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O
assunto é instigante e complexo. O tratamento dos animais destinados
para o abate está sobressaindo-se entre as novas tendências de produção
e consumo da carne. "Já não é possível desvincular a imagem do
bem-estar animal com a do bem-estar humano", afirma Luiz Carlos
Pinheiro Machado Filho, professor responsável pelo departamento de Zootecnia
e Desenvolvimento Rural da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Segundo ele, a ausência de bem-estar aos animais criados para a produção
de carne pode resultar em um produto de qualidade inferior e de baixo
valor comercial. "No caso dos suínos pode haver uma maior incidência
de carne com PSE (pálida, mole e exsudativa), DFD (escura, dura e seca)
e com menor tempo de vida de prateleira". Os suínos produzidos
sem as mínimas condições de bem-estar, podem apresentar desde hematomas,
ossos danificados, mudanças de comportamento até quadros mais crônicos
de estresse. O bem-estar animal abrange itens como ambiência, manejo,
nutrição, entre outros.
O médico veterinário e PhD em bem-estar animal, Adroaldo Zanella, concorda
com o colega da UFSC. Acrescenta ainda que porcas mantidas em celas
de gestação desenvolvem formas anormais de comportamento, "que
podem refletir em mudanças irreversíveis no cérebro". Da mesma
forma, porcas estressadas apresentam respostas imunitárias (reação dos
anticorpos) comprometidas e produzem colostro pobre em imunoglobulinas
(que protegem o leitão contra doenças). Outro ponto negativo que Zanella
ressalta é o uso do choque elétrico no manejo dos suínos. "Está
mais do que comprovado que o choque elétrico causa mudanças comportamentais
e fisiológicas nos animais, como aumento da temperatura corporal e da
frequência cardíaca".
Embora as regras do comércio internacional, hoje, não prevejam restrições
em razão de motivações de ordem do bem-estar animal, pode haver no futuro
pressão de grupos pró bem-estar para influenciar negativamente a imagem
de estabelecimentos comerciais que vendem carne importada de regiões
onde os suínos são criados em condições tidas como desumanas. Na Inglaterra,
cerca de 30% do rebanho suíno se enquadra dentro das condições favoráveis
de bem-estar animal. A criação desses animais a campo, até a terminação,
sem mutilações (corte de cauda) e livres de hormônios e antibióticos,
reflete a imagem de suínos saudáveis e "felizes", que os consumidores
estão aprendendo a associar aos alimentos que consomem.
Alternativas
- De acordo com dados arqueológicos publicados pela revista americana
Science em novembro de 1998, e mencionados por Zanella, o suíno
foi o primeiro animal a ser domesticado pelo homem, depois dos cães.
Estudos realizados na Turquia comprovam que os suínos domesticados e
os seres humanos dividem o mesmo ecossistema há mais de 11.500 anos.
Não é falso dizer que o suíno é, pelo menos, "o segundo melhor
amigo do homem".
Na visão do professor Machado Filho, existem duas grandes vertentes
de conduta para melhorar o bem-estar animal, especialmente na suinocultura.
Uma delas é o chamado "enriquecimento ambiental", que consiste
em introduzir melhorias no próprio confinamento, com o objetivo de tornar
o ambiente mais adequado às necessidades comportamentais dos animais.
"Neste caso, pode-se colocar objetos, como correntes e ‘brinquedos’,
para quebrar a monotonia do ambiente físico", comenta. A presença
desses objetos no recinto do animal pode reduzir a incidência de canibalismo.
A colocação de palha no piso, sobre o cimento, também apresenta o mesmo
resultado. De acordo com o professor, essas medidas reduzem a agressão
e os animais separam a área de excreção (próximo ao bebedouro) da área
de descanso.
Colocar barreiras na estrutura física da instalação também é importante.
Estudos realizados pela equipe de Adroaldo Zanella, em Cambrige (Reino
Unido), publicados em 1992, comprovam a teoria. De acordo com ele, porcas
mantidas em grupos formam uma estrutura social complexa. Nessa estrutura,
certos animais mantêm-se como "dominantes", outros evitam
a confrontação social, e outros assumem uma posição incerta no grupo.
"Medidas de produtividade e estresse entre os dominantes e os animais
que evitam confrontação social não são percebidas", explica o especialista.
"No entanto, animais de posição incerta dentro do grupo apresentam
índices reprodutivos comprometidos e níveis de hormônios de estresse
elevados". No conceito de enriquecimento ambiental também entra
a utilização de gaiolas parideiras para as porcas, com espaço suficiente
para a matriz poder virar-se. Essas gaiolas também devem ter o piso
coberto com palha para que elas possam fazer o ninho. No momento, esse
tipo de alojamento para o parto e a lactação dos leitões, vem sendo
pesquisado por várias instituições européias. "A mortalidade de
leitões nos sitemas sem uso de celas parideiras é elevado e o seu bem-estar,
comprometido".
A outra vertente, apontada pelo especialista, seria repensar o sistema
criatório como um todo, ou propor sistemas criatórios alternativos.
"A melhor alternativa que conheço é o sistema de criação de suínos
ao ar livre", diz Machado Filho. A introdução desse sistema no
Brasil foi realizada há mais de 15 anos, na propriedade de Ipenor Zanella
e Nair Zuleika Zandoná Zanella, no município de Paim Filho (RS). A unidade
operou com um efetivo de 60 a 80 matrizes da raça Duroc até o início
de 1999. Vários conceitos desenvolvidos na propriedade foram incorporados
ao sistema de produção "orgânica" (sustentável), "que
é bem mais avançado do que o sistema convencional ao ar livre e vem
sendo bastante discutido na Europa", diz Adroaldo Zanella.
Em 1987, o Sistema Intensivo de Suínos Criados ao Ar Livre (Siscal),
como é conhecido no País, foi introduzido em Santa Catarina pelo agrônomo
João Augusto Vieira de Oliveira, com apoio técnico da Embrapa. As características
do sistema estão moldadas à criação dos suínos a céu aberto e com abrigo
em cabanas. Variações como o tamanho do piquete, número de porcas por
cabana, tipos de comedouro, etc., são percebidas de região para região.
"O Siscal apresenta muito menos problemas comportamentais",
conta Machado Filho. Pesquisas realizadas na UFSC em 1988, confirmaram
que comportamentos anômalos, canibalismo e agressão, foram bem menores
entre os suínos criados ao ar livre do que entre os criados no sistema
de confinamento convencional. Segundo o especialista, o Siscal também
tem implicações positivas no ambiente, na saúde animal e no balanço
energético da criação. "Implica em investimentos muito menores
(mesmo considerando a terra) e tem como resultado a produção de um animal
‘orgânico’, com alto valor de mercado".
Outro sistema alternativo para a criação de suínos é conhecido como
Pig Family Housing, (Stolba, 1982). Desenvolvido com base nos
padrões comportamentais de suínos em condições ferais ou a campo extensivamente,
é um sistema onde quatro porcas e um cachaço dividem um mesmo espaço,
como se fossem moradores de um "condomínio". Cada porca fica
alojada em um "apartamento". Os apartamentos comunicam-se
entre si e o cachaço circula livremente entre eles. Os leitões convivem
desde cedo com o grupo, o que evita os problemas de agressão quando
são desmamados e reagrupados em lotes de recria. Nos espaços de cada
animal, há uma área separada para excreção, coberta com barro, sendo
o restante do piso coberto com palha. O Pig Family Housing também
é promotor do bem-estar animal, embora seja um confinamento e implique
em investimento inicial mais alto que o confinamento intensivo.
Mão-de-obra
– Assim como as instalações, o manejo também tem grande influência sobre
o bem-estar dos animais. A seleção e o treinamento da mão-obra responsável
pelo cuidado dos suínos figuram como aspectos fundamentais para a manutenção
do bem-estar na granja. "Um tratador consciente, bem treinado e
sensível às necessidades dos suínos é a melhor garantia de que o bem-estar
vai ser assegurado", afirma Adroaldo Zanella. Há 11 anos fora do
Brasil, realizando estudos e pesquisas na área de bem-estar animal,
o veterinário e professor assistente da Michigan State University (EUA)
– universidade em que atua há cerca de três anos –, explica que um indivíduo
com baixa auto-estima utiliza, com freqüência, estratégias agressivas
para manejar suínos.
"Tal agressão demonstra ser extremamente prejudicial ao rendimento
dos animais", diz. Zanella confidencia que seu entusiasmo pela
área de bem-estar animal iniciou-se com o seu envolvimento na unidade
de produção de suínos ao ar livre de seus pais, em Paim Filho. Ele é
categórico quando fala sobre a preparação da mão-de-obra das granjas
suinícolas que adotam o sistema de criação ao ar livre. As características
desse sistema podem, em princípio, favorecer o bem-estar dos animais.
Por outro lado, unidades ao ar-livre conduzidas por mão-de-obra não
treinada pode pôr em risco a produtividade e o bem-estar dos animais.
"Todas as pessoas que atuam diretamente na granja (suinocultor,
técnicos e veterinários) deveriam ser treinadas na área de comportamento
e bem-estar animal". Outro grupo de estudo, o do pesquisador australiano
Paul Hemsworth, também comprovou que suínos tratados de forma agressiva
têm produtividade e desempenho reprodutivo reduzidos.
A médica veterinária Maria Nazaré Lisboa, uma das proprietárias da Consuitec
Assessoria Técnica, de Campinas (SP), há vários anos ministra cursos
de capacitação para funcionários de granjas suinícolas. Dentro desses
treinamentos, o assunto interação homem-animal é abordado com ênfase.
Discute-se bastante sobre a importância de o animal ser bem tratado.
"O que nós passamos a essas pessoas é a necessidade de se gostar
de trabalhar com os animais e, acima de tudo, ter muita paciência no
manejo". Nazaré explica que animais bem tratados e com boas condições
ambientais apresentam melhor resposta produtiva.
Como
é lá fora – Depois que foi diagnosticada a presença de dioxina (substância
altamente cancerígena) em boa parte da ração consumida pelos rebanhos
animais da Bélgica, a preocupação com a qualidade e procedência dos
alimentos cresceu muito entre os consumidores europeus. E, na visão
desses consumidores exigentes, sistemas alternativos de criação significam
produtos "confiáveis" e de qualidade. A sociedade européia
tem demandado um número cada vez maior de regulamentações para melhorar
a qualidade de vida dos suínos destinados ao abate. Os produtores, então,
sentem-se obrigados a investir em instalações, equipamentos e palha
(muito comum nos sistemas alternativos).
Há na Inglaterra e em toda União Européia uma lei que proíbe o desmame
de suínos antes de três semanas. Os especialistas europeus alegam que
os leitões precocemente desmamados (antes dos 21 dias) sofrem estresse
crônico. "Isso acontece porque os níveis do hormônio cortisol,
relacionado ao estresse animal, permanecem elevados em seu organismo
por mais de três dias após o desmame", explica Zanella. Essa lei
ainda pode ser alterada. O prazo mínimo de amamentação dos leitões na
UE deverá estender-se para quatro semanas. Existem outras regulamentações
naqueles países, como a exigência de que a porca gestante fique em grupos.
"A obrigatoriedade geral na Inglaterra é a de manter os animais
em grupo", conta.
Na contramão, encontra-se a indústria suína americana. Os Estados Unidos
apresentam um grande potencial para abastecer o mercado internacional
com carne barata. Porém, as tendências européias parecem falar mais
alto. "O suíno americano ainda é pouco competitivo, relacionado
às exigências mundiais de bem-estar", comenta Adroaldo Zanella.
A suinocultura brasileira, no entanto, tem se demonstrado mais adequada
a essas exigências. A divulgação do Siscal e a preocupação com o bem-estar
dos animais ganham pontos na preferência internacional. "Talvez,
a fórmula mágica para levar o suíno brasileiro até os supermercados
europeus esteja na adoção de sistemas alternativos de criação".
Legislação
– O Brasil conta com uma legislação clara e objetiva para defender os
direitos dos animais e garantir um tratamento mais humanitário às criações.
Mas nem sempre a lei é cumprida. E, muitas vezes, sequer é conhecida.
Conforme o artigo 3º do Decreto Federal nº 24.645, de 10 de julho de
1934, são considerados maus tratos manter animais em lugares anti-higiênicos
ou que lhes impeçam a respiração, o movimento ou o descanso, sem a presença
de ar ou luz; abandonar animal doente, ferido, extenuado ou mutilado,
bem como deixar de ministrar-lhe tudo que humanitariamente lhe possa
prover, inclusive assistência veterinária; não dar morte rápida, livre
de sofrimento prolongado, a todo animal cujo extermínio seja necessário
para consumo ou não; transportar animais em cestos, gaiolas ou veículos
sem as proporções necessárias ao seu tamanho e número de cabeças, e
sem que o meio de condução em que estão encerrados esteja protegido
por uma rede metálica ou idêntica, que impeça a saída de qualquer membro
animal; entre outros. Tais ações implicam em multa e em pena de prisão
de dois a quinze dias, seja o infrator o proprietário ou não do animal.
No Estado de São Paulo existe uma lei explícita para o abate humanitário
de animais destinados ao consumo. É a Lei nº 7.705, de 19 de fevereiro
de 1992, complementada pelo decreto nº 39.972, em 1995. Nela encontram-se
normatizadas as medidas cabíveis aos matadouros, matadouros-frigoríficos
e abatedouros do Estado. O artigo 1o prega "que é obrigatório
o emprego de métodos científicos modernos de insensibilização aplicados
antes da sangria, por processameto químico (gás CO2), choque elétrico
(eletronarcose), ou ainda, por outros métodos modernos que impeçam o
abate cruel de qualquer tipo de animal destinado ao consumo. Parágrafo
primeiro – É vedado o uso de marreta e da picada do bulbo (choupa),
bem como ferir ou mutilar os animais antes da insenbilização".
E as normas vão além. O artigo 5º, por exemplo, diz que "o corredor
de abate será adequado à espécie do animal a que se destina, visando
facilitar seu deslocamento sem provocar ferimentos ou contusões. Parágrafo
único – O animal que cair no corredor de abate será insensibilizado
no local aonde tombou antes de ser arrastado para o boxe. Artigo 6º
- Os animais, quando estiverem aguardando o abate, não poderão ser alvo
de maus tratos, provocações ou outras formas de falsa diversão pública,
ou ainda, sujeitos a qualquer condição que provoque estresse ou sofrimento
físico e psíquico".
TABELA
1
Confira na tabela abaixo as principais preocupações de adolescentes
australianos sobre comer carne
|
Proporção
de indivíduos (%)
|
| |
Vegetarianos
e semi-vegetarianos |
Não-vegetarianos |
| Crueldade
animal |
61 |
37 |
| Sensorial
(sangue, cheiro) |
44 |
5 |
| Carne
vermelha engorda |
30 |
13 |
| Carne
é prejudicial ao ambiente |
25 |
13 |
| Comer
carne não é saudável |
19 |
3 |
| Fonte:
Gregory, N.G. 1998. Animal
Welfare and Meat Science. |
Tendência Orgânica
O mercado para produtos de animais criados em condições "humanas"
(ou seja, num processo produtivo mais sustentável ecológica e energeticamente,
como o é a suinocultura intensiva ao ar livre) é crescente. É um filão
de mercado com enorme potencial e engloba exatamente aquela faixa de
consumidores de maior poder aquisitivo. Mas não só é genuína a preocupação
com o bem-estar dos animais, desde o seu nascimento até o seu abate,
como se faz presente em todos os setores da sociedade.
De acordo com o pesquisador Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho, da Universidade
Federal de Santa Catarina, os produtores brasileiros podem esperar uma
demanda crescente por produtos "orgânicos". Para a suinocultura
isso significa carne de animais criados a campo, livres de antibióticos
na ração, sem mutilações, saudáveis e "felizes". "Esta
é a imagem que, crescentemente, os consumidores vêm associando aos alimentos
que consomem".
O bem-estar dos animais está localizado no centro do mapa moral dos
homens. E isso não vai retroceder. Embora o movimento seja hoje liderado
por uma parcela minoritária da população, as demandas do público, cada
vez mais urbano, serão crescentes.
Machado Filho descreve três atitudes possíveis, por parte dos produtores,
técnicos e indústria, para com estas demandas. "A primeira é ignorá-las.
Se entendemos que não vai haver retrocesso nas preocupações de ordem
moral e ética do público, esta atitude é contraproducente e pode resultar
em perda de fatias do mercado."
A segunda é contrapor-se às pressões do público, fazendo campanhas publicitárias,
e utilizando a mídia. O resultado é imprevisível, além de caro. "É
difícil defender a idéia de que o sofrimento animal é justificável em
alguma circunstância. Ainda mais quando há, concretamente, alternativas",
exclarece Machado.
A terceira alternativa, segundo Machado, é promover o entendimento e
a cooperação, o que pode resultar em avanços no bem-estar animal e o
atendimento das demandas do público. "Penso que esse seja o caminho
mais adequado".
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