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Deep Bedding
(Por: Luciano Roppa)*

<- O comedouro/bebedouro permite o fornecimento de ração úmida, que melhora o consumo e o ganho de peso; o estrado de madeira evita que a cama suje a ração.

É possível criar suínos de engorda como se fossem frangos de corte? Quem respondeu que "sim", acertou. Com o desenvolvimento do novo sistema Deep Bedding (em português chamado de "Cama Sobreposta"), velhos galpões de frangos estão sendo usados para criar suínos de engorda, em lotes que variam de 100 a 1000 animais em um só compartimento. O sistema "Cama Sobreposta" consiste na criação de suínos sobre camas de material absorvente, que não permitem o escoamento de dejetos (sólidos ou líquidos) para fora do galpão.

Quando estas camas são retiradas ao final do período de engorda, já na forma  de "compostagem", são usadas como fertilizantes agrícolas, completando um ciclo natural que não agride o meio ambiente. Trata-se de um sistema que atende às expectativas modernas da criação de animais, pois permite a produção de suínos respeitando o seu bem-estar e o meio ambiente em que vivemos. Por estes motivos a adoção do sistema permite ao criador desenvolver um marketing diferenciado, pois o produto final atende às exigências do consumidor moderna.

Cama sobreposta - Os fundamentos que regem a engorda de suínos neste sistema, independentemente das suas vantagens e desvantagens, são:

  • Respeito ao animal, proporcionando-lhe maior bem-estar.
  • Proteção do meio ambiente, devido ao uso de todos os dejetos, sob a forma de compostagem, como adubos orgânicos.
  • Marketing e venda de um produto diferenciado, que atende às exigências do consumidor moderno.

     Em relação ao bem-estar dos animais este sistema atende às cinco principais leis européias, pregoadas pelos Partidos Verde e Ecologistas:

  • Os animais não devem ser submetidos à fome e à desnutrição.
  • Não devem ter incômodo físico ou térmico.
  • Não devem estar sujeitos a instalações que causem lesões físicas ou predisponham a enfermidades.
  • Os animais não devem estar sujeitos a situações de ansiedade ou estress.
  • Deve estar preservada a habilidade dos animais em expressar o seu comportamento normal. Em relação à proteção do ambiente, o sistema de "cama sobreposta", reduz a possibilidade de poluição das águas, do acúmulo dos dejetos em lagoas, do mau cheiro e das moscas. A cama é aplicada diretamente na agricultura, diminuindo o uso de fertilizantes químicos e aumentando a carga de matéria orgânica do solo.

A cama pode ser feita com o aproveitamento dos resíduos agrícolas da região, diminuindo os problemas de sua eliminação.

Em relação às oportunidades de marketing, este sistema atende ao conceito de "produção verde", aceito e exigido pelo consumidor moderno. Trata-se de um sistema socialmente justo e ecologicamente correto. Por isso, permite um marketing diferenciado, com grande potencial  para agregar uma receita adicional, o que compensaria o seu maior custo de produção. Permite, também, a exportação para países com restrições ecológicas e ambientalistas, como é o caso de vários países europeus (especialmente a Inglaterra) e o Japão

Como é a criação de suínos de engorda pelo sistema "cama sobreposta"?

O sistema usa basicamente o aproveitamento de velhos prédios ou galpões de frangos de corte. A largura ideal desses galpões deve ser de 10 a 14 metros, sendo que o comprimento só interessa para determinar a quantidade de suínos alojados. A densidade recomendada é de um suíno a cada 1,4 m2. Portanto, um galpão de 10 x 140 metros (1.400 m2), abrigaria 1.000 cabeças de uma só idade. Ter animais de uma só idade, com variação máxima de uma semana entre os mais novos e os mais velhos, é recomendada para evitar a transmissão de enfermidades. O tamanho ideal dos lotes é de 250 a 300 cabeças.
 
Normalmente esses prédios possuem uma mureta de 0,30 a 0,40 metros de altura e uma tela de proteção de pássaros até o final do pé direito. Uma cortina permite regular a ventilação e a entrada de chuva e sol. O ideal, é que o prédio seja feito sobre solo arenoso, ou com boa capacidade de absorver água, e construído no sentido transversal ao vento predominante. O piso é recoberto com cama, como nos frangos de corte. Os materiais mais usados são a casca de arroz, a palha do trigo, sabugo de milho triturado, palhada da soja, papel picado e a maravalha. Esta última, porém, é a menos indicada por causar linfoadenite nos suínos, que no abate podem ser confundidas com lesões de Tuberculose e causar a condenação das carcaças.
 
Inicialmente a cama é colocada a uma altura de 35 centímetros. Dependendo da umidade do tempo e da ventilação, pode ser necessário acrescentar mais cama durante o período de engorda do animal. Uma regra prática do sistema, assume que é usado 1 Kg de cama para cada quilo de ganho de peso do suíno alojado. Portanto, se um suíno entra com 20 Kg e é abatido aos 100 Kg, são necessários 80 Kg de cama para abrigá-lo durante o período de três meses de engorda. Devido ao grande consumo de cama, o sistema é indicado para regiões que tenham boa disponibilidade da mesma.
 
Quanto aos comedouros, são indicados somente os comedouros com chupeta, que permitem o consumo de ração molhada. Nesse sistema, a água é fornecida somente pelas chupetas dos comedouros, pois não podem ser colocadas chupetas ou taças em outros locais, para evitar o umidecimento da cama. É uma das bases e vantagens do sistema: economizar água, sem prejudicar o consumo da mesma pelos animais. Os comedouros são normalmente colocados sobre uma plataforma de madeira, para evitar que a cama caia na ração. Essa plataforma possui uma medida que permite o suíno colocar suas quatro patas sobre ela, em qualquer idade, para facilitar seu acesso ao comedouro.
 
Os comedouros são colocados numa só fileira em uma das laterais do galpão, respeitando a medida de uma boca de comedouro para cada 12 a 15 suínos alojados. A colocação lateral dos comedouros é importante, pois dessa forma os suínos concentrarão seus dejetos no lado oposto.
 
Quando a largura do galpão for superior a 14 metros é desejável se colocar duas fileiras de comedouros, uma em cada lado do galpão. Neste caso, os suínos elegerão a região central do galpão para seus dejetos. Ao final do lote, 60% da área conterá dejetos e 40% (áreas próximas aos comedouros) estarão mais secas.
 
O uso de cama aumenta o calor dentro do galpão, o que é bom para o animal novo que chega, mas é ruim para o animal com mais idade de engorda. Alguns estudos demonstram temperaturas de até 8ºC a mais ao nível da cama em relação ao meio ambiente externo. Por esse motivo, são preferidos os galpões com "lanternim", que estejam em locais bem ventilados ou que se coloquem ventiladores no interior dos mesmos. Os maiores problemas de cama molhada ocorrem nos períodos de chuva, em que a umidade do ar é maior e dificulta a secagem.
 
O uso desse sistema diminui drasticamente a quantidade de moscas e o cheiro característico da criação de suínos. Na saída do lote, após a retirada da cama, o piso é recoberto com uma pequena camada de cal e atende um período de vazio sanitário de pelo menos sete dias.

Vantagens e desvantagens - Os principais fatores que levam ao uso deste sistema para a fase de engorda dos suínos são: a falta repentina de espaço (devido a um aumento de produção), a falta de capital (para investir nos galpões tradicionais de engorda) e a pressão da legislação ambiental (que não permite a liberação dos dejetos nos rios ou que ameaça o fechamento da granja devido à poluição do ar próximo às cidades). Algumas das principais vantagens do sistema são:

  • Baixo custo do investimento em instalação.

  • Melhor atendimento à legislação ambiental, devido a eliminação dos dejetos.

  • Menor agressão aos animais, permitindo a melhor expressão do seu comportamento.

  • Menor consumo de água - Aproveitamento da cama para uso agrícola, como fertilizante orgânico.

  • Diminuição da expressão de vícios (canibalismo, morder paredes, brigas, etc).

  • Diminuição das moscas e odores. Estudos mostram uma redução de 70% da amônia produzida.

  • Diminuição da mortalidade e melhora na uniformidade do lote.

  • Melhor ganho de peso devido ao aumento do consumo de rações.

  • Possibilita a adoção de um marketing de venda da carne que atende ao apelo do consumir moderno.

  • Melhor qualidade da carne (mais tenra, de melhor sabor e textura), devido à maior atividade das células musculares, à menor ação dos gases do meio ambiente e ao maior consumo de fibra (cama). Devido ao maior custo operacional, a engorda de suínos no sistema deep bedding não é normalmente adotada em granjas novas, que irão ser construídas. A não ser que o novo projeto tenha uma boa base de marketing que consiga um melhor preço do produto final.

    As principais desvantagens do sistema cama sobreposta são:

  • Maior consumo de ração.

  • Pior conversão alimentar.

  • Aumento da espessura de toucinho (que poderá ser contornada com a melhora genética e com adoção de uma nutrição diferenciada).

  • Aumento da necessidade de mão-de-obra, para colocação e retirada da cama.

  • Maior dificuldade para carregar os animais.

  • Necessidade de grande quantidade de cama.

  • Necessidade de um manejo adequado dos animais e da cama, em relação ao sistema tradicional de engorda em piso de cimento.

  • Maior necessidade de ventilação - Requer bom nível sanitário do plantel.

  • Maior custo operacional.

  • Exige uma mão-de-obra mais dedicada.

Resultados de campo - Os quadros 1 e 2 mostram os resultados comparativos da engorda de suínos no sistema de cama sobreposta e no sistema de piso tipo ripado de cimento. No quadro 1, os resultados comparam lotes mistos de machos e fêmeas, enquanto que o quadro 2 compara  resultados apenas de lotes de machos inteiros. Os resultados apresentados comprovam, na prática, as  vantagens e desvantagens do sistema cama sobreposta anteriormente mencionadas.

Quadro 1: Comparativo da engorda de suínos no sistema "Cama Sobreposta" versus "Piso ripado de cimento" para lotes de sexo misto, de 26 a 115 Kg de peso:

Piso ripado de cimento

Sistema Cama Sobreposta

M2/cabeças

0,7

1,4

Cabeças/baia

25

270

GPD, Kg

1,02

1,03

Consumo médio/dia, Kg

2,2

2,3

Conv. Alimentar

2,15

2,24

Mortalidade, %
(Wastell, 1999)

3,26

2,84


Quadro 2: Rendimento de Machos Inteiros engordados no sistema "Cama Sobreposta" versus sistema "Piso ripado de Cimento", de 33 a 95 Kg.

Sistema Cama Sobreposta

Piso ripado de cimento

GPD, g

860

810

Consumo médio, Kg

2,37

2,11

Conv. Alimentar

2,75

2,61

Esp.Toucinho P2 (mm) (Wastell, 1999)

13,8

11,2


Quadro 3: Mostra de maneira decrescente, as melhores opções de cama para uso neste sistema. Para o julgamento, foram usados os parâmetros de capacidade de absorção de água e a relação Carbono/Nitrogênio (quanto maior, menor é o cheiro de amônia no galpão):

Tipo de Cama

Capacidade de Absorção de Água

Relação Carbono/Nitrogênio

Palha de trigo

210

125

Sabugo de milho triturado

210

90

Casca de arroz moída

170

120

Palha de capim/pasto

100

20

Areia

25

0 (não é vegetal)

Maravalha

175

500

(cuidado com possíveis lesões semelhantes à Tuberculose)

(Hill, 1999)

Quem deve usar – O deep bedding é usado principalmente no Canadá, Estados Unidos, Austrália, Argentina e Chile, e conta atualmente com 65 mil animais. Está sendo utilizado por criadores pequenos e médios, que se viram forçados a adotar o sistema devido à falta de espaço nas instalações existentes e de capital para novos investimentos. As desvantagens, anteriormente mencionadas (disponibilidade de cama, maior custo operacional e pior conversão alimentar), associadas a um pequeno volume de informações e testes confiáveis a respeito dos resultados do sistema, se contrapõem às vantagens de uma produção que atende às exigências de bem-estar dos animais e de proteção ao meio ambiente, pleiteadas pelo consumidor moderno. Se de um lado o sistema tem um maior custo de produção, de outro lado, não podemos nos esquecer que o grande tema do momento, e que certamente direcionará os sistemas de produção do futuro, será o respeito aos animais e a proteção do meio ambiente, seja a que custo for, por uma imposição da sociedade e do consumidor.
 
Por esses motivos, o sistema de cama sobreposta deverá ser avaliado com muita seriedade, evitando-se o otimismo exagerado (de que ele é a solução de todos os problemas dos pequenos e médios criadores) ou o pessimismo deprimente (de que nem deve ser considerado como uma alternativa dentro do processo moderno de produção de suínos), pois a dinâmica de nossa atividade nos coloca todos os dias frente a frente com novos desafios, que nos obrigam a buscar soluções criativas e eficientes. Nem que para isso tenhamos que quebrar velhos e intransponíveis paradigmas.
 
A verdade é que os dados aqui apresentados, mostram que este sistema é viável e tem um excelente apelo comercial, aplicável às nossas campanhas de divulgação do consumo da carne suína. Não é o único sistema e talvez nem o melhor para atender a esses objetivos, mas certamente é uma boa opção entre as que dispomos atualmente.

* Médico veterinário e diretor de marketing da Nutron Alimentos.

FONTE:
Revista Suinocultura Industrial - Número 143 - Fev/Mar/2000
Gessulli Agribusiness
Pça Sergipe, 156 – CEP 18540-000 – Porto Feliz-SP
Tel: (15) 262-3133 / 262-3919
E-mail: gessulli@gessulli.com.br

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