|
A
Inseminação Artificial (AI), que se iniciou timidamente em Portugal
no ano de 1981, tem registrado uma expansão notável após 1990, sobretudo
em empresas suinícolas bem organizadas e dirigidas por empresários dinâmicos
e que reconhecem na IA uma ferramenta de grande valia no incremento
da produtividade, higiene, genética e mesmo como forma de minimizar
os custos de produção.
A contaminação ativa do sêmen pode ser notada quando o macho doador
padece de uma infecção aguda, com viremia ou bacteriemia, fato que pode
ocorrer na ausência de sintomatologia evidente, como a anorexia ou a
hipertermia. A contaminação passiva do sêmen pode ser diagnosticada
pela deficiente higiene do material utilizado na colheita ou derivar
da conspurcação do mesmo por contaminantes facultativos presentes nos
divertículos prepuciais (DP) do macho, na urina ou nas fezes.
Contaminação do sêmen por bactérias – A contaminação bacteriana
do sêmen é um fato muito usual e que só pode ser evitado através de
medidas rigorosas de controle dos machos doadores e da higiene na colheita,
o que pressupõe uma formação especializada dos dirigentes dos Centros
de IA, circunstancia, aliás, prevista na atual legislação portuguesa.
Também pode ser verificada a contaminação bacteriana do sêmen através
de bactérias que infectam o macho reprodutor por via sistêmica ou se
acantonam nos divertículos prepuciais. A Brucella suis e o
Mycobaterium spp (particularmente M. avium) são contaminantes
que podem ser localizados nos órgãos genitais dos machos reprodutores.
As afecções causadas por estas bactérias encontram-se legisladas, quer
em nível nacional (Portugal) ou em nível internacional, sendo impostas
restrições aos movimentos de animais quando o exame dos mesmos revela
a presença destes agentes.
A contaminação do sêmen por certos tipos de bactérias pode ocorrer facilmente
no momento da colheita. Todos os tipos de bactérias, usualmente presentes
no ecossistema das explorações suínas, tal como E. coli, B. bronchiseptica,
Pseudomonas aeruginosa, Streptococcus, Corynebacterium suis (Eubacterium
suis) e muitas outras podem ser encontradas no sêmen. A flora bacteriana
dos órgãos genitais do macho e do sêmen contem, normalmente, uma grande
variedade de agentes potencialmente patogênicos. A sua presença pode
ser limitada ou mesmo inibida quando se tomam as devidas precauções.
O sêmen tem aparentemente um papel pouco importante na disseminação
destas bactérias entre as explorações, dado que são muito comuns em
quase todas as explorações convencionais de suínos. As leptospiras constituem
uma excreção, existindo um risco potencial de contaminação do sêmen
através do trato urinário do macho. O sêmen pode assim ser o disseminador
da leptospirose entre as explorações.
As bactérias provocam, geralmente, poucos problemas reprodutivos após
a inseminação quando estão presentes em pequenas quantidades (10 bactérias
por ml de sêmen diluído), embora constituam um fator de risco em relação
à prolificidade da fêmea (Madec e Vannier, 1989; Perestrelo-Vieira,
1993). Os mecanismos de defesa não-específicos do útero das fêmeas são
muito potentes durante o cio, especialmente os baseados na ação dos
polimorfonucleares, que atuam eliminando o excesso de sêmen e os corpos
estranhos, incluindo vírus e bactérias (Hare, 1985).
Devido provavelmente a estes mecanismos de defesa não-específicos, a
patogenicidade do sêmen infectado no trato reprodutivo das fêmeas parece
reduzido mesmo quando se contamina com Corynebacterium suis (E. suis)
ou outros agentes, desde de que se utilize o sêmen durante a fase éstrica
da fêmea.
Nesse sentido, foram realizados experimentos em que foram inoculadas
culturas puras de E. Coli por via vaginal durante o estro e o metaestro.
A estirpe utilizada foi reisolada de fêmeas com endometrite bacteriana.
No entanto, três semanas depois não se detectou endometrite nem se reisolaram
as bactérias inoculadas durante a fase éstrica. Por outro lado, verificou-se
a excreção vaginal e endometrite em três das cinco fêmeas em que a inoculação
se tinha registrado no metaestro proximal, 12 horas após o final do
período de cio externo (Pensaert, 1992).
Pode-se concluir que a fase do ciclo éstrico na fêmea tem um papel decisivo
na determinação da infecção bacteriana. A partir destes dados pode-se
chegar a conclusão de que o útero das fêmeas é susceptível às infecções
bacterianas logo após o desaparecimento dos sinais externos de cio (metaestro),
período que corresponde ao momento em que os níveis de estrógenos plasmáticos
diminuem e os níveis de progesterona aumentam.
Nas situações em que as fêmeas são inseminadas várias vezes, ou em que
o cio não é cuidadosamente controlado, é possível observar a indução
de endometrite e descargas vaginais devido ao uso de sêmen contaminado
por bactérias.
A base de qualquer controle passa por medidas que incluem as regras
básicas de higiene, a fim de eliminar a contaminação bacteriana durante
a co1heita do sêmen, processamento, armazenamento e tratamento do mesmo
com antibióticos adequados. Alguns autores (Serrano e col., 1994) aconselham
ainda a elaboração periódica de antibiogramas do sêmen.
A contaminação excessiva, originando quebras da fertilidade, é causada
quando não se respeitam as medidas higiênicas na manipulação do sêmen
e quando a inseminação não se processa durante a fase de cio pleno (Madec
e Vannier, 1989).
É necessário relevar alguns aspectos importantes para garantir a qualidade
do sêmen, tais como o alojamento dos suínos doadores, a higiene do equipamento
utilizado, a detecção do cio o estatuto imunitário das porcas e as qualidades
do inseminador. O exame bacteriológico do sêmen, para detectar contaminantes
específicos, pode ser um recurso de elevado interesse.
O caso particular do Eubacterium suis merece ser destacado e levado
em consideração, sobretudo após os resultados recentes obtidos em Portugal
(Perestelo - Vieira e col., 1993). Na realidade, nesse estudo epidemiológico,
do tipo sondagem de infecção, foi detectada uma prevalência elevada
de E. suis nos DP dos machos estudados. O teste utilizado (imunofluorescencia
– IFI) foi efetuado em esfregaços obtidos a partir de zaragatoas (instrumento
utilizado para aplicar remédios na garganta ou fossas nasais do animal)
dos DP dos machos estudados.
Contaminação do sêmen com vírus – Os mecanismos de defesa não-específicos
do útero das porcas podem ser menos eficazes contra alguns vírus do
que contra as bactérias, já que os vírus podem se duplicar no útero
ou no embrião em crescimento. Deste modo, alguns vírus podem escapar
aos mecanismos inespecíficos de defesa, mesmo quando se processa a IA
em plena fase éstrica.
Alguns vírus podem contaminar o sêmen durante a fase de viremia do suíno.
Na realidade, todos os vírus que originam uma fase de viremia podem,
teoricamente, infectar o sêmen. É o caso do vírus da febre aftosa (VFA),
o vírus da doença vesicular suína (VDVS), vários Enterovírus suínos
(EVS), o vírus da peste suína clássica (VPSC), o vírus da peste suína
africana (VPSA), o Parvovirus suíno (PVS), o vírus da doença de Aujeszky
(VDA) e o vírus da síndrome reprodutiva e respiratória suína (VSRRS).
O vírus da febre aftosa, o vírus da doença vesicular e o vírus da peste
suína clássica e africana provocam afecções que se encontram sujeitas
a regulamentação nacional e internacional, uma vez que a possibilidade
de o sêmen propagar estes agentes em circunstâncias normais é baixa.
As medidas sanitárias e as restrições legais que são impostas quando
um país ou região se infecta, são suficientes para pelo menos minimizar
os riscos potenciais de disseminação dessas doenças.
No entanto, outros vírus bastante difundidos em vários países (VDA,
PVS, EVS e VSRRS) não estão sujeitos a regulamentação severa na maioria
dos países da União Européia e não são controlados regularmente (exceto
o VDA em alguns países).
Enterovírus suínos (EVS) – Todos os enterovírus estão amplamente
difundidos nos países produtores de suínos. Existem vários serotipos
de EVS associados com a vesiculite seminal do macho.
Normalmente, a infecção ocorre por meio de via oral. A transmissão de
um animal para outro é feita através da via oral ou fecal. Durante a
infecção pode ocorrer a viremia e os enterovírus podem atingir o trato
genital dos machos reprodutores. Embora se afirme que alguns enterovírus
aumentam as formas anormais de espermatozóides e diminuem a libido,
tais fatos raramente ocorrem em condições de campo, onde o animal tem
muitas possibilidades de serem infectados com a maioria dos serotipos
de enterovírus existentes, antes da chegada da puberdade. Ou seja, durante
o desmame e o período de crescimento do suíno. A possibilidade de que
um suíno seja infectado pela primeira vez durante a fase da puberdade
é muito remota.
Estes enterovírus não provocam sintomas evidentes no animal adulto e
a infecção do esperma é muito rara. Se esta infecção ocorrer pela primeira
vez durante a puberdade e se o enterovírus atingir o sêmen, nenhum efeito
sobre a reprodução do macho e da fêmea coberta ou inseminada é observado
(Pensaert, 1992).
Nos estudos experimentais o sêmen contaminado com enterovírus não induziu
a perturbações patogênicas nem no útero nem no embrião. Parece que o
vírus não se multiplica no endométrio e é inativado, provavelmente,
pela temperatura corporal da fêmea no momento em que se perde a zona
pelúcida protetora do embrião (Turek e col., 1983).
De forma similar, os enterovírus não atuam na transferência de embriões,
mesmo quando se utiliza sêmen contaminado. Nos embriões, previamente
inoculados com enterovírus, estes penetram na zona pelúcida e associa-se
aos espermatozóides fixados em sua superfície externa. Assim, a infecção
dos blastômeros não é verificada (Turek e col., 1983).
Por segurança deve-se tomar certas precauções utilizando machos reprodutores
soropositivos como reprodutores ou doadores de sêmen. Na prática, os
enterovírus não são considerados como contaminantes do sêmen nem a disseminação
do vírus provoca infertilidade. O efeito sobre o feto só ocorre quando
existe viremia com infecção transplacentária.
Parvovirus suíno (PVS) – Este agente registra uma difusão universal,
sendo comum entre os suínos de todas as regiões do mundo. Ele é um dos
principais causadoras de problemas reprodutivos nas fêmeas (Perestelo
- Vieira, 1987), sendo isolado do sêmen com relativa facilidade.
A via usual de infecção dos suínos não-imunes é a via oro-nasal, sendo
vulgar a transmissão venérea. Os machos reprodutores sensíveis, que
são infectados pela primeira vez na puberdade (fase de maturação sexual),
exibem viremia, e o PVS pode atingir os órgãos genitais e contaminar
o sêmen (Bonte e col., 1984). O PVS tem sido isolado de machos de monta
natural, não ficando claro se o vírus procedia do próprio ejaculado
ou da contaminação do prepúcio ou do DP, por sua vez infectado através
das fezes.
Quando inoculado via oro-nasal, o PVS pode ser isolado nas glândulas
vesiculares, mas não de outras partes do aparelho genital masculino,
embora possa aparecer no ejaculado (Wrathall e Mengeling), 1983.
No suíno macho não se produzem sintomas de doença ativa, nem problemas
de fertilidade, e o vírus só está presente no sêmen durante a fase virêmica,
que é efêmera (3 a 5 dias), sendo eliminado quando o suíno adquire imunidade,
não existindo, portanto, excreção permanente do vírus.
A contaminação do sêmen pelo PVS é viável e pode verificar-se em machos
jovens, de sete a oito meses, que foram infectados de forma natural,
após a puberdade e que não foram vacinados. Embora o PVS esteja extremamente
difundido, não está sempre presente em todas as unidades de produção
com existência de modelos epidemiológicos bem característicos (Perestrelo
- Vieira, 1987). A utilização de sêmen contaminado pode, eventualmente,
ser responsável por um surto de Parvovirose em explorações indenes e
onde o vírus não circula. O sêmen pode, em certas circunstâncias, ser
a causa de um foco que pode assumir uma importância maior ou menor em
função do modelo de difusão viral, da estrutura etária da exploração
e da dimensão da mesma.
A transmissão do vírus por via seminal parece ser uma conseqüência normal
da inseminação. A importância do sêmen contaminado por PVS em provocar
problemas reprodutivos nas fêmeas em condições de campo não é linear
(Thacker e col., 1984).
As porcas soronegativas inseminadas com sêmen contaminado com PVS podem
registrar fertilidade baixa mesmo quando o vírus parecer não afetar
o endométrio. Mesmo nas fêmeas nulíparas soropositivas expostas ao PVS
(através do sêmen contaminado), que podem não estar completamente protegida
contra a doença, o risco de problemas reprodutivos causados pelo sêmen
contaminado com o PSV é muito baixo.
Quando o PVS é adicionado em óvulos fertilizados in vitro não
se verifica infecção do embrião. O vírus associa-se aos espermatozóides
situados na superfície da zona pelúcida, não existindo evidencia da
infecção nos blastômeros ou no embrião. Aparentemente o sêmen contaminado
com PVS só pode provocar morte embrionária se o vírus permanecer no
útero até o embrião perder a zona pelúcida e a possibilidade disso ocorrer
em condições de campo é muito baixa. Tudo indica que a infecção da zona
externa do óvulo ocorre no momento da penetração do espermatozóide com
o vírus absorvido.
A hipótese de que surjam problemas de foco reprodutivo (morte embrionária
com reabsorção, retorno ao cio e ninhadas pequenas) parece reduzida,
não podendo, no entanto, ser excluída totalmente.
O PVS pode ser veiculado através de óvulos fertilizados existindo a
possibilidade de afetar a transferência de embriões. O vírus pode penetrar
nas partes profundas do embrião sem ser eliminado ou tratado pela tripsina
ou soro anti-PVS, sem demonstrar, porém, qualquer efeito nocivo no desenvolvimento
do embrião.
Para minimizar o risco de transmissão através do sêmen de machos reprodutores
recentemente infectados recomenda-se a utilização de animais soropositivos.
A soropositividade pode ser o resultado de uma infecção anterior à puberdade
ou a vacinação. Não se pode assegurar que tenha havido uma infecção
natural antes da puberdade, porque o PVS pode estar ausente temporariamente
numa dada unidade, tanto mais que os anticorpos de origem materna, de
larga duração, podem prevenir a infecção em idade jovem. A soropositividade
evita a viremia no suíno durante a infecção.
De forma similar, a inseminação deveria ser realizada em fêmeas com
anticorpos do PVS. A excreção viral pelas fezes pode ocorrer mesmo em
machos vacinados, não excluindo a contaminação fecal no sêmen.
Vírus da doença de Aujeszky (VDA) – O VDA foi isolado do sêmen
após a infecção natural de machos indenes e também, após a inoculação
experimental em suínos vacinados. Do mesmo modo, também se isolou o
VDA do prepúcio de machos durante vários dias após a sua inoculação
direta na mucosa prepucial (Gueguen e col., 1980).
A infecção natural do suíno macho pelo VDA pode causar doença ativa,
originando perturbações na qualidade do sêmen. O sêmen não contém necessariamente
o VDA, podendo, entretanto, surgir uma queda temporária na fertilidade
devido aos efeitos da elevada temperatura corporal sobre a espermatogênese,
durante a fase de doença clínica aguda (hipertermia). Após a inoculação
oro-nasal experimental e, também, após a infecção natural, o VDA pode
causar lesões acompanhadas de inflamação testicular que provoca a infertilidade.
Após a inoculação intratesticular notou-se que os vírus se duplicam
nas células da túnica vaginal produzindo periorquite (MYRY e col., 1987;
Hall, 1983).
O VDA também tem sido isolado do sêmen de suínos vacinados e de suínos
sem sinais clínicos da doença. A origem do vírus permanece obscura não
descartando a contaminação a partir do prepúcio ou divertículos prepuciais.
O VDA pode replicar localmente na mucosa prepucial sem causar lesões
(Hall, 1983).
O VDA também pode ser transmitido através do sêmen, originando não apenas
casos de infecção aguda como também estados clínicos inaparentes. A
reativação do vírus em tecidos genitais pode originar a contaminação
do esperma muito tempo após a infecção aguda. Neste caso, o risco de
que o sêmen seja uma fonte importante de disseminação do VDA é elevado.
O exame do sêmen para detectar a presença de VDA não é realizado como
qualquer outro exame de rotina. Por isso, para obter a segurança de
não estar propagando a infecção é aconselhável utilizar o sêmen de machos
sorologicamente negativos como, aliás, é imposto pela legislação portuguesa.
O problema que subsiste é que não se pode excluir uma infecção recente
do suíno seguida de uma possível contaminação do sêmen.
O VDA, depois da deposição no útero, pode provocar reações inflamatórias
severas originando uma implantação deficiente do óvulo fertilizado.
A capacidade de replicação do vírus persiste algum tempo no útero afetando
o embrião depois de se perder a zona pelúcida. O VDA pode criar problemas
reprodutivos em porcas, mesmo nas vacinadas, cuja inseminação com sêmen
contaminado sempre causou problemas de reprodução.
Na transferência de embriões infectados com VDA verifica-se a absorção
viral na zona pelúcida, sendo viável a sua replicação depois do desaparecimento
daquela zona sete dias após a fertilização. O efeito da lavagem do embrião,
com soro anti-VDA, depende do conteúdo de anticorpos e quantidade de
vírus absorvidos. Assim, quando a quantidade de vírus presente no embrião
é muito baixa em circunstâncias naturais, a lavagem do embrião parece
prevenir de forma efetiva a transmissão de VDA (Hare, 1995).
Vírus da síndrome respiratória e reprodutiva no suíno (VSRRS) –
Este vírus surgiu recentemente em vários países europeus como Alemanha,
Holanda, Bélgica, Reino-Unido, França, Dinamarca e Espanha, parecendo
tornar-se enzoótico onde a produção de suínos é intensiva e o número
de focos é muito alto (Perestrelo - Vieira e col., 1992).
A participação do macho infectado indica essencialmente no ejaculado
uma diminuição do número de espermatozóides, da sua mobilidade e aumento
de células anormais. É seguro que o macho transmita a doença se o sêmen
for colhido na fase virêmica (Edwards e col., 1992).
O vírus penetra pela via oro-nasal podendo duplicar no trato respiratório,
particularmente nos macrófagos alveolares. O vírus ultrapassa a barreira
placentária e pode se multiplicar nos fetos provocando placentite multifocal.
Quando atinge o útero grávido a ação do vírus resulta em mortalidade
embrionária, com retornos tardios ao cio, mortalidade fetal com aborto,
fetos mumificados, macerados ou natimortos (Perestrelo - Vieira e col.,
1992).
O retorno ao cio é um problema comum durante a evolução clínica de um
foco de SRRS. Não se sabe se isto é devido à baixa qualidade do sêmen
proveniente de machos reprodutores afetados ou ao efeito do sêmen contaminado.
Não se conhece o efeito do VSRRS sobre o embrião em desenvolvimento
nem sobre o útero após a inseminação. O sêmen contaminado pode ser considerado
como uma fonte de difusão de VSRRS e como causa de problemas de fertilidade.
Discussão – O exame bacteriológico do sêmen é viável embora o
exame virulógico seja difícil. O sêmen está normalmente infectado por
bactérias que originam a contaminação das culturas celulares. O isolamento
dos vírus é, também, complicado pela presença de fatores seminais que
são tóxicos para as células. Existem fatores antivirais no sêmen que
inativam, de forma não específica, ou inibem, a replicação viral. Todos
esses fatores estão associados à fração fluida do ejaculado. As tentativas
de eliminar os fatores citotóxicos com diferentes métodos não obtiveram
sucesso.
Os resultados mais interessantes foram obtidos através da inoculação
em animais sensíveis. No caso do VDA a inoculação em coelhos parece
melhor que as culturas celulares para demonstrar a presença do vírus
do sêmen.
A PCR (Polimerase Chaine Reaction) em que os vírus podem ser detectados
em pequenas quantidades, sem necessidade de culturas celulares, pode
vir a ser um método de futuro. Não se encontram anticorpos no sêmen
mesmo quando há títulos altos no soro do macho. Este fato foi demonstrado
para o VDA em machos vacinados. Os Anticorpos podem, no entanto, estar
presentes no sêmen após uma infecção local dos órgãos genitais, não
parecendo que se produz transudação a partir do sangue.
Não se pode esperar que se produza a neutralização dos vírus que contaminam
acidentalmente o sêmen durante a co1heita. Os fatores inibidores virais
que estão presentes no sêmen podem ter um efeito benéfico, minimizando
a transmissão venérea quando se verifica uma contaminação de baixo nível,
supondo que a infecção natural do sêmen resulte de pequenas quantidades
de partículas virais.
Os suínos machos utilizados na reprodução ou na IA podem originar doenças
em regiões ou países isentos delas (brucelose, tuberculose, febre aftosa,
doença de Aujeszky). Em países em que estas afecções são enzoóticas,
é preferível a utilização de machos reprodutores de unidades indenes.
Recomendações (Pensaert, 1992) – No caso do VDA, se não for possível
utilizar machos reprodutores soronegativos é recomendável a vacinação
dos mesmos com vacinas "deletadas" inativadas. Quando esses
machos já vacinados são infectados, a replicação viral pode ser verificada
na mesma, mas de uma forma reduzida que torna a contaminação no sêmen
pouco provável. No entanto, o efeito das possíveis reativações virais
de curta duração não podem ser evitadas. Em estados ou regiões indenes
de DA e em que não se pratica a vacinação, não existem restrições na
exportação de sêmen, devendo, porém, todos os suínos machos reprodutores
dos Centros de Inseminação Artificial serem soronegativos. Deve-se realizar
provas sorológicas periódicas de três em três meses em todos os animais,
inclusive na entrada e na saída dos respectivos centros. Em outras regiões,
reconhecidamente infectadas, devem ser praticados exames sorológicos
de elevada sensibilidade para prevenir a difusão por via IA. Isto possibilita
detectar os suínos infectados e auxilia a minimizar o risco da exportação
de sêmen contaminado com o VDA, já que não se conhece qual a dose viral
mínima necessária para iniciar a infecção nas porcas após a inseminação.
Os métodos de isolamento do vírus no sêmen são demorados e falíveis
devido a toxicidade do sêmen para as culturas celulares. A excreção
viral no sêmen é observada durante a infecção aguda, em que os machos
infectados excretam grandes quantidades de vírus durante um período
de tempo superior ao verificado nas secreções naso-faríngeas. Se a excreção
do vírus pelo sêmen resultar da reativação da infecção, poder-se-á supor
que o vírus também esteja presente nas secreções nasais.
No caso do parvovirus, que está amplamente difundido, recomenda-se a
utilização de machos com uma forte imunidade ativa após a vacinação
ou a infecção natural. O estado imunitário pode ser avaliado por sorologia
dado os altos níveis de anticorpos séricos (Perestrelo-Vieira, 1987).
No caso do VSRRS a única medida de controle é colher o sêmen apenas
de machos soronegativos. Numa unidade infectada enzooticamente é difícil
prevenir a contaminação, uma vez que não se sabe se o VSRRS pode ser
excretado pelo sêmen de suínos imunizados e nem a o tempo de duração
dessa excreção. Também não é conhecido o fato de a imunidade após primeira
infecção ou a vacinação ser suficiente para que os machos recém infectados
constituam um risco de disseminação do vírus e de indução de problemas
reprodutivos.
A base de qualquer controle passa por medidas básicas de higiene a fim
de eliminar a contaminação bacteriana durante a colheita do sêmen, processamento,
armazenamento e tratamento com antibióticos. A contaminação microbiana
excessiva, originando quebras na fertilidade, pode ser diagnosticada
quando não há a prática de medidas higiênicas na manipulação do sêmen,
do diluidor e quando a inseminação não se processa durante a fase de
cio pleno.
O exame periódico do sêmen pode ser efetuado para detectar contaminantes
específicos. A inoculação em animais sensíveis pode ser útil, em caso
de suspeita da DA, mas não se pode realizar de forma rotineira. A utilização
de sêmen na mesma exploração onde se processa a colheita, sem haver
o cumprimento básico de higiene representa um baixo risco de propagação
de novas doenças, embora possa constituir a base de algumas contrariedades
do foco reprodutivo, retornos ao cio, abortos precoces, ninhadas pequenas
e infecções do trato genital. Fica aqui o questionamento sobre o excesso
de confiança que é dado aos antibióticos presentes nos diluidores. Desta
forma, problemas esporádicos do tipo reprodutivo são notados no momento
da colheita do sêmen em suínos com infecções agudas, particularmente
com VDA e VSRRS.
*Médico
veterinário do Instituto de Pesquisa Agropecuária de Portugal e
*Médico veterinário do Instituto de Experiências Agropecuárias e Desenvolvimento
Rural.
|