoxicidade podem também ocorrer. Um dos autores (LGC) tem conhecimento
de um caso de hepatotoxicidade aguda, com evolução fatal em um cão tratado
com eritromicina. Observa-se resistência cruzada entre a eritromicina
e antibióticos macrolideos – símiles como a lincomicina e a clindamicina.
Dessa forma, resistência a um desses antibióticos exclui o uso dos outros.
Lincosamidas
- Possuem atividade, espectro de ação e sensibilidade similares
aos macrolídeos. O principal representante é a lincomicina. É um antibiótico
efetivo, mais caro que a eritromicina, entretanto os efeitos colaterais
ocorrem com menor frequencia, podendo ser administrado a cada 12 horas,
mas com o estômago vazio (alimento diminui a absorção da droga). Estudos
tem demonstrado que a droga se distribui para a epiderme, haste pilosa
e glândula sebácea. A dose deve ser reduzida nos casos de insuficiência
renal ou hepática. É metabolizado pelo fígado, excretado pela bile e
também na urina.
Clindamicina
– É um antibiótico semi sintético derivado da lincomicina. Possui menos
efeitos colaterais, maior penetração tecidual (inclusive em fagócitos),
mas o custo pode ser proibitivo. Devido à sua ação contra anaeróbios,
possui indicação também para infecções da cavidade oral.
Sulfonamidas
Potencializadas. As sulfas quando potencializadas com trimetoprim
ou ormetropim possuem atividade bactericida, inibindo sinérgicamente,
em duas etapas, a síntese bacteriana de ácido fólico. As sulfonamidas
– trimetoprim são eliminadas, como maior parte (60% a 80%), inalteradas
pelo rim e em menor escala pelo fígado, portanto a dose deve ser reduzida
em disfunções renais e hepáticas. Essas drogas tem exibido boa eficácia
nas piodermites, apresentando como vantagem a administração a cada 12
horas e o baixo custo. Uma grande preocupação tem sido as erupções medicamentosas
que aparentemente são mais freqüentes com o uso de sulfas do que com
outros antibióticos. As reações mais notadas são o eritema multiforme,
erupções papulares e necrólise epidérmica tóxica. Das alterações não
dermatológicas cita-se a ceratoconjuntivite seca. Um alto índice de
efeitos colatareis são também notados nos Dobermans, porque apresentam
uma deficiência na metabolização da sulfonamida-hidroxilamina. Nessa
raça, em animais geneticamente predispostos, pode ocorrer quadro de
artrite não séptica conseqüente à deposição de imunocomplexos. Por essas
razões é prudente evitar o uso de sulfonamidas nos cães da raça Doberman.
Penicilinas
b lactamases resistentes. As penicilinas inibem a síntese
da parede bacteriana, sendo o anel b lactâmico um componente estrutural
central para a atividade antimicrobiana. Como sabemos, o S. intermedius
produz penicilinase que rompe a estrutura desse anel. Com isso, apenas
as penicilinas resistentes a essa enzima estão indicadas no uso em piodermites.
A oxacilina é bactericida, muito efetiva, com estreito espectro de ação
e poucos efeitos colaterais (vômitos ocasionais são os mais vistos).
Sua presença tem sido inconstante no mercado nacional, é relativamente
cara e exige administração a cada oito horas, com o estômago vazio.
A amoxicilina potencializada com o ácido clavulânico é bactericida (o
ácido clavulânico inibe a b lactamase), de largo espectro, alto custo
e sua eficácia clínica, segundo alguns, não é tão boa quanto pré dita
pelos exames de sensibilidade. É ineficaz nos casos de Pseudomonas
sp. A dose empregada no tratamento das piodermites é ainda assunto
controverso. Encontram-se recomendações de se dobrar a dose indicada
ou de administrar a droga a cada oito horas, embora alguns estudos não
corroborem essa prática. A amoxicilina / clavulanato parece uma boa
escolha quando forem necessários extensos regimes terapêuticos, pois
a subdosagem não resulta em resistência.
Cefalosporinas.
Possuem mecanismo de ação semelhante ao das penicilinas. A celalexina
e o cefadroxil são os antibióticos mais utilizados dessa categoria.
A cefalexina, cefalosporina de primeira geração, é altamente eficaz,
possui largo espectro de ação, é bactericida, possui boa penetração
tecidual, poucos efeitos colaterais (vômitos, diarréia, anorexia são
os mais observados) e pode ser administrados duas vezes ao dia. Devido
a sua alta eficiência e emprego nas piodermites, existe a constante
preocupação da resistência a esse ótimo antibiótico. Por esse motivo
é preferível reservar o seu uso para os casos refratários, crônicos,
graves e que necessitam longo tratamento. Felizmente quase não tem se
percebido aumento de resistência para essa droga com o passar dos tempos.
Cefadroxil é a outra cefalosporina de primeira geração que praticamente
possui as mesmas indicações e propriedades que a cefalexina, no entanto
apresenta maior custo.
Fluoroquinolonas.
O tratamento das piodermites em cães ganhou novas e eficientes opções
com a disponibilidade das quinolonas (enrofloxacina) para a medicina
veterinária. Essas drogas inibem a DNA girase, enzima importante para
a replicação do ácido nucleíco. São drogas com amplo espectro de ação
(inclusive Pseudomonas sp), bactericidas e bem toleradas pela
maioria dos cães. Como o mecanismo de resistência envolve mutação ao
invés de ser plasmídio mediado, esse fenômeno não é de ocorrência fácil
e quando desenvolve, se faz lentamente. Resistências cruzadas podem
ocorrer entre as drogas do grupo, mas são improváveis com os grupos
distintos de antibióticos. A enrofloxacina possui excelente penetração
tecidual e pode ser administrada uma vez ao dia, já que sua eficácia
depende da concentração da droga e não do tempo de administração. As
quinolonas são capturadas pelos macrófagos tissulares, promovendo morte
bacteriana intracelular, o que explica em parte sua poderosa penetrabilidade
nos focos inflamatórios e a indicação para animais com deficiência imunológica.
A enrofloxacina não deve ser usadas em cães em fase de crescimento;
de pequeno porte até oito meses de idade e em cães de grande porte até
12 ou 18 meses de idade, devido ao potencial de dano à cartilagem articular.
Grupo
Miscelânia. A Rifampicina é um antibiótico bactericida com potente
atividade contra o S. intermedius e ótima halibilidade de penetrar
no tecido fibroplásico. Infelizmente suas desvantagens parecem superar
as vantagens. A resistência desenvolve rapidamente e por isso preconizasse
usa-la juntamente com as penicilinas b lactamases resistentes ou a cefalexina.
Outra preocupação é o potencial de hepatotoxicidade, devendo portanto
ser usado com cautela, monitorando as enzimas hepáticas pelo menos a
cada duas semanas. Qualquer doença hepática anterior exclui o uso desse
antibiótico. Outros efeitos colaterais incluem a anemia hemolítica,
trombocitopenia e distúrbios gastrointestinais.
Embora o cloranfenicol seja efetivo contra o S. intermedius,
seu emprego tem sido abandonado devido ao perigo de causar graves discrasias
sanguíneas no ser humano. Na Inglaterra seu uso é restrito porque é
o único antiobiótico que atua sobre a Salmonella typhii. A disponibilidade
de várias opções aliada aos problemas supracitados, levaram esse antibiótico
a uma condição de pouquíssimo uso na nossa prática diária.
Os aminoglicosideos freqüentemente agem muito bem sobre S. intermedius,
assim como apontam os testes de sensibilidade. Entretanto o uso
é limitado devido à nefrotoxicidade e a necessidade de uso parenteral,
sendo reservados para os quadros septicêmicos.
A tabela 2 resume os principais antibióticos assim como as doses, intervalos
sugeridos e os principais efeitos colaterais observados.
Tabela
2 – Antibióticos mais usados em casos de piodermites em cães
|
Antibiótico
|
Dose
e Frequência
|
Efeitos
Colaterais
|
|
Eritromicina
|
10-15
mg/ Kg/ 8hrs
|
Vômito
e diarréia
|
|
Lincomicina
|
22
mg/ Kg/ 12hrs
|
Vômito
e diarréia
|
|
Clindamicina
|
5,5
mg/ Kg/ 12hrs
|
Vômito
e diarréia
|
|
Sulfa
trimetoprim
|
22
mg/ Kg/ 12hrs
|
KCS,
EM, NH, artrite imunemediada
|
|
Cefalexina;
Cefadroxil
|
22-33
mg/ Kg/ 12hrs
|
Vômito
e diarréia
|
|
Oxacilina
|
22
mg/ Kg/ 12hrs
|
Vômito
e diarréia
|
|
Amoxicilina/Clavulanato
|
12,5-20
mg/Kg/ 12 ou 8hrs
|
Vômito
e diarréia
|
|
Enrofloxacina
|
5
mg/ Kg/ 24 hrs
|
Lesão
articular*
|
KCS
– Ceratoconjuntivite seca - EM – Erupção medicamentosa - NH – Necrose
hepática - * Em animais jovens
Avaliação do tratamento
Todo animal que esteja recebendo antibióticos sistêmicos para
o tratamento de piodermite deve ser reexaminado dentro de 7 a 14 dias,
período este em que deve apresentar substâncial melhora. Se a melhora
esperada não for observada, deve-se considerar os fatores que levam
à falha terapêutica.
O antibiótico deve ser checado em relação à dose prescrita, freqüência
de administração, presença de vômitos, possível mal absorção ou inativação
pela comida. O proprietário deve ser arguido se entendeu bem as orientações
dispensadas e convidado a nos mostrar como tem oferecido o antibiótico
ao animal.
Alguns proprietários são também muito resistentes à longa administração
de antibióticos para seus animais de estimação. Da mesma forma, alguns
veterinários prescrevem antibióticos por um curto período de duração.
A recorrência nesses casos é a regra.
Outra importante causa de resposta incompleta aos antibióticos é o pobre
manejo da condição de base. Lembramos que das causas subjacentes ressaltam-se
a sarna demodécica, as alergias (dermatite alérgica a pulgas, atopia
e alergia alimentar), as endocrinopatias (hipotiroidismo e hiperadrenocorticismo)
e a seborréia.
Convém lembrar que algumas piodermites profundas, especialmente em animais
imunossuprimidos requerem doses elevadas de antibióticos, administradas
por um tempo dilatado. Igualmente importante, o tratamento tópico geralmente
tem lugar cativo no manejo das piodermites e em casos crônicos, recorrentes
ou refratários pode estar indicada a terapia imunomoduladora.
A despeito da presença de pus estar na maioria das vezes associada a
quadros infecciosos, o clínico deve recordar que eventualmente as doenças
autoimumes ou imunomediadas concorrem com a produção de pústulas. Sendo
assim, estas doenças também devem ser suspeitadas, quando um quadro
pápulo pustuloso não evoluir bem, inicialmente, com uma antibioticoterapia
adequada.
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*
Prof. Ass. Medicina de Pequenos Animais. Departamento de Veterinária.
Universidade Federal de Viçosa. Viçosa. MG e Prof. Ass. Dr. Patologia.
Departamento de Patologia. Faculdade de Medicina. Universidade Estadual
Paulista. Botucatu. SP
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