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O comedouro/bebedouro permite o fornecimento de ração úmida, que
melhora o consumo e o ganho de peso; o estrado de madeira evita
que a cama suje a ração.
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É
possível criar suínos de engorda como se fossem frangos de corte?
Quem respondeu que "sim", acertou. Com o desenvolvimento
do novo sistema Deep Bedding (em português chamado de "Cama
Sobreposta"), velhos galpões de frangos estão sendo usados
para criar suínos de engorda, em lotes que variam de 100 a 1000
animais em um só compartimento. O sistema "Cama Sobreposta"
consiste na criação de suínos sobre camas de material absorvente,
que não permitem o escoamento de dejetos (sólidos ou líquidos) para
fora do galpão. |
Quando
estas camas são retiradas ao final do período de engorda, já na
forma de "compostagem", são usadas como fertilizantes
agrícolas, completando um ciclo natural que não agride o meio ambiente.
Trata-se de um sistema que atende às expectativas modernas da criação
de animais, pois permite a produção de suínos respeitando o seu
bem-estar e o meio ambiente em que vivemos. Por estes motivos a
adoção do sistema permite ao criador desenvolver um marketing diferenciado,
pois o produto final atende às exigências do consumidor moderna. |
Cama sobreposta - Os fundamentos
que regem a engorda de suínos neste sistema, independentemente das suas
vantagens e desvantagens, são:
- Respeito
ao animal, proporcionando-lhe maior bem-estar.
- Proteção
do meio ambiente, devido ao uso de todos os dejetos, sob a forma de
compostagem, como adubos orgânicos.
- Marketing
e venda de um produto diferenciado, que atende às exigências do consumidor
moderno.
Em relação ao bem-estar dos animais este sistema atende às cinco principais
leis européias, pregoadas pelos Partidos Verde e Ecologistas:
- Os
animais não devem ser submetidos à fome e à desnutrição.
- Não
devem ter incômodo físico ou térmico.
- Não
devem estar sujeitos a instalações que causem lesões físicas ou predisponham
a enfermidades.
- Os
animais não devem estar sujeitos a situações de ansiedade ou estress.
- Deve
estar preservada a habilidade dos animais em expressar o seu comportamento
normal. Em relação à proteção do ambiente, o sistema de "cama
sobreposta", reduz a possibilidade de poluição das águas, do
acúmulo dos dejetos em lagoas, do mau cheiro e das moscas. A cama
é aplicada diretamente na agricultura, diminuindo o uso de fertilizantes
químicos e aumentando a carga de matéria orgânica do solo.
A
cama pode ser feita com o aproveitamento dos resíduos agrícolas da região,
diminuindo os problemas de sua eliminação.
Em relação às oportunidades de marketing, este sistema atende ao conceito
de "produção verde", aceito e exigido pelo consumidor moderno.
Trata-se de um sistema socialmente justo e ecologicamente correto. Por
isso, permite um marketing diferenciado, com grande potencial
para agregar uma receita adicional, o que compensaria o seu maior custo
de produção. Permite, também, a exportação para países com restrições
ecológicas e ambientalistas, como é o caso de vários países europeus
(especialmente a Inglaterra) e o Japão
Como
é a criação de suínos de engorda pelo sistema "cama sobreposta"?
O sistema usa basicamente o aproveitamento de velhos prédios ou galpões
de frangos de corte. A largura ideal desses galpões deve ser de 10 a
14 metros, sendo que o comprimento só interessa para determinar a quantidade
de suínos alojados. A densidade recomendada é de um suíno a cada 1,4
m2. Portanto, um galpão de 10 x 140 metros (1.400 m2), abrigaria 1.000
cabeças de uma só idade. Ter animais de uma só idade, com variação máxima
de uma semana entre os mais novos e os mais velhos, é recomendada para
evitar a transmissão de enfermidades. O tamanho ideal dos lotes é de
250 a 300 cabeças.
Normalmente esses prédios possuem uma mureta de 0,30 a 0,40 metros de
altura e uma tela de proteção de pássaros até o final do pé direito.
Uma cortina permite regular a ventilação e a entrada de chuva e sol.
O ideal, é que o prédio seja feito sobre solo arenoso, ou com boa capacidade
de absorver água, e construído no sentido transversal ao vento predominante.
O piso é recoberto com cama, como nos frangos de corte. Os materiais
mais usados são a casca de arroz, a palha do trigo, sabugo de milho
triturado, palhada da soja, papel picado e a maravalha. Esta última,
porém, é a menos indicada por causar linfoadenite nos suínos, que no
abate podem ser confundidas com lesões de Tuberculose e causar a condenação
das carcaças.
Inicialmente a cama é colocada a uma altura de 35 centímetros. Dependendo
da umidade do tempo e da ventilação, pode ser necessário acrescentar
mais cama durante o período de engorda do animal. Uma regra prática
do sistema, assume que é usado 1 Kg de cama para cada quilo de ganho
de peso do suíno alojado. Portanto, se um suíno entra com 20 Kg e é
abatido aos 100 Kg, são necessários 80 Kg de cama para abrigá-lo durante
o período de três meses de engorda. Devido ao grande consumo de cama,
o sistema é indicado para regiões que tenham boa disponibilidade da
mesma.
Quanto aos comedouros, são indicados somente os comedouros com chupeta,
que permitem o consumo de ração molhada. Nesse sistema, a água é fornecida
somente pelas chupetas dos comedouros, pois não podem ser colocadas
chupetas ou taças em outros locais, para evitar o umidecimento da cama.
É uma das bases e vantagens do sistema: economizar água, sem prejudicar
o consumo da mesma pelos animais. Os comedouros são normalmente colocados
sobre uma plataforma de madeira, para evitar que a cama caia na ração.
Essa plataforma possui uma medida que permite o suíno colocar suas quatro
patas sobre ela, em qualquer idade, para facilitar seu acesso ao comedouro.
Os comedouros são colocados numa só fileira em uma das laterais do galpão,
respeitando a medida de uma boca de comedouro para cada 12 a 15 suínos
alojados. A colocação lateral dos comedouros é importante, pois dessa
forma os suínos concentrarão seus dejetos no lado oposto.
Quando a largura do galpão for superior a 14 metros é desejável se colocar
duas fileiras de comedouros, uma em cada lado do galpão. Neste caso,
os suínos elegerão a região central do galpão para seus dejetos. Ao
final do lote, 60% da área conterá dejetos e 40% (áreas próximas aos
comedouros) estarão mais secas.
O uso de cama aumenta o calor dentro do galpão, o que é bom para o animal
novo que chega, mas é ruim para o animal com mais idade de engorda.
Alguns estudos demonstram temperaturas de até 8ºC a mais ao nível da
cama em relação ao meio ambiente externo. Por esse motivo, são preferidos
os galpões com "lanternim", que estejam em locais bem ventilados
ou que se coloquem ventiladores no interior dos mesmos. Os maiores problemas
de cama molhada ocorrem nos períodos de chuva, em que a umidade do ar
é maior e dificulta a secagem.
O uso desse sistema diminui drasticamente a quantidade de moscas e o
cheiro característico da criação de suínos. Na saída do lote, após a
retirada da cama, o piso é recoberto com uma pequena camada de cal e
atende um período de vazio sanitário de pelo menos sete dias.
Vantagens
e desvantagens - Os principais fatores que levam ao uso deste sistema
para a fase de engorda dos suínos são: a falta repentina de espaço (devido
a um aumento de produção), a falta de capital (para investir nos galpões
tradicionais de engorda) e a pressão da legislação ambiental (que não
permite a liberação dos dejetos nos rios ou que ameaça o fechamento
da granja devido à poluição do ar próximo às cidades). Algumas das principais
vantagens do sistema são:
-
Baixo
custo do investimento em instalação.
-
Melhor
atendimento à legislação ambiental, devido a eliminação dos dejetos.
-
Menor
agressão aos animais, permitindo a melhor expressão do seu comportamento.
-
Menor
consumo de água - Aproveitamento da cama para uso agrícola, como
fertilizante orgânico.
-
Diminuição
da expressão de vícios (canibalismo, morder paredes, brigas, etc).
-
Diminuição
das moscas e odores. Estudos mostram uma redução de 70% da amônia
produzida.
-
Diminuição
da mortalidade e melhora na uniformidade do lote.
-
Melhor
ganho de peso devido ao aumento do consumo de rações.
-
Possibilita
a adoção de um marketing de venda da carne que atende ao apelo do
consumir moderno.
-
Melhor
qualidade da carne (mais tenra, de melhor sabor e textura), devido
à maior atividade das células musculares, à menor ação dos gases
do meio ambiente e ao maior consumo de fibra (cama). Devido ao maior
custo operacional, a engorda de suínos no sistema deep bedding não
é normalmente adotada em granjas novas, que irão ser construídas.
A não ser que o novo projeto tenha uma boa base de marketing que
consiga um melhor preço do produto final.
As principais desvantagens do sistema cama sobreposta são:
-
Maior
consumo de ração.
-
Pior
conversão alimentar.
-
Aumento
da espessura de toucinho (que poderá ser contornada com a melhora
genética e com adoção de uma nutrição diferenciada).
-
Aumento
da necessidade de mão-de-obra, para colocação e retirada da cama.
-
Maior
dificuldade para carregar os animais.
-
Necessidade
de grande quantidade de cama.
-
Necessidade
de um manejo adequado dos animais e da cama, em relação ao sistema
tradicional de engorda em piso de cimento.
-
Maior
necessidade de ventilação - Requer bom nível sanitário do plantel.
-
Maior
custo operacional.
-
Exige
uma mão-de-obra mais dedicada.
Resultados
de campo - Os quadros 1 e 2 mostram os resultados comparativos da
engorda de suínos no sistema de cama sobreposta e no sistema de piso
tipo ripado de cimento. No quadro 1, os resultados comparam lotes mistos
de machos e fêmeas, enquanto que o quadro 2 compara resultados
apenas de lotes de machos inteiros. Os resultados apresentados comprovam,
na prática, as vantagens e desvantagens do sistema cama sobreposta
anteriormente mencionadas.
| Quadro
1: Comparativo da engorda de suínos no sistema "Cama
Sobreposta" versus "Piso ripado de cimento"
para lotes de sexo misto, de 26 a 115 Kg de peso: |
|
Piso
ripado de cimento
|
Sistema
Cama Sobreposta
|
|
M2/cabeças
|
0,7
|
1,4
|
|
Cabeças/baia
|
25
|
270
|
|
GPD,
Kg
|
1,02
|
1,03
|
|
Consumo
médio/dia, Kg
|
2,2
|
2,3
|
|
Conv.
Alimentar
|
2,15
|
2,24
|
|
Mortalidade,
%
(Wastell, 1999)
|
3,26
|
2,84
|
| Quadro
2: Rendimento de Machos Inteiros engordados no sistema
"Cama Sobreposta" versus sistema "Piso ripado
de Cimento", de 33 a 95 Kg. |
|
Sistema
Cama Sobreposta
|
Piso
ripado de cimento
|
|
GPD,
g
|
860
|
810
|
|
Consumo
médio, Kg
|
2,37
|
2,11
|
|
Conv.
Alimentar
|
2,75
|
2,61
|
|
Esp.Toucinho
P2 (mm) (Wastell, 1999)
|
13,8
|
11,2
|
Quadro
3: Mostra de maneira decrescente, as melhores opções de
cama para uso neste sistema. Para o julgamento, foram usados
os parâmetros de capacidade de absorção de água e a relação
Carbono/Nitrogênio (quanto maior, menor é o cheiro de amônia
no galpão): |
|
Tipo
de Cama
|
Capacidade
de Absorção de Água
|
Relação
Carbono/Nitrogênio
|
|
Palha
de trigo
|
210
|
125
|
|
Sabugo
de milho triturado
|
210
|
90
|
|
Casca
de arroz moída
|
170
|
120
|
|
Palha
de capim/pasto
|
100
|
20
|
|
Areia
|
25
|
0
(não é vegetal)
|
|
Maravalha
|
175
|
500
|
|
(cuidado
com possíveis lesões semelhantes à Tuberculose)
|
|
(Hill,
1999)
|
Quem
deve usar – O deep bedding é usado principalmente no Canadá, Estados
Unidos, Austrália, Argentina e Chile, e conta atualmente com 65 mil
animais. Está sendo utilizado por criadores pequenos e médios, que se
viram forçados a adotar o sistema devido à falta de espaço nas instalações
existentes e de capital para novos investimentos. As desvantagens, anteriormente
mencionadas (disponibilidade de cama, maior custo operacional e pior
conversão alimentar), associadas a um pequeno volume de informações
e testes confiáveis a respeito dos resultados do sistema, se contrapõem
às vantagens de uma produção que atende às exigências de bem-estar dos
animais e de proteção ao meio ambiente, pleiteadas pelo consumidor moderno.
Se de um lado o sistema tem um maior custo de produção, de outro lado,
não podemos nos esquecer que o grande tema do momento, e que certamente
direcionará os sistemas de produção do futuro, será o respeito aos animais
e a proteção do meio ambiente, seja a que custo for, por uma imposição
da sociedade e do consumidor.
Por esses motivos, o sistema de cama sobreposta deverá ser avaliado
com muita seriedade, evitando-se o otimismo exagerado (de que ele é
a solução de todos os problemas dos pequenos e médios criadores) ou
o pessimismo deprimente (de que nem deve ser considerado como uma alternativa
dentro do processo moderno de produção de suínos), pois a dinâmica de
nossa atividade nos coloca todos os dias frente a frente com novos desafios,
que nos obrigam a buscar soluções criativas e eficientes. Nem que para
isso tenhamos que quebrar velhos e intransponíveis paradigmas.
A verdade é que os dados aqui apresentados, mostram que este sistema
é viável e tem um excelente apelo comercial, aplicável às nossas campanhas
de divulgação do consumo da carne suína. Não é o único sistema e talvez
nem o melhor para atender a esses objetivos, mas certamente é uma boa
opção entre as que dispomos atualmente.
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Médico veterinário e diretor de marketing da Nutron Alimentos.
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