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Sarcocystis e toxoplasma
(Por: J.P. Dubey, C.E. Kerber e D.E. Granstrom)

Os protozoários dos gêneros Sarcocystis, Neospora e Toxoplasma freqüentemente causam encefalomielite nos animais domésticos. A mieloencefalite protozoária eqüina (MEP) é um distúrbio neurológico dos cavalos nas Américas, mais freqüentemente causado pelo protozoário Sarcocystis neurona. Esse protozoário foi primeiro identificado em 1974 no sistema nervoso de cavalos com MEP e pensava-se que o agente causal era o Toxoplasma gondii. Em 1991, um protozoário foi cultivado in vitro a partir de material proveniente de tecido nervoso de um cavalo com paralisia e foi nomeado Sarcocystis neurona. O desenvolvimento de um teste diagnóstico ante-morten, usando os merozoitas cultivados como antígeno, levou ao descobrimento que a MEP é uma das mais importantes causas de distúrbios neurológicos nos cavalos da América do Norte e que a exposição ao parasita tem alta prevalência nos Estados Unidos. Recentemente, um outro distúrbio neurológico semelhante a MEP em cavalos foi associado com infecções por Neospora spp, e uma espécie de Sarcocystis ainda não descrita foi reportada como agente causal de distúrbio semelhante à MEP em um cavalo.
     Exceto por uma descrição de um caso de infecção por S. neurona no Panamá e dois casos no Brasil, todos os casos descritos de MEP, inclusive aqueles de Neospora spp e Sarcocystis spp, foram na América do Norte. Embora as evidências que o T. gondii cause doenças nos cavalos não sejam um consenso, há descrições de um caso de infecção por T. gondii nos olhos de potros abortados no Reino Unido e no sistema nervoso central de eqüinos no Brasil. O objetivo deste estudo foi determinar a prevalência sorológica do S. neurona, T. gondii, e N. caninum no Brasil.

Materiais e métodos
    
Foram coletadas amostras de sangue de 101 (52 machos e 49 fêmeas) cavalos PSI saudáveis em setembro de 1998: 70 cavalos alojados no Jockey Club de São Paulo, 15 em um centro de treinamento no Rio de Janeiro e 16 animais em um haras no Rio Grande do Sul. Para a determinação de anticorpos contra T. gondii foi utilizada a prova de aglutinação modificada e para N. caninum também. Para a determinação de anticorpos contra S. neurona, foi utilizada a técnica de Western Blot. Anticorpos contra as bandas de peso molecular de 13.0, l1.0, 10.5 e 10.0 kd foram considerados específicos para diagnóstico de infecção por S. neurona.

Resultados
    
Anticorpos contra S. neurona e T. gondii foram detectados em 36 e 16 dos 101 cavalos respectivamente. Destes, somente 4 cavalos eram soropositivos para ambas as espécies. Anticorpos contra N. caninum não foram encontrados em nenhum cavalo.

Discussão
    
Os resultados dessa investigação indicam que 36% dos 101 cavalos clinicamente normais haviam sido expostos ao S. neurona. Esses resultados são similares a prevalência sorológica de S. neurona em outras três áreas geográficas dos EUA. A detecção desses anticorpos indica somente exposição e não a doença clínica. A detecção de anticorpos no fluido cerebroespinal indica a produção local de anticorpos que é atribuída à invasão do SNC por microrganismos, ou ainda à contaminação iatrogênica ou ainda ao aumento da permeabilidade da barreira hemato-encefálica. O conhecimento da prevalência da exposição ao S. neurona na população eqüina é útil para avaliar os resultados da análise do imunoblot.
     A alta prevalência de anticorpos anti-S. neurona detectada neste estudo indica forte contaminação ambiental. O único hospedeiro definitivo conhecido até o momento para o S. neurona é o gambá americano (Didelphis virginiana); esporocistos e oocistos resistentes são liberados nas fezes desses animais. A maneira pela qual esses animais se tornam infectados ainda é desconhecida. Embora o gambá americano não seja encontrado na América Central e do Sul, duas espécies próximas, o Didelphis marsupialis e o Didelphis albiventris, podem ser observadas. Se essas espécies ou outros carnívoros são os hospedeiros para S. neurona ainda é desconhecido. Até o momento, o S. neurona não foi isolado de qualquer espécie no Brasil.
     O hospedeiro intermediário para o S. neurona também permanece desconhecido. Aparentemente, cavalos são hospedeiros aberrantes, já que somente esquizontes e não sarcocistos são encontrados no SNC e estes não são infectantes para os carnívoros.
     Embora o T. gondii possa infectar eqüinos (conforme revelado por levantamentos sorológicos e isolamento de T. gondii de tecidos de eqüinos), a evidência definitiva que o T.gondii causa doença clínica no cavalo não foi comprovada. Antes do descobrimento do S. neurona, vários artigos descrevendo distúrbios nervosos em eqüinos semelhantes à MEP foram atribuídos ao T. gondii. mas os protozoários descritos por Cusick et al e Beach & Dodd foram subseqüentemente identificados como S. neurona. Com base nos exames histológicos de tecidos de eqüinos no Brasil, os quais se imaginava serem de T. gondii, o autor principal (Dubey) está convencido que o organismo se trata de S. neurona.
    
Até o momento, a neosporose clínica em cavalos tem sido descrita somente nos EUA, enquanto em outras espécies há descrições em vários continentes. Conhece-se pouco sobre a prevalência de anticorpos contra Neospora spp em cavalos infectados subclinicamente. Recentemente, anticorpos contra Neospora spp foram encontrados em 21,3% de 296 eqüinos nos EUA a serem exportados para produção de carne, em contraste com nosso estudo, embora a mesma técnica fosse usada em ambos os estudos. As razões para a baixa prevalência e a ausência de descrição de casos clínicos em outros países não são claras.
     Em nosso estudo, anticorpos contra S. neurona, T. gondii e N. caninum não foram encontrados em dez potros com menos de l ano. Até o momento, a evidência de que S. neurona, N. caninum e T. gondii possam causar infecção trans-placentária não foi confirmada.

Artigo extraído do Journal of American Veterinary Medical Association in Press, 1999.

FONTE:
Revista Puro Sangue Inglês –  Número 59 - 2000
Editora Segmento Ltda

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