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As
constantes evoluções das necessidades dos sistemas de produção do suíno
moderno, principalmente no que diz respeito aos ganhos em rendimentos
industriais, tem redirecionado o tipo de animal a ser produzido. Estes
novos desafios do sistema produtivo tem introduzido dia-a-dia novas
tecnologias nos diferentes segmentos que envolvem a suinocultura, como
manejo, nutrição, sanidade, instalações, genética, entre outros. E,
assim, os consideráveis avanços da suinocultura, nos últimos 30 anos,
conseguiram elevar a produtividade da matriz de 13 para mais de 22 leitões
ao ano. Isso tudo, apesar de a matriz moderna ser mais magra, mais precoce
e ser incorporada ao plantel com menor gordura corporal que as fêmeas
antigas. Nesse caso, o melhoramento genético é fundamental para que
os criadores consigam obter a boa produtividade do animal por um período
de vida longevo.
O maior desafio dos atuais sistemas de produção é manter constante os
níveis de produtividade. De fato, ainda há muita variação no desempenho
de granjas comerciais, e muitas matrizes não conseguem atingir seu potencial
máximo de produção e produtividade. Inclui-se aí toda uma gama de reações
fisiológicas e patológicas manifestadas pelo organismo dos suínos em
resposta a fatores estressantes de ordem ambiental. Temperatura excessiva,
umidade alta, ventilação insuficiente, são exemplos de fatores ambientais
prejudiciais ao processo produtivo. Os aspectos físicos e estruturais
também podem comprometer o desempenho reprodutivo das matrizes. Pisos
excessivamente ásperos ou muito úmidos podem gerar danos à estrutura
córnea dos cascos, prejudicando a capacidade de sustentação das reprodutoras
jovens. Como também cochos mal planejados, lotação excessiva nas baias
das leitoas e deficiência na distribuição de água contribuem para a
baixa produtividade desses animais.
Sabe-se que o potencial genético de uma matriz somente será maximizado
se forem atendidas todas as exigências de manejo e nutrição em todos
os estágios de sua vida produtiva. "O animal mais produtivo trabalha
no limite de sua fisiologia, ou seja, não apresenta mais aquela reserva
corporal para compensar deficiências de ambiente", explica João
Donisete do Nascimento, gerente de genética da Agroceres Pic. E, segundo
ele, qualquer situação de desconforto sofrido pelo animal geneticamente
melhorado terá reflexo na sua produção. Desse modo, com os avanços no
campo do melhoramento genético, é necessário que se estabeleça um programa
ótimo de manejo e nutrição de acordo com as potencialidades dos animais
e em conformidade com suas características genéticas e objetivos de
produção.
Cuidados indispensáveis – Algumas recomendações são importantes
para se alcançar a plena produtividade dos animais. João Donisete lembra
que cumprir o período de isolamento e aclimatação das leitoas recebidas
para reposição do plantel assegura que o seu estado de saúde seja próximo
ao estado de saúde dos animais da granja receptora. Outra dica do técnico
da Agroceres é seguir um plano nutricional nas diferentes fases da vida
reprodutiva da matriz, considerando as características fisiológicas
de cada fase e suas características genéticas. "É importante também
proporcionar às matrizes conforto ambiental. Assim minimiza-se a ocorrência
de estresse e a perda de produtividade", diz Donisete.
Na suinocultura moderna, o índice zootécnico final almejado pelo suinocultor
é a quantidade de carne de boa qualidade, produzida a um mínimo custo
por unidade de matriz instalada. Para aumentar a quantidade de carne
produzida, é necessário produzir em quantidade animais com boa qualidade
de carcaça. Para aumentar o número de cevados produzidos, o objetivo
básico no melhoramento genético da matriz é maximizar sua eficiência
reprodutiva. Em geral, o peso corporal adequado à primeira cobrição
é entre 125 e 150 quilos de peso vivo, com uma cobertura de gordura
que pode variar entre as diversas genéticas de 11 a 22 mm na posição
P2 (distante 6,5 cm da linha dorso lombar no nível da última costela).
A idade ideal recomendada pelos técnicos varia de 220 a 230 dias, durante
o terceiro cio. O período mínimo de adaptação entre o recebimento e
a primeira cobrição de leitoas deve ser de seis semanas, sendo que o
período ideal é de oito semanas.
Durante a fase de lactação, a matriz gasta uma grande quantidade de
nutrientes para produção de leite. Se estes nutrientes não forem fornecidos
via dieta eles serão retirados de sua reserva corporal, afetando a qualidade
dos leitões desmamados e a sua performance reprodutiva posterior. Regra
geral, a quantidade e o nível nutricional da ração de lactação deve
ser suficiente para garantir a produção de leite para o aleitamento
dos leitões da leitegada e para suprir as necessidades corporais da
matriz.
Para a expressão do potencial genético das matrizes é necessário que
sejam minimizadas as ocorrências de situações de desconforto ou estresse.
O local e o tipo de piso devem ser cuidadosamente observados. Durante
a fase de aclimatação das leitoas é recomendado um espaço mínimo individual
de 2 m2. As gaiolas de gestação devem ter algo em torno de 0,63 m x
2,25 m, resultando em uma área de 1,41 m2. As gaiolas de maternidade
devem ter uma área restrita à matriz de, aproximadamente, 1,1 m2, e
uma área total de 4,6 m2, incluindo a área de creep (piso aquecido)
e áreas laterais destinadas aos leitões.
Estudos da JSR – Preocupada em acompanhar os avanços da genética
suína e possibilitar cada vez mais o bem-estar do animal criado em confinamento,
a JSR Genética Suinícola, empresa de origem inglesa, desenvolveu vários
estudos nesse sentido. O objetivo era obter maior produtividade de suas
fêmeas com altos índices de carne magra. De acordo com o médico veterinário
e gerente técnico da JSR, Paulo Ricardo Wolf, um experimento foi realizado
na unidade Comercial de Catwick, na Grã-Bretanha, para estabelecer as
normas de manejo e nutrição específicas às matrizes LP 90. Os resultados
desse experimento podem ser estendidos aos programas que utilizam genética
JSR, como forma de obter prolificidade e longevidade.
Nesse estudo foi identificado os números ideais de produtividade de
uma matriz LP 90: vida produtiva de 2,5 anos, 2,25 partos por matriz/ano,
5,6 partos durante a vida produtiva da matriz, 10,7 leitões nascidos
vivos por parto, e o total de 60 leitões produzidos. Wolf conta que
no início do experimento os animais, até a primeira cobertura, tiveram
o seguinte desempenho: taxa expressão do crescimento diário de 0,76
m2, aumento médio de espessura de toucinho em P2 de 0,15 mm ao dia.
Cada quilo de ganho de peso resultou em um aumento de 0,2 mm. O consumo
médio de ração foi de 3,60 quilos ao dia. Foram necessários 4,65 quilos
de ração para um quilo de ganho de peso corporal. O peso corporal médio
das matrizes na primeira cobertura foi de 130 quilos, aumentando para
230 na segunda cobertura e permanecendo constante a partir daí.
Tanto o peso ao nascer, quanto o peso ao desmame das leitegadas e dos
leitões, individualmente, foram altos. Para os leitões, o peso variou
entre 1,58 e 1,67 quilos. No desmame, por sua vez, ficaram entre 6,45
e 8,31 quilos. Os valores menores foram registrados no primeiro parto.
A taxa de crescimento média dos leitões durante a lactação variou entre
218 e 256 g/dia, reflexo direto dos altos consumos das porcas durante
a lactação.
O peso vivo e a condição corporal das leitoas na primeira cobertura
influenciaram diretamente o desempenho das matrizes nas gestações subseqüentes.
As leitoas que na primeira cobertura tiveram pesos variando de 130 a
160 quilos, e um P2 entre 18 e 22 mm, produziram 13 leitões a mais em
cinco parições do que aquelas cobertas com menos de 120 quilos e 14
mm de P2. A taxa de descarte não foi influenciada por extremos de condição
corporal na primeira cobertura. Como esperado, o aumento de peso corporal
da matriz tornou-se menor à medida que o peso corporal na cobertura
ia crescendo. Entretanto, o aumento em P2 de leitoas leves durante a
primeira gestação foi muito maior que o esperado (+ 9 mm). O consumo
de ração pelas matrizes durante a primeira gestação, de 3,13 quilos
por dia, foi maior que o previsto, mas permaneceu relativamente constante
(aproximadamente 2,1 kg/ dia) nas gestações seguintes. O consumo à vontade
dos animais durante a lactação foi alto e aumentou de seis quilos por
dia na primeira lactação para 8,35 quilos na sexta lactação.
Wolf diz que o peso e a condição corporal correto na primeira cobertura
são fundamentais para assegurar um excelente potencial reprodutivo e
desempenhos econômicos otimizados. "Isto só é possível com uma
alimentação adequada e boas condições de alojamento para cada um dos
estágios da reprodução", completa.
Menos ração – As matrizes comerciais C40, da Dalland do Brasil
Agropecuária, são 100% livres de estresse, dóceis, de fácil manejo e
com um cio muito evidente. São resultado do cruzamento entre as raças
Pietrain e Large White, informa a empresa. A genética Dalland possui
ainda características importantes para o produto final: alto crescimento
de carne magra com baixa conversão alimentar. O geneticista da empresa,
Gerwin de Koning, conta que a C40 proporciona mais quilos de leitões
desmamados com um menor custo de ração – uma média de 1050 a l l00 quilos
por ano. E para que essas matrizes tenham boa longevidade, com bons
resultados reprodutivos, o seu desenvolvimento fisiológico durante a
fase de crescimento é muito importante. "O consumo diário ideal
de ração de uma marrã com nove semanas de idade (ou 25 quilos) é de
0,9 a 1,1 quilos", revela. Depois, ocorre um aumento semanal de
ração controlada de 100 gramas por dia. "Com isso, espera-se um
ganho de peso com crescimento constante e regular de cinco quilos por
semana".
Os períodos de regressão em crescimento devem ser evitados. O geneticista
lembra que, para controlar o arraçoamento, é importante ter uma boca
no cocho para cada marrã. "Isso ajuda a manter a uniformidade do
grupo". A troca de ração-recria para ração-reposição deve ser feita
gradualmente depois de 45 a 50 quilos. E quando o consumo diário chegar
a 2,1 / 2,5 quilos (de 21 até 23 semanas de idade) deverá ser mantido
nessas quantidades. A quantidade de ração por marrã só deverá aumentar
nas duas semanas que antecederem a cobertura, passando para até três
quilos. Três semanas antes da cobertura prevista, conforme acrescenta
Koning, as matrizes C40 recebem a segunda dose das vacinas contra as
principais doenças que podem acometer os suínos.
De acordo com o geneticista, a quantidade diária de ração depende do
nível de energia (normalmente dentro de 2900 - 3100 Kcal EM), da temperatura
ambiente – quando a temperatura média estiver abaixo de 18oC,
oferecer 100 gramas a mais para cada grau de diferença – e do nível
sanitário da granja – quanto maior, menor será a energia gasta pelas
marrãs para a manutenção. Geneticamente, as marrãs da Dalland são altamente
eficientes quanto à conversão alimentar. "Por isso o consumo é
menor", salienta o geneticista. "Recomendamos aumentar os
níveis de vitaminas e minerais quando o consumo é reduzido". Na
prática, uma redução de consumo acima de 10% necessita de um aumento
de minerais e de vitaminas em 10%.
Qualidade de carcaça – A genética produzida pela Seghers Hybrid
do Brasil é o resultado de um trabalho de melhoramento que visa o menor
custo de produção por quilograma de carne magra de suínos. Neste programa,
prioriza-se tanto o número de animais produzidos por matriz ao ano quanto
o rendimento em carne magra. Para que se obtenha um ganho genético mais
acelerado para características tão distintas, o programa é dividido
em "linhas-macho" e "linhas-fêmea". As matrizes
híbridas Seghers são o produto comercial derivado do esquema de cruzamento
adotado entre as diferentes linhas puras (linha 12, linha 36, linha
15) que compõem o grupo de "linhas-fêmea". Nessas linhagens,
a prioridade do melhoramento genético está nas características de fertilidade,
prolificidade, longevidade e habilidade materna. Mas o programa da empresa,
conforme esclarece o médico veterinário e gerente técnico de sua unidade
em Patos de Minas (MG), Glauber Souza de Machado, preocupa-se em oferecer
uma fêmea híbrida comercial que também participe com uma boa qualidade
de carcaça.
O bem-estar animal está diretamente relacionado à capacidade de resposta
produtiva, seja a produção de leite pelas matrizes ou o ganho de peso
por parte dos cevados. O animal responde conforme as condições a ele
oferecidas, tais como: condições de manejo, sanidade, ambiente, nutrição,
transporte, etc. Outro item a ser considerado é a qualidade de carne.
Embora influenciada por diversos fatores, "um deles é exatamente
a condição de bem-estar aplicada ao transporte e manejo pré-abate dos
animais". Para falar sobre manejo, Glauber salienta que é necessário
abordar os seus vários segmentos. "O manejo nutricional é um deles
e merece especial atenção", destaca. De acordo com ele, é fundamental
que o produtor e os técnicos reconheçam (e aceitem) que as diversas
linhagens genéticas comercializadas no País são, sem sombra de dúvidas,
distintas no que se refere às condições ótimas de manejo nutricional
requeridas.
A leitoa Seghers deve ser alimentada de uma maneira mais liberal até
o momento da cobertura. De forma que possa ser coberta com no mínimo
130 quilos e 220 a 230 dias. Vale lembrar que algumas granjas do Brasil
utilizam o método de avaliação visual do escore corporal para chegar
a parâmetros objetivos de peso e condição corporal da matriz para a
primeira cobertura. Mas há algumas restrições quanto à segurança desse
método. Glauber explica que o observador representa fator decisivo para
o resultado da avaliação. Segundo ele, quanto maior o número de "categorias"
ou "níveis" de escore corporal, maior a subjetividade e menor
a repetibilidade do método. A segunda restrição refere-se à diversidade
de linhagens, não raro, dentro de uma mesma granja. A diferença fenotípica
entre algumas das linhagens existentes no mercado é significativa, assim
como parâmetros de ganho ponderal, deposição de gordura, etc. "Daí
a necessidade de avaliar a condição corporal de determinada fêmea, levando
em conta o padrão de sua linhagem e sua fase fisiológica", conclui.
O manejo reprodutivo é outro segmento de grande importância, apontado
pelo veterinário, para o bom resultado das matrizes. Nesse segmento,
as diferenças entre linhagens genéticas já não são tão expressivas quanto
aquelas observadas no manejo nutricional. "Hoje em dia, todas as
linhagens genéticas modernas exigem otimização do manejo reprodutivo",
afirma Glauber. "Principalmente no que se refere à qualidade da
detecção de cio e do processo de monta ou inseminação artificial".
Um comentário, porém, é feito pelo veterinário sobre as linhagens presentes
no Brasil. "A época em que o manejo de leitoas de reposição era
relegado a segundo plano chegou ao fim. Observamos que a cada dia essa
área da produção tem assumido maior importância no contexto da moderna
suinocultura brasileira".
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